Archive for the 'bicicleta' Category

Ferreiro troca carro por bicicleta para economizar

Miguel é um ferreiro que, desde 2001, têm feito carretos atravessando São Paulo de bicicleta. “Desisti do carro. O preço da gasolina subiu, tem trânsito demais e não compensa”, me explicou em frente ao Memorial da América Latina, enquanto pedalávamos lado a lado na última faixa da avenida, atentos ao trânsito. Ferreiro rápido, tive que me esforçar para alcançá-lo e depois manter o mesmo ritmo que ele, mesmo com um carrinho parcialmente cheio. Quando ele entope o carreto de ferro, a carga chega a pesar dezenas de quilos.

“Dá para ir para todos os cantos. Eu vou até Santo Amaro, até o Campo Limpo, toda a cidade. Agora mesmo estou indo para Santo André”, afirmou, sorrindo tranquilo. “Essa bicicleta é mais nova, ela rende muito melhor. A outra que eu tinha era bem ruim”, completou, antes de virar à direita na Avenida Pacaembu e seguir seu caminho, desta vez pela calçada. “Um bom dia aí meu amigo, a gente se vê”, acenou.

Valeu, seu Miguel!

O tempo em minha bicicleta

Durante a viagem que fiz em março para o Irã conheci o Takeshi Tomita, um médico cirurgião japonês que, entre kebabs e muito dugh (bebida típica sem álcool de iogurte salgado), se tornou um grande amigo. Ele estava fazendo um giro pela região, mas teve que interromper sua viagem e voltar para o Japão e ajudar no atendimento das vítimas do desastre nuclear. Continuamos em contato pela internet e outro dia ele me escreveu entusiasmado, contando que havia ido para o trabalho de bicicleta. Ele escreveu a respeito para o Outras Vias:

“Conforme o tempo passa, conforme fui ficando mais velho, troquei a bicicleta como meu principal meio de transporte por um carro. Hoje, trabalho em Tóquio, uma das cidades ‘mais ocupadas e rápidas’ do mundo, e sou médico, uma das profissões ‘mais corridas’ de todas. Minha filosofia de vida tem sido ‘tempo é dinheiro’. Isso quer dizer que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então não devemos desperdiça-lo, como vocês sabem.

Conheci um brasileiro chamado Daniel no Irã, quando eu fazia uma viagem pela Índia, Paquistão, Irã e Turquia. Nós viajamos juntos no Irã e na Turquia por mais de uma semana e viramos bons amigos, apesar de eu não ter certeza se ele me considera um bom amigo.

De qualquer forma, ele é um rapaz muito legal e ama tanto bicicletas que até acho que ele as prefere a uma garota. E se tem algo que me deixou cansado durante a viagem é que ele sempre me dizia para parar de dirigir um carro e ir para o trabalho de bicicleta. Durante a viagem, ouvi demais essa sugestão.

Alguns dias passaram, eu voltei para o Japão e para o meu trabalho de médico novamente. Então, minha vida voltou a ser comum, ocupada e rápida.

Até que um dia em Tóquio eu acordei uma hora mais cedo que o comum. Não sei por que fiz isso, mas fui pedalando até o hospital. No caminho, descobri uma escola com crianças falando, sorrindo e dando risadas com prazer. Elas pareciam muito felizes e a felicidade e paz na cara delas me fizeram feliz também. E eu passei também um velho e lindo templo japonês.

Descobri que o caminho é silencioso e com bastante verde, e que o ar é limpo. Mesmo sendo o mesmo caminho que eu faço de carro, isso tudo foi novidade para mim.

No caminho para o hospital de bicicleta eu me senti maravilhoso e feliz. Consegui tempo para pensar em muitas coisas também.

Hoje minha filosofia ainda é ‘tempo é dinheiro’. Mas isso significa agora que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então devo aproveitá-lo devagar, como quando pedalo minha bicicleta.”

