Mudança!

O Outras Vias mudou para dentro do portal ((o)) eco, ao qual esteve conectado desde sua criação. A alteração ajudará a integrar o conteúdo com o de outras editorias do site, a fortalecer ((o)) eco Bicicletas e é o primeiro passo de uma série de novidades que vem por aí. Em breve, quem sempre digitou http://outrasvias.com.br/ será diretamente redirecionado para o novo endereço  http://www.oeco.com.br/outrasvias

O arquivo inteiro do site será mantido no https://outrasvias.wordpress.com/ e continua aberto em licença C.C. 3.0, como indica esse botãozinho aí do lado. Todo conteúdo pode ser reproduzido contanto que citado o crédito. A biblioteca, com todas indicações de leitura sobre mobilidade urbana, terá um cantinho especial no novo endereço – como devem ter todas as bibliotecas.

Eu e toda equipe de ((o)) eco que trabalhou nas mudanças torcemos para que gostem da nova página. Dúvidas, sugestões, críticas ou reclamações, continuo no danielsantini @ gmail.com

Santini

 

 

 

Ferreiro troca carro por bicicleta para economizar

Miguel é um ferreiro que, desde 2001, têm feito carretos atravessando São Paulo de bicicleta. “Desisti do carro. O preço da gasolina subiu, tem trânsito demais e não compensa”, me explicou em frente ao Memorial da América Latina, enquanto pedalávamos lado a lado na última faixa da avenida, atentos ao trânsito. Ferreiro rápido, tive que me esforçar para alcançá-lo e depois manter o mesmo ritmo que ele, mesmo com um carrinho parcialmente cheio. Quando ele entope o carreto de ferro, a carga chega a pesar dezenas de quilos.

“Dá para ir para todos os cantos. Eu vou até Santo Amaro, até o Campo Limpo, toda a cidade. Agora mesmo estou indo para Santo André”, afirmou, sorrindo tranquilo. “Essa bicicleta é mais nova, ela rende muito melhor. A outra que eu tinha era bem ruim”, completou, antes de virar à direita na Avenida Pacaembu e seguir seu caminho, desta vez pela calçada. “Um bom dia aí meu amigo, a gente se vê”, acenou.

Valeu, seu Miguel!

A violência do medo

O Odir Züge Jr., professor universitário, ciclista cotidiano e amador e colaborador eventual de ((o)) eco Bicicletas, participou do Audax 600 no último final de semana. Depois de pedalar por mais de 17 horas e ter vencido mais de 280 km da prova (distância suficiente para ir até Avaré, ou quase o necessário para ir e voltar de Sorocaba), ele foi atacado. Em uma subida, enquanto pedalava devagar, viu um carro se aproximar. Rápido, de um jeito covarde, o passageiro gritou para assustá-lo. Talvez tenha dado um tapa também, o Odir não lembra. Ele foi para o chão, se arrebentou. Ouviu um “aê, se fudeu” e viu o carro se afastando. Não sofreu nenhum ferimento mais grave, mas se machucou e teve que desistir da prova. O Audax 600 terminou no km 355 para ele.

É mais um episódio violento, covarde, triste, entre tantos episódios recentes. Mais um. Na semana passada teve a morte do empresário Antonio Bertolucci, de 68 anos, atropelado por um ônibus na Avenida Sumaré. Na retrasada, teve a do metalúrgico Rubens Cardoso dos Santos , de 40 anos, atropelado por um caminhão perto de Guarulhos, esta menos noticiada. Depois, morreu mais uma pessoa em em Fortaleza. E um em Goiás. E mais um e mais um.

A falta de cuidado com a vida assusta, apavora. O medo congela, deixa a perna mole, sem força para empurrar o pedal, sem vontade. O sangue derrete em desânimo.

O medo
Seu Manoel é um senhor simpático, do tipo que dá bom dia sorrindo todos os dias. Conversa animado, com um sotaque português antigo, pergunta sobre a vida, sobre o trabalho, a família. Não foram poucas as vezes que eu me atrasei conversando com ele na portaria do meu prédio. Seu Manoel não sai para a rua, tem medo de se machucar nas calçadas mal cuidadas do bairro. Não é o único no prédio. Outra senhora também, só que esta, por recomendação médica, tem que caminhar pelo menos por meia hora todo dia. E regularmente eu a vejo caminhando entre a quadra apertada e o estacionamento dos carros, de um lado para o outro, de um lado para o outro, de um lado para o outro.

No bairro, em vários prédios pessoas caminham nas garagens. Não só por medo das armadilhas das calçadas esburacadas, mas também por medo de assaltos. À noite, tem trechos desertos, em que não se vê viva alma. Nos quarteirões em que só há muros altos e avenidas de alta velocidade, a sensação é de risco constante mesmo. Sem ninguém na rua, nem as câmeras garantem segurança. Nem as grades, pelo menos não para quem está do lado de fora.

