Archive for the 'Velocidade' Category

A violência do medo

O Odir Züge Jr., professor universitário, ciclista cotidiano e amador e colaborador eventual de ((o)) eco Bicicletas, participou do Audax 600 no último final de semana. Depois de pedalar por mais de 17 horas e ter vencido mais de 280 km da prova (distância suficiente para ir até Avaré, ou quase o necessário para ir e voltar de Sorocaba), ele foi atacado. Em uma subida, enquanto pedalava devagar, viu um carro se aproximar. Rápido, de um jeito covarde, o passageiro gritou para assustá-lo. Talvez tenha dado um tapa também, o Odir não lembra. Ele foi para o chão, se arrebentou. Ouviu um “aê, se fudeu” e viu o carro se afastando. Não sofreu nenhum ferimento mais grave, mas se machucou e teve que desistir da prova. O Audax 600 terminou no km 355 para ele.

É mais um episódio violento, covarde, triste, entre tantos episódios recentes. Mais um. Na semana passada teve a morte do empresário Antonio Bertolucci, de 68 anos, atropelado por um ônibus na Avenida Sumaré. Na retrasada, teve a do metalúrgico Rubens Cardoso dos Santos , de 40 anos, atropelado por um caminhão perto de Guarulhos, esta menos noticiada. Depois, morreu mais uma pessoa em em Fortaleza. E um em Goiás. E mais um e mais um.

A falta de cuidado com a vida assusta, apavora. O medo congela, deixa a perna mole, sem força para empurrar o pedal, sem vontade. O sangue derrete em desânimo.

O medo
Seu Manoel é um senhor simpático, do tipo que dá bom dia sorrindo todos os dias. Conversa animado, com um sotaque português antigo, pergunta sobre a vida, sobre o trabalho, a família. Não foram poucas as vezes que eu me atrasei conversando com ele na portaria do meu prédio. Seu Manoel não sai para a rua, tem medo de se machucar nas calçadas mal cuidadas do bairro. Não é o único no prédio. Outra senhora também, só que esta, por recomendação médica, tem que caminhar pelo menos por meia hora todo dia. E regularmente eu a vejo caminhando entre a quadra apertada e o estacionamento dos carros, de um lado para o outro, de um lado para o outro, de um lado para o outro.

No bairro, em vários prédios pessoas caminham nas garagens. Não só por medo das armadilhas das calçadas esburacadas, mas também por medo de assaltos. À noite, tem trechos desertos, em que não se vê viva alma. Nos quarteirões em que só há muros altos e avenidas de alta velocidade, a sensação é de risco constante mesmo. Sem ninguém na rua, nem as câmeras garantem segurança. Nem as grades, pelo menos não para quem está do lado de fora.

Há crianças que moram a algumas quadras da escola, mas que vão estudar levados por motoristas particulares. Medo de sequestros, da violência das ruas. E, de repente, vira algo normal viver vigiado, cercado, murado, armado.

A violência do medo.

Leia “antes que eu me esqueça”, no phylings

Segurança
Aumentaram os casos de atropelamentos de ciclistas no trânsito? Começaram a acontecer mais tragédias? Ou a mídia, no embalo da morte de um empresário importante e das manifestações cada vez mais intensas e bem direcionadas de cicloativistas, começou a prestar mais atenção no assunto? É suicídio se arriscar a andar de bicicleta em uma cidade como São Paulo? É loucura pensar em pedalar sem capacete? (e, sim, este texto é uma continuação do “a estética do medo”).

É importante atentar à segurança, ter cuidado, preservar a vida. Sempre. Assim como é importante não deixar que o excesso de zelo ceife esta mesma vida. Vale mesmo viver enjaulado, frustrado, preso a uma sensação de segurança que muitas vezes não passa disso, sensação? Viver e contribuir para um suicídio coletivo em uma cidade fedida e acelerada demais.

O equilíbrio entre responsabilidade e paranoia é tênue e cada um sabe o seu. Decidir limites é uma questão individual e é preciso respeitar a escolha de cada um. Andar de bicicleta é um direito e está longe de ser um gesto suicída ou de gente maluca; para muita gente, é a única opção economicamente viável de transporte.