Takeshi Tomita
Médico cirurgião cardiáco
Tóquio – Japão

Uma foto do velho e lindo templo japonês:

Percepções distorcidas e a realidade no trânsito

Foto do Espaço Kids da Fundação Volkswagen, uma das atrações para crianças no Salão do Automóvel. Entre as atrações para a “garotada” no evento está um simulador da Citröen para tirar rachas a até 340 km/h (clique na imagem para mais informações)

“É preciso procurar discernir o que é desejo e o que é necessidade. Há uma poluição de informações que recebemos diariamente. Temos mais de duas mil publicidades por dia que chegam no nosso cérebro incentivando a consumir. São cartazes, placas, anúncios, revistas. É um apelo muito forte”, Diogenes Donizete, técnico da Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon-SP), em entrevista ao ator sobre compras de Natal em dezembro de 2010

A publicidade utiliza estratégias sofisticadas de psicologia para transmitir ideias, criar sensações e convencer. Em setores econômicos que movimentam milhões e dependem de altos índices de consumo, as empresas atuam isoladamente ou em conjunto para manter as vendas em alta, muitas vezes sublimando e até distorcendo a realidade, ou adaptando e criando novos valores culturais e sociais.

Leia o artigo da psicóloga Maria Rita Kehl sobre fetichismo e perversões no blog da Boitempo

A desinformação se completa pela preguiça, má vontade ou cinismo de boa parte da imprensa, que reproduz releases de maneira passiva e repete estereótipos e lugares comuns sem reflexão. É por isso que a quantidade absurda de acidentes de trânsito que acontece a cada feriado, com número de mortes equivalente à queda de um avião de grande porte, não ganha o destaque necessário. É por isso que adotamos sistemas estúpidos em que há desperdício de energia e recursos, além do comprometimento de milhares de vidas. É por falta de informação técnica de qualidade, jornalismo e discussão que o transporte de carga é prioritariamente rodoviário e não ferroviário no Brasil, só para citar um exemplo do que poderia ser mudado.

Percepções reais
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou nesta semana a segunda parte do estudo (PDF no GoogleDocs) feito sobre Mobilidade Urbana, parte da série de pesquisas para a construção de um Sistema de Indicadores de Percepção Social sobre diversos temas. A intenção do trabalho é quantificar e avaliar as percepções da população, de modo a ajudar na construção de políticas públicas e na resolução dos problemas que afetam a vida das pessoas. É um mecanismo democrático de ampliar a possibilidade de participação coletiva e melhor embasar decisões administrativas.

Na primeira parte do estudo os técnicos apontaram que, apesar de os investimentos públicos serem concentrados na ampliação e melhoria da infraestrutura necessária para o transporte motorizado individual, tais como gastos milionários em obras para construção de pontes e túneis e alargamento de avenidas, a maioria da população usa transporte público, bicicletas ou caminha. Desta vez, o destaque foi para a sensação (ao que tudo indica) exagerada de segurança de quem dirige.

Motoristas e passageiros de carro sentem-se mais seguros do que os passageiros de transporte público em relação a acidentes e assaltos sempre, mesmo quando já tiveram experiências negativas. Entre os que já sofreram acidentes em carros, 78% sempre ou na maioria das vezes se sente seguro. Entre os que já sofreram acidentes em ônibus, está índice cai para 40%. Entre os que já sofreram assaltos em carros, 81% sempre ou na maioria das vezes se sente seguro. Entre os passageiros de ônibus assaltados, o índice de novo despenca: 38%.

Andar de carro é mesmo tão mais seguro assim? O senso-comum se confirma? Será que temos outros fatores influenciando na construção do imaginário coletivo de que carros são mais seguros? O Ipea conclui o estudo defendendo que é preciso questionar e investigar mais a questão, reunindo dados técnicos e objetivos e ampliando o acesso à informação.