Há crianças que moram a algumas quadras da escola, mas que vão estudar levados por motoristas particulares. Medo de sequestros, da violência das ruas. E, de repente, vira algo normal viver vigiado, cercado, murado, armado.

A violência do medo.

Leia “antes que eu me esqueça”, no phylings

Segurança
Aumentaram os casos de atropelamentos de ciclistas no trânsito? Começaram a acontecer mais tragédias? Ou a mídia, no embalo da morte de um empresário importante e das manifestações cada vez mais intensas e bem direcionadas de cicloativistas, começou a prestar mais atenção no assunto? É suicídio se arriscar a andar de bicicleta em uma cidade como São Paulo? É loucura pensar em pedalar sem capacete? (e, sim, este texto é uma continuação do “a estética do medo”).

É importante atentar à segurança, ter cuidado, preservar a vida. Sempre. Assim como é importante não deixar que o excesso de zelo ceife esta mesma vida. Vale mesmo viver enjaulado, frustrado, preso a uma sensação de segurança que muitas vezes não passa disso, sensação? Viver e contribuir para um suicídio coletivo em uma cidade fedida e acelerada demais.

O equilíbrio entre responsabilidade e paranoia é tênue e cada um sabe o seu. Decidir limites é uma questão individual e é preciso respeitar a escolha de cada um. Andar de bicicleta é um direito e está longe de ser um gesto suicída ou de gente maluca; para muita gente, é a única opção economicamente viável de transporte.

É importante que cada um saiba o risco que quer correr. Informações na mídia detalhadas, com dados estatísticos, indicações de onde e como acontecem atropelamentos, ajudam mais do que meramente repetir histórias trágicas – apesar de, talvez, não darem tanta audiência. Pensar nessas horas é melhor do que apenas sentir. Eu não gosto de disputar espaço com ônibus ou caminhões, ou em andar em avenidas com carros grandes porque sei que atropelamentos fatais costumam envolver veículos grandes ou velocidade. A decisão é de cada um e deve ser respeitada.

Aliás, mesmo tendo sido atacado, o Odir não desistiu de pedalar ou de um dia completar o Audax 600. Ele pode até sofrido uma agressão covarde, mas a violência do medo não o derrubou.

Copenhague e o Cidades para Pessoas

Saiu a primeira reportagem do projeto Cidade para Pessoas, da jornalista Natália Garcia. Em busca de informações sobre experiências bem sucedidadas de sistemas de transporte e organização espacial, ela viajou para conhecer algumas das cidades com planejamento urbano mais avançado do mundo.

A primeira parada, não por acaso, foi Copenhague, definida pela Natália como a cidade das bicicletas. É lá que começou o trabalho do arquiteto Jan Gehl, um urbanista que teve a ousadia de propor a prioridade para pessoas e não automóveis na configuração do meio urbano. É daí que vem o nome do projeto. A viagem está só começando, mas já rendeu uma primeira reportagem bem completa, com fotos, texto, infográficos e este vídeo, reproduzido abaixo com autorização da moça.

Aliás, o Cidade para Pessoas, assim como o Outras Vias, é todo em Creative Commons e todo conteúdo encontrado nas páginas pode ser distribuído por aí. Pode não, deve.

=)

Leitores de todo o Brasil se solidarizam com família Bertolucci

Foto de Gonzalo Cuéllar (clique na imagem)

Não foi só em São Paulo que a morte do empresário Antonio Bertolucci, de 68 anos, atropelado de maneira brutal na manhã de segunda-feira, dia 15 de junho, provocou manifestações de solidariedade e indignação. Leitores do Outras Vias de diversas partes do Brasil deixaram nos comentários do blog mensagens de apoio à família do ciclista. “Que triste! Minha solidariedade aos familiares do Sr. Antônio Bertolucci. Nenhuma morte pode ser aceita. Não moro em São Paulo, mas aqui em Floripa enfrentamos o mesmo desrespeito. Não dá mais pra se calar…”, escreveu Mayra Caju Warren.

Foto de Gonzalo Cuéllar (clique na imagem)

Em São Paulo, no dia da tragédia, ciclistas organizaram uma manifestação pública de apoio e pedido de mais cuidado para quem dirige. Foi pintada e colocada uma Ghost Bike, uma Bicicleta Fantasma, no local do acidente. “Isso já não é apenas mais triste mas sim TRÁGICO! Pedalo no Rio de Janeiro e aqui também é assustadora a violência contra ciclistas. Meu apoio, carinho e solidariedade aos familiares do Sr. Antonio”, escreveu Cristina Amazonas.