É importante que cada um saiba o risco que quer correr. Informações na mídia detalhadas, com dados estatísticos, indicações de onde e como acontecem atropelamentos, ajudam mais do que meramente repetir histórias trágicas – apesar de, talvez, não darem tanta audiência. Pensar nessas horas é melhor do que apenas sentir. Eu não gosto de disputar espaço com ônibus ou caminhões, ou em andar em avenidas com carros grandes porque sei que atropelamentos fatais costumam envolver veículos grandes ou velocidade. A decisão é de cada um e deve ser respeitada.

Aliás, mesmo tendo sido atacado, o Odir não desistiu de pedalar ou de um dia completar o Audax 600. Ele pode até sofrido uma agressão covarde, mas a violência do medo não o derrubou.

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O tempo em minha bicicleta

Durante a viagem que fiz em março para o Irã conheci o Takeshi Tomita, um médico cirurgião japonês que, entre kebabs e muito dugh (bebida típica sem álcool de iogurte salgado), se tornou um grande amigo. Ele estava fazendo um giro pela região, mas teve que interromper sua viagem e voltar para o Japão e ajudar no atendimento das vítimas do desastre nuclear. Continuamos em contato pela internet e outro dia ele me escreveu entusiasmado, contando que havia ido para o trabalho de bicicleta. Ele escreveu a respeito para o Outras Vias:

“Conforme o tempo passa, conforme fui ficando mais velho, troquei a bicicleta como meu principal meio de transporte por um carro. Hoje, trabalho em Tóquio, uma das cidades ‘mais ocupadas e rápidas’ do mundo, e sou médico, uma das profissões ‘mais corridas’ de todas. Minha filosofia de vida tem sido ‘tempo é dinheiro’. Isso quer dizer que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então não devemos desperdiça-lo, como vocês sabem.

Conheci um brasileiro chamado Daniel no Irã, quando eu fazia uma viagem pela Índia, Paquistão, Irã e Turquia. Nós viajamos juntos no Irã e na Turquia por mais de uma semana e viramos bons amigos, apesar de eu não ter certeza se ele me considera um bom amigo.

De qualquer forma, ele é um rapaz muito legal e ama tanto bicicletas que até acho que ele as prefere a uma garota. E se tem algo que me deixou cansado durante a viagem é que ele sempre me dizia para parar de dirigir um carro e ir para o trabalho de bicicleta. Durante a viagem, ouvi demais essa sugestão.

Alguns dias passaram, eu voltei para o Japão e para o meu trabalho de médico novamente. Então, minha vida voltou a ser comum, ocupada e rápida.

Até que um dia em Tóquio eu acordei uma hora mais cedo que o comum. Não sei por que fiz isso, mas fui pedalando até o hospital. No caminho, descobri uma escola com crianças falando, sorrindo e dando risadas com prazer. Elas pareciam muito felizes e a felicidade e paz na cara delas me fizeram feliz também. E eu passei também um velho e lindo templo japonês.

Descobri que o caminho é silencioso e com bastante verde, e que o ar é limpo. Mesmo sendo o mesmo caminho que eu faço de carro, isso tudo foi novidade para mim.

No caminho para o hospital de bicicleta eu me senti maravilhoso e feliz. Consegui tempo para pensar em muitas coisas também.

Hoje minha filosofia ainda é ‘tempo é dinheiro’. Mas isso significa agora que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então devo aproveitá-lo devagar, como quando pedalo minha bicicleta.”

Takeshi Tomita
Médico cirurgião cardiáco
Tóquio – Japão

Uma foto do velho e lindo templo japonês:

São Paulo na velocidade da Fórmula Indy

Em uma cidade em que acidentes de trânsito matam mais que criminosos, Prefeitura promove corrida a 300 km/h nas ruas.