“A população precisa ser esclarecida quanto às características de cada modo de transporte em suas respectivas cidades. Além de ter direito a escolha do meio de transporte que quiser utilizar, a população tem que ter acesso à informação para poder realizar esta escolha dentro dos critérios que considerar mais relevante. Quais as vantagens e desvantagens de cada modo? Qual deles é o mais rápido para o trajeto e destino desejado? Qual é o mais barato (incluindo todos os gastos a eles vinculados? Quem paga por estes gastos? Será que o serviço está mesmo indisponível ou não se tem acesso à informação sobre ele? Apesar da sensação de segurança constatada pelo usuário do transporte individual, utilizar o automóvel é de fato mais
seguro?”, trecho da conclusão do estudo do Ipea

Pressa e transporte coletivo
Além de questionar a sensação de segurança no trânsito, a pesquisa do Ipea trás também informações interessantes para qualquer um que tenha interesse em discutir ou pensar sobre sistemas coletivos de mobilidade pública. Um dos elementos a ser considerado é que a pressa é um dos fatores decisivos na escolha do modal.

Velocidade é necessidade básica para todo mundo. Há também outros pontos a serem considerados:

“Os motivos mais indicados pelos pedestres para terem optado por andar a pé são a saúde e a rapidez. Eles afirmam predominantemente que passariam a usar o Transporte Público se ele estivesse disponível, fosse mais barato e também mais rápido; estas duas últimas características para o pedestre são necessárias para se ter um bom transporte. As outras pessoas que se utilizam do transporte não-motorizado (os ciclistas) escolhem a bicicleta pelos mesmos motivos que o pedestre opta por andar a pé (saúde e rapidez), mas também ressaltam o motivo do baixo custo. Assim como para os pedestres, a saúde deixa de ser observada como principal condição para os ciclistas migrarem para o Transporte Público, sendo substituída pela disponibilidade. Além do preço e rapidez, eles ressaltam o conforto (um pouco mais do que os pedestres destacam) como sendo característica de um bom transporte. O conforto é captado como uma das principais condições de migração modal apenas nos usuários de carro, mas aparece como característica de bom transporte para ambos, junto com a rapidez e o conforto”, trecho da pesquisa do Ipea.

Transporte público
Outro ponto a ser considerado é que a ideia de que transporte público é sempre lento ineficiente nem sempre se justifica. O Ipea defende a construção de novos indicadores e a divulgação ampla de informações objetivas para ajudar a corrigir distorções na percepção sobre o tema:

“Ainda que predomine em todos os outros respondentes a indicação de maior rapidez como uma das condições necessárias para que passem a usar o Transporte Público, os usuários do Transporte Público indicam a rapidez como uma das características que os fizeram usar esse meio de transporte. Nota-se, portanto, que a percepção sobre o Transporte Público por aqueles que não são usuários pode ser bastante distinta ou mesmo oposta daque les que o utilizam. Essa é uma constatação fundamental para a atuação pública e necessita dos devidos aprofundamentos para esclarecer a população, sem deixar de manter os esforços na constante melhoria do sistema de transporte público. Nesse sentido estudos que demonstrem velocidades médias urbanas por meio de transporte serviriam para corrigir ou ratificar a impressão que as pessoas têm sobre a rapidez e a eficiência do uso do automóvel em detrimento do Transporte Público, por exemplo.”

Soluções
Por fim, como não poderia deixar de ser, o instituto recomenda investimento em sistemas de transporte coletivo e redução de tarifas como solução para mobilidade urbana:

Percebeu-se uma preocupação geral com a rapidez, o preço e disponibilidade do transporte. Todas elas tendem a justificar investimentos em corredores de ônibus e metrôs aliados a políticas tarifárias que permitam ampliar o número de usuários de TP num cenário em que se reduz o tempo de viagem ao mesmo tempo em que são incluídas mais pessoas no sistema.

P.S. – Dessa vez, quem encaminhou o estudo foi o Gustavo Faleiros, editor do portal ((o)) eco e o Ardilhes Moreira, amigos atentos. A ideia de destacar a diferença entre percepção e realidade veio de uma discussão sobre poluição e saúde no twitter. Quem você acha que sofre mais com os efeitos da fumaça? Quem dirige ou pedala? Vale conferir os links neste texto sobre o assunto do blog Vádebike.org para pensar a questão.

