A violência do medo

O Odir Züge Jr., professor universitário, ciclista cotidiano e amador e colaborador eventual de ((o)) eco Bicicletas, participou do Audax 600 no último final de semana. Depois de pedalar por mais de 17 horas e ter vencido mais de 280 km da prova (distância suficiente para ir até Avaré, ou quase o necessário para ir e voltar de Sorocaba), ele foi atacado. Em uma subida, enquanto pedalava devagar, viu um carro se aproximar. Rápido, de um jeito covarde, o passageiro gritou para assustá-lo. Talvez tenha dado um tapa também, o Odir não lembra. Ele foi para o chão, se arrebentou. Ouviu um “aê, se fudeu” e viu o carro se afastando. Não sofreu nenhum ferimento mais grave, mas se machucou e teve que desistir da prova. O Audax 600 terminou no km 355 para ele.

É mais um episódio violento, covarde, triste, entre tantos episódios recentes. Mais um. Na semana passada teve a morte do empresário Antonio Bertolucci, de 68 anos, atropelado por um ônibus na Avenida Sumaré. Na retrasada, teve a do metalúrgico Rubens Cardoso dos Santos , de 40 anos, atropelado por um caminhão perto de Guarulhos, esta menos noticiada. Depois, morreu mais uma pessoa em em Fortaleza. E um em Goiás. E mais um e mais um.

A falta de cuidado com a vida assusta, apavora. O medo congela, deixa a perna mole, sem força para empurrar o pedal, sem vontade. O sangue derrete em desânimo.

O medo
Seu Manoel é um senhor simpático, do tipo que dá bom dia sorrindo todos os dias. Conversa animado, com um sotaque português antigo, pergunta sobre a vida, sobre o trabalho, a família. Não foram poucas as vezes que eu me atrasei conversando com ele na portaria do meu prédio. Seu Manoel não sai para a rua, tem medo de se machucar nas calçadas mal cuidadas do bairro. Não é o único no prédio. Outra senhora também, só que esta, por recomendação médica, tem que caminhar pelo menos por meia hora todo dia. E regularmente eu a vejo caminhando entre a quadra apertada e o estacionamento dos carros, de um lado para o outro, de um lado para o outro, de um lado para o outro.

No bairro, em vários prédios pessoas caminham nas garagens. Não só por medo das armadilhas das calçadas esburacadas, mas também por medo de assaltos. À noite, tem trechos desertos, em que não se vê viva alma. Nos quarteirões em que só há muros altos e avenidas de alta velocidade, a sensação é de risco constante mesmo. Sem ninguém na rua, nem as câmeras garantem segurança. Nem as grades, pelo menos não para quem está do lado de fora.

Há crianças que moram a algumas quadras da escola, mas que vão estudar levados por motoristas particulares. Medo de sequestros, da violência das ruas. E, de repente, vira algo normal viver vigiado, cercado, murado, armado.

A violência do medo.

Leia “antes que eu me esqueça”, no phylings

Segurança
Aumentaram os casos de atropelamentos de ciclistas no trânsito? Começaram a acontecer mais tragédias? Ou a mídia, no embalo da morte de um empresário importante e das manifestações cada vez mais intensas e bem direcionadas de cicloativistas, começou a prestar mais atenção no assunto? É suicídio se arriscar a andar de bicicleta em uma cidade como São Paulo? É loucura pensar em pedalar sem capacete? (e, sim, este texto é uma continuação do “a estética do medo”).

É importante atentar à segurança, ter cuidado, preservar a vida. Sempre. Assim como é importante não deixar que o excesso de zelo ceife esta mesma vida. Vale mesmo viver enjaulado, frustrado, preso a uma sensação de segurança que muitas vezes não passa disso, sensação? Viver e contribuir para um suicídio coletivo em uma cidade fedida e acelerada demais.

O equilíbrio entre responsabilidade e paranoia é tênue e cada um sabe o seu. Decidir limites é uma questão individual e é preciso respeitar a escolha de cada um. Andar de bicicleta é um direito e está longe de ser um gesto suicída ou de gente maluca; para muita gente, é a única opção economicamente viável de transporte.

É importante que cada um saiba o risco que quer correr. Informações na mídia detalhadas, com dados estatísticos, indicações de onde e como acontecem atropelamentos, ajudam mais do que meramente repetir histórias trágicas – apesar de, talvez, não darem tanta audiência. Pensar nessas horas é melhor do que apenas sentir. Eu não gosto de disputar espaço com ônibus ou caminhões, ou em andar em avenidas com carros grandes porque sei que atropelamentos fatais costumam envolver veículos grandes ou velocidade. A decisão é de cada um e deve ser respeitada.

Aliás, mesmo tendo sido atacado, o Odir não desistiu de pedalar ou de um dia completar o Audax 600. Ele pode até sofrido uma agressão covarde, mas a violência do medo não o derrubou.

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1 Response to “A violência do medo”


  1. 1 Silvia 22/06/2011 às 6:02 pm

    Outro dia um caminhão passou por mim e o carona fez o mesmo: pôs a cara na janela e deu um grito. Felizmente o susto não foi suficiente para eu cair ou perder o controle da bike, mas fez meu dia começar azedo. A falta de respeito pelo próximo, a ignorância nua e crua são uma triste realidade.


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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