“O controle da velocidade é crucial para a segurança do trânsito, já que, na maioria dos acidentes de trânsito, a menor velocidade do veículo poderia ter evitado o acidente ou abrandado sua gravidade”, orientação da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET)

Foto: Crystian Cruz (clique na imagem)

Em 2010, 1.375 pessoas morreram em acidentes de trânsito na cidade de São Paulo. Destas, 630 perderam a vida atropeladas. Em outras palavras, praticamente quatro pessoas (3,7) morreram por dia no trânsito da principal capital econômica do país, sendo que quase duas (1,7) foram atropeladas. Os dados fazem parte de um levantamento feito pela CET com base em dados do Instituto Médico Legal e boletins de ocorrência de acidentes de trânsito registrados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

Só para efeito de comparação, o número de mortos no trânsito superou o de homicídios dolosos na capital em 2010, que foi de 1.196.

A velocidade é um dos principais problemas, que o digam os mais velhos. Segundo Dirceu Rodrigues Alves, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), em se tratando de acidentes, a rapidez nas ruas prejudica quem tem mais idade. “Conforme o tempo passa, a mobilidade do individuo fica prejudicada. Ele não tem os mesmos reflexos e movimentos de um jovem. Isso se reflete na travessia de uma rua, no descuido de passar entre automóveis ou ao dirigir”, diz. Entre os mortos atropelados, a maioria (55,4%) tem mais de 50 anos. De todas as vítimas fatais, 195 são aposentados ou pensionistas.

A Abramet defende a redução da velocidade nas ruas para reduzir acidentes.

Foto: Crystian Cruz (clique na imagem)

Rapidez
Os números foram divulgados pela CET em um comunicado à imprensa no dia 20. Gostaria muito de indicar o link para a íntegra do estudo, mas não consegui mais encontrar a página dentro do site da empresa em que ficavam as estatísticas (saiu do ar?!). Fiz uma solicitação formal ao departamento de imprensa no mesmo dia, mas (ainda?) não me responderam. Quem quiser mais detalhes sobre os acidentes fatais na capital em 2010, pode consultar o que saiu na Folha, no Estadão, no G1 e na ESPN sobre o assunto.

Em se tratando da relação direta entre velocidade e acidentes, porém, o problema não se restringe a 2010 e nem à capital. É só ver o que aconteceu durante o feriado de Páscoa no estado de São Paulo. Tanto nas estradas estaduais quanto nas federais, o número de mortes aumentou em relação ao ano passado. Nas estaduais*, subiu de 36 para 41. Nas federais, de quatro para seis. Dúvida sobre a razão da maioria dos acidentes? Pergunte a qualquer policial rodoviário o que ele acha dos carros andando como se apostassem corrida nas estradas.

“As principais infrações foram excesso de velocidade e ultrapassagens em locais proibidos, gerando acidentes com vítimas”, tenente Moacir Mathias do Nascimento à Agência Brasil


* Apesar de o número absoluto de vítimas ter aumentado, a Secretaria de Transporte de São Paulo anunciou os números deste ano como queda de vítimas fatais, usando como base um Índice de Acidentes que inclui quilômetros e quantidade de veículos. Desde que tal medição foi adotada, a secretaria proibiu a divulgação dos números absolutos dos anos anteriores (restrição um tanto quanto ineficaz em tempos de internet). Na época, procurei a assessoria da secretaria e a Polícia Rodoviária Estadual e representantes de ambos os órgãos afirmaram não estarem mais autorizados a divulgar os dados.

Foto: Crystian Cruz (clique na imagem)

Fórmula Indy
No próximo domingo, dia 1º, a cidade de São Paulo recebe a Fórmula Indy, principal prova de corrida em circuito de rua do mundo. Isso, corrida na rua mesmo. No caso, um dos trechos é a Marginal Tietê, uma das mais movimentadas de São Paulo, em que será possível atingir 300 km/h, como anunciam com orgulho os organizadores, o que deve proporcionar mais acidentes “espetaculares”. Ah, este ano, entre os patrocinadores está uma cervejaria.

É a segunda vez que a competição acontece na capital. A primeira, em 2010, foi considerada um “sucesso”, porque, entre outros feitos, foram realizadas 95 ultrapassagens. O piloto mais veloz ganhou o troféu das mãos do governador e teve até premiação para quem fez a volta rápida. A Prefeitura inicialmente planejou gastar R$ 3 milhões para receber o evento, mas acabou gastando R$ 12 milhões.