Foto de Gonzalo Cuéllar (clique na imagem)

Em linhas gerais, os leitores deixaram mensagens exigindo respeito, atenção e cuidado por parte dos motoristas. Cobraram das autoridades a construção de ciclovias em avenidas e estrutura cicloviária adequada para a cidade e pediram menos violência no trânsito. “Triste e revoltante. Sou de Porto Alegre e mando solidariedade à família. Motoristas de ônibus deveriam ser exemplares, mas vejo muitos que andam descontrolados, sem dar a mínima pra ciclistas e pedestres. E o pior é que isso é tratado como normal. Pegaram os dados do ônibus?”, escreveu Melissa. “Sentimentos à família e todo apoio daqui de Salvador! Não aceitamos mais mortes! Não foi acidente!”, escreveu Ana Elisa.

Foto de Gonzalo Cuéllar (clique na imagem)

Todos os comentários podem ser lidos aqui. NÃO ACEITAMOS MAIS NENHUMA MORTE.

Enquete: é viável andar de carro em SP?

Por conta do atropelamento do Antonio Bertolucci, o Estadão publicou a enquete “é viável andar de bicicleta em SP?”. Por sugestão do Thiago Benicchio, diretor da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo e colaborador eventual do Outras Vias, este blog propõe uma outra enquete, também sobre viabilidade e trânsito em São Paulo.

Ainda sobre a triste tragédia, vale ler os textos:

Por que não foi acidente, no vádebike.org
A brancura das bicicletas, no asbicicletas
Motoristas precisam aprender a dividir o espaço com as bicicletas, na Globo
“É preciso diminuir o límite de velocidade”, na ÉpocaSp
De bicicleta, hoje foi um dia daqueles, no debicicleta
Luto pelo que acreditamos, nas Pedalinas

Não aceitamos mais nenhuma morte

Na manhã desta segunda-feira (13), Antonio Bertolucci, empresário de 68 anos, foi atropelado por um ônibus quando andava de bicicleta no acesso à Avenida Sumaré, em frente à Praça Caetano Fraccaroli, na Zona Oeste de São Paulo. A família está arrasada e pede para que quem pedala na cidade se mobilize para evitar que tragédias como esta se repitam. Uma manifestação de indignação e solidariedade foi marcada para hoje, às 19h, no local do acidente.

NÃO ACEITAMOS MAIS NENHUMA MORTE.

Bertolucci era um ciclista experiente e apaixonado por bicicletas, segundo a família contou para a Aline Cavalcante, amiga querida que foi até o 14º Distrito Policial, onde o caso foi encaminhado, para prestar solidariedade. O motorista do ônibus alega que ele estava em um ponto-cego. O impacto foi tão violento que, mesmo tendo sido encaminhado para o Hospital das Clínicas, do lado de onde a tragédia aconteceu ele morreu. Tivesse respeitado a distância mínima de 1,5 metros, que deve ser observada ao ultrapassar ciclistas segundo o Código Brasileiro de Trânsito, talvez o motorista tivesse conseguido desviar. Tivesse diminuído a velocidade ao visualizar Bertolucci, talvez o motorista tivesse conseguido evitar o luto de mais uma família.

NÃO ACEITAMOS MAIS NENHUMA MORTE.

Chega. É hora de São Paulo mudar de uma vez. O sistema de transporte baseado em loucas avenidas com gente acelerando para todo canto não funciona; é lento, congestiona, poluí e mata a cidade. Queremos mudanças e queremos mudanças já. Queremos cidades com sistemas de transporte coletivo eficientes, calçadas largas, ciclovias, rotas com trânsito compartilhado, sinalização e velocidade reduzida. Queremos mais espaço para bicicletas e pessoas, e menos para quem gosta de brincar de corrida. Exigimos respeito.

NÃO ACEITAMOS MAIS NENHUMA MORTE.

Bicicletas em São Paulo são realidade e merecem atenção do poder público. É preciso oficializar as ciclo-rotas da cidade, é preciso sinalizar e orientar os motoristas quanto ao compartilhamento de vias e à necessidade de cuidado e respeito com os veículos menores. É preciso punir quem não respeitar a distância de 1,5 metros ao ultrapassar ciclistas (ou esperar para fazer uma ultrapassagem segura, quando é o caso). É preciso acabar com a imprudência de quem dirige máquinas de toneladas e age como se a pressa valesse mais do que a vida.

NÃO ACEITAMOS MAIS NENHUMA MORTE.

Solidariedade com a família.

Leia também (links sendo adicionados ao longo do dia):
página wiki sobre o acidente, na bicicletada.org
luto, no PsCycle
ciclista morre atropelado, no Estadão
chega de mortes, no vádebike.org
presidente do conselho da Lorenzetti morre atropelado, na Folha
apaixonado por bicicletas, ciclista fazia o mesmo trajeto a décadas, no Estadão

 


Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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