Sobre Bicicletadas, rebeldia e causas

Há tempos o direito à manifestação nas grandes cidades vem sendo contestado. Em nome da ordem, qualquer tentativa de chamar atenção para os problemas cotidianos é condenada e, eventualmente, criminalizada e reprimida com violência. Ai de quem ousar interromper o sagrado trânsito da cidade com cartazes, narizes de palhaço, apitos e cantoria. Se não for para travar as ruas enfileirando carros, não pode; é caso de polícia, de mandar batalhão, tropa especial, de bater e prender.

A repressão é construída e reforçada por microfones moralistas e gritos pela manutenção da ordem, sempre a ordem. Uma lógica que ignora as falhas e limitações do sistema, que se faz cega para os vícios na política, no judiciário, para os interesses na manutenção de estruturas sociais pouco democráticas e injustas. Retirar a legitimidade de manifestações populares, classificar seus participantes de “rebeldes sem causa”, é um jeito de impedir ou pelo menos frear mudanças.

Tal discurso é violento. O Atropelador de Porto Alegre pode até não bater bem dos pinos, mas existe uma relação entre o que ele fez e a percepção de que quem participava da Massa Crítica naquele dia não tinha o direito de estar ali, de existir. É uma ideia construída com mensagens diárias, com a repetição à exaustão de expressões como “desocupados” ou “baderneiros”, os “sem causa”.

Bicicletadas
As Bicicletadas ou Massas Críticas são movimentos espontâneos, sem líderes ou chefes, manifestações coletivas de pessoas que querem mudanças, que não se conformam mais em viver em cidades entupidas de carros e fumaças. São pessoas dispostas a gastar tempo e energia em busca de tais transformações, e não desocupados. Gente disposta a brigar por isso.

Mesmo assim, os protestos têm sido pacíficos,  alegres e diversificados. Reúnem crianças, mulheres, gente de todas as cores e idades, gente tinindo de pedalar e gente fora de forma. Envolvem pessoas solidárias, que entendem que é preciso compartilhar as ruas – e lutam para que, em vez de apenas carros, outros modais também sejam valorizados pelas autoridades. É uma massa capaz de manifestações épicas, como a do último Dia Mundial Sem Carro.

Dá até para criticar o trancamento de ruas e avenidas – e tem gente que faz isso com elegância e criatividade, o que provoca mais reflexão do que ataques baseados em estereótipos. Vale dar uma espiada neste vídeo gringo gravado e editado por cara que ficou preso no trânsito dentro de um ônibus por mais de dez minutos devido à Massa Crítica. É uma crítica forte, que faz pensar, que provoca o questionamento interno, necessário para rever ou reafirmar direções.

E é para pensar mesmo. Muitos colegas não concordam que fechar o trânsito é uma boa estratégia para chamar atenção para os problemas de mobilidade da cidade. Mas quer crítica maior para a ineficácia do sistema de transportes do que travar o próprio trânsito com bicicletas? Que outra forma melhor de chamar a limitação de manter o trasnporte individual como principal sistema? De chamar a atenção para a falta de interação entre os diversos meios de transporte? Para a falta de diversidade? Para a Ditadura dos Carros, que reinam absolutos dominando recursos públicos e a atenção da mídia, mesmo sendo opção da minoria da população?

Hoje é dia de Bicicletada em São Paulo e em algumas das principais capitais do país. Mais aqui.

Nasceu ((o)) eco Bicicletas!

É impossível discutir conservação da natureza sem pensar e debater mobilidade urbana. Ignorar a relação direta entre o consumo exagerado e irresponsável de recursos naturais nas grandes cidades e a devastação predatória nos rincões do Brasil e do mundo, é manter a defesa do meio ambiente em um nível raso demais, quase vazio de sentido. É vestir apenas slogans, assumir um discurso moralista limitado, é defender restrições e ditar regras para comunidades ribeirinhas nas florestas e, ao mesmo tempo, manter um padrão de vida baseado em alto consumo e, consequentemente alta produção de lixo. É não ligar os pontos.