Vruummmmmmmmmmmmmmmmmmmm…

Aumento na passagem de ônibus em São Paulo

São Paulo tem o ônibus mais caro do Brasil

Desde ontem, 5 de janeiro de 2011, andar de ônibus municipal em São Paulo custa R$ 3. A passagem custava R$ 2,70 e sofreu um reajuste de 11% – praticamente o dobro do que o da inflação, que foi de pouco mais de 5%.

Alguém que utiliza ônibus duas vezes por dia nos dias úteis, para ir e voltar para o trabalho, por exemplo, terá que gastar R$ 30 por semana; ou pelo menos R$ 120 por mês. Sem falar nos fins de semana.

O salário mínimo no Brasil hoje é de R$ 510. Isso significa que em São Paulo o trabalhador que mais pena para conseguir fechar o mês terá que sacrificar 23,5% do salário só para chegar ao emprego. O mínimo deve aumentar para R$ 540 este ano, um aumento de menos de 6%. Mesmo com tal reajuste, o trabalhador continuará torrando mais de 1/5 do salário com ônibus: 22,2%.

Lógico que, para quem tem bons salário, R$ 120 por mês não é tanto assim. O problema é que, via de regra, quem utiliza o sistema de transporte público da cidade não é quem ganha mais de R$ 10 mil por mês. Em São Paulo, quem pode, compra um carro.

Fluxos

Tabela afixada dentro dos ônibus com os novos preços

A Globo convidou o secretário municipal de Transportes, Marcelo Branco, para justificar o aumento. Entender as explicações dele no SPTV (vídeo 1 e vídeo 2) é quase tão difícil quanto decifrar os relatórios detalhados com indicadores do sistema da SPTrans. Por lei, as prefeituras têm que prestar contas na internet e manter atualizados os dados sobre gastos públicos. A de São Paulo é uma das poucas que cumpre tal determinação, mas nem sempre é fácil compreender as planilhas colocadas no ar sem explicações.

Em essência, de acordo com o secretário, o aumento se justifica por mudanças que estão sendo adotadas no sistema de cobranças e nos repasses destinados as empresas concessionárias. A Prefeitura pretende diminuir os subsídios e há mudanças significativas em curso pouco ou nada noticiadas. O valor adicional pago pela substituição de ônibus velhos por novos deixa de ser detalhado nas planilhas, por exemplo, em função de “aditivos contratuais assinados com os operadores”, informação disponível no relatório de novembro desta página aqui.

Para compensar a falta de investimentos no sistema em si, na renovação da frota ou na ampliação das linhas existentes, e tentar minimizar o colapso do sistema, o secretário prometeu destinar verbas para obras em corredores e tudo que puder ser feito para “aumento da velocidade” dos ônibus. A ideia parece ser compensar a falta de espaço dentro dos coletivos aumentando o fluxo e incentivando os motoristas a correrem mais. Com isso, com a mesma frota é possível fazer mais viagens.

Ouvir falar em aumentar a velocidade,  para quem toma ônibus regularmente em São Paulo, pode ser bastante assustador (fico imaginando o motorista da minha linha, que já é alucinado, depois de ser orientado a ir mais rápido…).

Além disso, com o aumento das tarifas certamente mais gente optará pelo transporte individual. Mais carros na rua, mais trânsito e todas as viagens, inclusive as de ônibus ficam mais lentas. Sem falar na poluição, barulho, caos.

São Paulo não é a única cidade em que houve aumento. São dezenas de capitais que subiram os preços acima da inflação. Até agora, só em Salvador houve alguma reação, com estudantes fechando avenidas em protestos. Por aqui, manifestações pequenas (como as do grafiteiro Mundano) e pouco debate até agora. Pelo menos considerando a dimensão das mudanças em curso e a quantidade de gente que terá a vida afetada pelo aumento.

Noite de Natal

Nas estradas estaduais de São Paulo, entre sexta-feira, 24 de dezembro, e domingo, dia 26, foram 36 mortos e 689 feridos em nada menos do que 1.063 acidentes, de acordo com a Secretaria de Transportes. Nas Federais em todo Brasil, foram 117 mortos e 1.361 feridos em 1.884 acidentes*. Não há levantamentos nacionais sobre o total de mortos e feridos (a soma dos acidentes nas rodovias estaduais e federais) nos três dias do feriado de Natal – os dados são levantados pelas Polícias Rodoviárias Estaduais e Federais e divulgados separadamente, em datas diferentes e sem nenhuma coordenação. Em alguns estados, sequer há a preocupação em registrar e tabular os números; nenhum órgão federal dá a devida atenção à situação caótica nas estradas federais e estaduais do País.

Não há levantamentos completos nacionais, mas o que aconteceu em São Paulo está longe de ser exceção ou eventualidade. Todo feriado morrem centenas de pessoas em todo o Brasil – constante que talvez torne inadequada a palavra acidente – as mortes são inerentes de sistemas que priorizam transporte individual privado e não soluções coletivas de deslocamento. Enquanto o Brasil continuar sendo rasgado por estradas e não ferrovias, a variável se manterá estável: toda vez que o trânsito aumentar, perderemos o mesmo tanto de gente que morreria se um avião caísse. Não é exagero, fiz o levantamento no Carnaval de 2009, na unha, telefonando para as polícias rodoviárias federais e estaduais de todos os Estados: na ocasião, morreram 262 pessoas, gente suficiente para encher um Boeing 787.

Se caísse um avião todo feriado, talvez a situação mudasse, aliás.

Atropelamento e fuga
Escrever sobre números é tarefa ingrata e nem sempre dá para transmitir a dimensão da gravidade de uma situação sem contar situações particulares, sem dar cor e cara para as vítimas; falar da dor de uma morte, com a devida contextualização, pode ajudar a entender a dor de 36 mortes. Ou de centenas de mortes.

Não queria escrever sobre tristeza ou acidentes no Natal. A previsão do pessoal do Ipea de 40 mil mortes nas estradas em 2011 já tinha pesado. Mas aí veio o relato sobre a morte de Serbino Martins Vilhalva na madrugada do Natal. Trata-se de um adolescente Kaiowá Guarani,  de 15 anos, que, em meio à disputa por terras no Mato Grosso, vivia acampado com a família e outros integrantes da comunidade Laranjeira Nhanderu, na beira da BR-163, no município de Rio Brilhante.

A presença dos Kaiowás Guaranis ao lado da rodovia é uma ironia por si só. Os povos foram expulsos ou empurrados para fora de suas terras pela expansão da cana-de-açúcar e da soja no estado – e para escoar as safras e facilitar o avanço dos latifúndios no Estado é que foi aberta a estrada na beira da qual agora vivem enquanto aguardam a demarcação de terras.

O adolescente morreu atropelado a 500 metros de onde a família comemorava a data. É o terceiro da comunidade atropelado. O motorista sequer parou após atingi-lo.

Na noite de Natal.

* O levantamento da Polícia Rodoviária Federal foi incluído no post 12h47, após a publicação. Apesar de ser um levantamento nacional, ele abrange apenas as estradas federais e, por isso, é apenas um indicativo da gravidade da situação. A PRF tem feito esforços para minimizar o caos rodoviário, mas, sem políticas nacionais para enfrentar (e resolver) o problema, a margem de atuação dos policiais é limitada.

Volta ao mundo de bicicleta

Kei saiu do Japão em 2001 para pedalar pelo mundo

O japonês Keiichi Iwasaki saiu de casa em 2001 com o objetivo de conhecer o mundo de bicicleta. Após percorrer seu país inteiro, ele seguiu para China, passando por Hong Kong, Vietnã, Camboja, Tailândia, Malásia, Cingapura, Nepal e Índia. Subiu o Evereste, seguiu para o Irã, atravessou o Mar Cáspio em um barco com um remo (470 km em 21 dias!) e  seguiu para Turquia. Então entrou na Europa, cruzou os Bálcãs, seguiu para Europa Central, viveu na Hungria, e, seguiu desbravando o continente: Alemanha, França, Espanha, etc.

Veja o site Feel the Earth (Sinta a Terra)

Kei viaja com poucos pertences e ganha a vida fazendo apresentações de mágica em ruas movimentadas. Por que a bicicleta? “Para não poluir e não alimentar as guerras por petróleo”. Ele me explicou isso assim, tranquilo, causal, sorrindo. Conversamos na Itália, em uma rua movimentada. Kei falou dos planos de ir para a América do Sul no futuro, perguntou do Brasil, quis saber das bicicletas em São Paulo.

Ele não é o único que tem se deslocado e optado por conhecer lugares e pessoas sem comprar pacotes turísticos, sem correr desesperado por dezenas de cidades em poucos dias, sem a obrigação de conhecer e fotografar todos os pontos turísticos. Tudo bem que a viagem dele já dura quase uma década, mas, mesmo quem não planeja ficar tanto tempo assim na estrada, pode deixar a angústia de lado e viajar devagar para viver e não apenas passar por países diferentes.

No blog FelizCidadeFeliz tem um relato recente sobre os Banhos Quentes (WarmShowers), um sistema de hospedagem que tem muito a ver com as ideias deste texto. Vale ler com carinho – pode ser inspirador para quem simpatizou com a maneira como Kei vive as estradas dessa vida.

Pedale tranquilo

De volta aquele assunto chato, mas necessário: como minimizar os riscos de pedalar em São Paulo? Ao mesmo tempo em que muita gente começa a descobrir a bicicleta como uma alternativa para o trânsito surreal da cidade, ainda não existe uma cultura de compartilhamento das ruas. Sim, os motoristas se irritam em ter que deslocar o pé direito alguns centímetros para reduzir a velocidade em ultrapassagens e ficam possessos em ver qualquer obstáculo à frente. Mesmo que os segundos perdidos para ultrapassar com segurança um ciclista sejam compensados logo em seguida com a pista livre – já que um ciclista é um ciclista e não vai causar congestionamentos como um carro.

Parece simples e não haveria motivos para agressividade, finas e ataques. A lógica no trânsito, porém, não é tão racional assim. E eu nem me atrevo a tentar explicar como este mecanismo funciona depois dessa obra-prima:

Isso posto, vale ter em mente um princípio básico. Não é com agressividade que se combate essa lógica de guerra. Não adianta xingar, mostrar o dedo, socar o carro, inflamar mais uma ferida aberta na cidade. Resistir exige sabedoria, ainda mais quando o agressor pesa toneladas e é capaz de avançar com violência em segundos.

Separei algumas dicas que me ajudaram quando eu estava começando. Nenhuma delas serve, porém, sem bom-senso e reflexão. Não, não adianta insistir em forçar caminho, em, sozinho, se meter em uma avenida de alta velocidade e esperar que os motoristas respeitem e deixem de tirar finas assassinas. Não tem sentido disputar espaço com ônibus ou outros veículos gigantes. Pelo Código Brasileiro de Trânsito, o ciclista não só tem o direito como deveria ter prioridade nas pistas. Só que nem sempre isso é respeitado e é saudável ter isso em mente se você quiser adotar a bicicleta como meio de transporte rotineiro. Use o bom-senso.

Calma
A primeira lição é ter calma pedalando. Mais do que usar capacete ou obedecer cegamente às orientações abaixo, é isso que vai te manter em segurança.

Esqueça a lógica de desespero, de querer atropelar o tempo para chegar. Pedale tranquilo. Divirta-se no caminho. Respeite os pedestres de maneira obsessiva. Se for subir na calçada para fugir de uma avenida movimentada, o certo é descer e caminhar empurrando a bike. Se for desobedecer a lei e arriscar pedalar nas calçadas (e em calçadas largas como as da Avenida Rebouças ou da Avenida Sumaré seria perfeitamente possível abrir uma rota compartilhada para pedestres e ciclistas), o mínimo que você pode fazer é diminuir a velocidade. Ande feito uma lesma. Se passar a mil do lado de um pedestre, desculpe, meu amigo, você acabou de adotar a lógica do Pateta no Trânsito. Merece ser tratado como tal.

As orientações que o William Cruz, um ciclista experiente e um dos cicloativistas mais ativos da cidade, merecem ser lidas com atenção. Ele reuniu todas aqui (são vários posts, não deixe de conferir o primeiro, lá embaixo na página que abriu quando você clicou). Pense sobre o que ele escreveu. Há temas que não são consenso. Sobre contramão, por exemplo, vale considerar o que saiu no Transporte Ativo aqui e aqui.

Lá fora
Depois, vale assistir com atenção a esse vídeo aqui, do programa de bicicletas públicas da Cidade do México (é, as cidades com piores índices de trânsito estão apostando em alternativas e isso não é coincidência). Está em espanhol, mas é bem ilustrado e fácil de entender.

Por último (e sim, este é um post enorme), seguem traduzidos e resumidos os “10 segredos de pedalar no trânsito” do pessoal do Biking Toronto, um dos grupos que defendem bicicletas como transporte no Canadá. Eles autorizaram a reprodução do material. Os links de cada tópico são para o original em inglês. A responsabilidade de possíveis erros é só e exclusivamente minha.

1 – Os motoristas não querem te matar. É difícil aceitar isso quando eles passam tão perto e de maneira assustadora, mas este é um fato. Eles têm outra perspectiva e muitas vezes não pensam em quão vulneráveis os ciclistas são. Mas a vasta maioria não quer matar… eles simplesmente não compreendem um ciclista. Aposto que qualquer ciclista que você conheça que tenha uma licença de motorista pode dizer que conhecer as coisas dentro da perspectiva de alguém que pedala o tornou um motorista melhor. Saber disso tudo vai lhe dar mais confiança. Leia o original aqui (em inglês).

2 – Ande em linha reta. Não entre nos espaços entre carros estacionados para sair do trânsito. Evite ziguezaguear. Leia o original aqui (em inglês).

3 – Respeite as regras de trânsito. Se os motoristas perceberem que você respeita as regras, a tendência é respeitarem você. Por que o tratariam como um veículo com o qual devem dividir a rua se você não se comporta como um? Leia o original aqui (em inglês).

4 – Evite ser esmagado em semáforos. Quando parar antes dos carros no sinal vermelho, em vez de apoiar o pé direito na guia, o que é bastante tentador, mantenha-se na pista e apóie o pé esquerdo no chão. Os motoristas serão forçados a respeitar a sua presença e a chance de o esmagarem para o canto quando o sinal abrir diminui. Leia o original aqui (em inglês).

5 – Sinalize a direção para onde você vai. Motoristas são condicionados a obedecer aos sinais. Leia o original aqui (em inglês)

6 – Ocupe a faixa. Isso mesmo, andar no meio da faixa é mais seguro do que no canto. Vale principalmente para as ruas com faixas apertadas, em que não é seguro dividir o espaço com um carro. Nas regiões centrais, com trânsito, você estará na mesma velocidade ou mais rápido que os demais carros. Mas mesmo que esteja devagar, você tem o direito de estar ali. Leia o original aqui (em inglês).

7 – Faça os motoristas pensarem que você é imprevisível. Essa é uma dica que nem todo mundo conhece. Em uma rua com motoristas passando perto demais, uma estratégia é olhar para esquerda ou por cima do ombro. A impressão que você pode virar de repente fará os motoristas se afastarem. Leia o original aqui (em inglês).

8 – Pedale acompanhado. Motoristas têm mais chance de ver dois ciclistas do que um, quatro do que dois, dez do que quatro, e assim vai. E você nem precisa conhecer as pessoas com quem está pedalando. Haver duas pessoas juntas já diminui a possibilidade de finas. É o mesmo princípio que o da Massa Crítica. Há força nos números. Leia o original aqui (em inglês).

9 – Cuidado com o gancho de direita. Um dos locais mais comuns de colisões entre ciclistas e carros são os cruzamentos. Evite ultrapassar carros que estão virando a direita (ou podem virar) para não tomar um “gancho de direita”. O ponto-cego do motorista é grande neste caso e se ele não estiver muito atento vai atingi-lo. Leia o original aqui (em inglês).

10 – Familiarize-se com o caminho. É uma maneira de você se sentir mais confortável e aprender onde os carros aceleram ou reduzem. Leia o original aqui (em inglês).

Este post é dedicado a todos que se animaram a tentar pedalar em São Paulo recentemente. Há contradições entre o que eu escrevi lá no começo e algumas das dicas reunidas. Pense, informe-se sobre o caminho, consulte um mapa, converse com as pessoas envie perguntas por aqui, peça dicas. Que só o número de bicicletas no trânsito de São Paulo
aumente e não o de acidentes.


Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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