Ciclovia em Buenos Aires. Foto: Gisele Brito (clique na imagem)

É com base nesta ideia de que é necessário estabelecer e explicitar conexões que, ao mesmo tempo em foi criado  ((0)) eco Amazonia, uma frente formada por colaboradores de nove países em que a floresta está presente com notícias em espanhol, inglês e português, surgiu também ((o)) eco Cidades, focado nos grandes centros urbanos. E, é neste contexto de ampliar as discussões sobre como vivemos, que nasceu o Outras Vias.

Desde então, ((0)) eco cresceu e o entusiasmo dos editores (e dos leitores, como dá para ver nos comentários aqui do Outras Vias) por bicicletas também – justamente pelo entendimento de que este modal pode ser bastante útil na construção de novos modelos de sociedade, mais justos e equilibrados. Agora o portal passou por uma reforma gráfica, que, além de deixar as páginas mais bonitas, serviu também como uma oportunidade de abrir novas editorias. O novo site entrou no ar esta semana e as bicicletas ganharam um espaço exclusivo.

Nasceu ((0)) eco Bicicletas!

Crise e oportunidade
A frustração generalizada com o trânsito, a insensatez da rotina de desperdício de combustível e índices assustadores poluição, a busca por alternativas tem feito cada vez mais gente considerar e adotar a bicicleta como transporte. Em diversas regiões o poder público federal, estadual e municipal começa a entender que acabar com congestionamentos exige soluções mais complexas do que simplesmente construir mais pontes, avenidas e túneis, do que asfaltar mais. Este espaço nasce como uma área de debate de como viabilizar essas mudanças.

A ideia é agregar novos autores, trazer opiniões diferentes e divergentes, mostrar as experiências e tentativas de novos planos cicloviários em diferentes contextos. O Outras Vias continuará como um espaço para discussão de mobilidade em geral e defesa de transportes coletivos, com muito sobre bicicleta como não poderia deixar de ser; e terá uma cara cada vez mais de blog mesmo, com textos mais pessoais e opinativos (aliás, já estamos trabalhando em uma reforma gráfica no blog também!).

((0)) eco Bicicletas surge como um espaço informativo recheado de notícias, reportagens, vídeos e fotos, além de artigos de novos articulistas. De cara, dois textos em destaque: o Ricardo Braga-Neto escreve sobre ciclovias em Manaus, e a Gisele Brito, que os leitores do Outras Vias já conhecem, conta sobre a aposta de Buenos Aires nas bikes.

Bicicleta em Manaus (clique na imagem)

Mulheres, bicicletas e fundamentalismos

Mulher com o chador caminha sobre ciclovia pouco utilizada em Teerã

No Irã, mulher não pode andar de bicicleta. Ninguém soube me explicar o porquê. Talvez seja pela posição do corpo na hora de pedalar, sensual demais para uma sociedade dominada pela imposição de padrões morais ainda tão rígidos. Talvez seja porque a bicicleta é um veículo diretamente associado à liberdade, autonomia e independência. E no Irã, as restrições de gênero são comuns. As mulheres são obrigadas a cobrir o cabelo, todas elas. As mulheres não podem nem se hospedar em um hotel sem a autorização dos pais ou dos maridos.

Mas que ninguém se engane achando que é uma sociedade de mulheres submissas ou frágeis. Conversei com garotas e senhoras inteligentíssimas, cientes de seus direitos e ávidas por mudanças. As que conheci não só participavam ativamente do núcleo familiar, muitas vezes como protagonistas nas casas, como também atuavam em esferas públicas com destaque. Foi uma médica aposentada quem me deu o melhor retrato da situação dos hospitais do país. Foi uma psicóloga que me mostrou como elas atiram o cigarro longe discretamente ao ver a aproximação dos Basijs, a temida polícia de costumes – fumar em público não é uma atividade bem vista para mulheres. Foi uma universitária quem contou em detalhes a silenciosa revolução sexual em curso entre as mais jovens. Que ninguém se engane, o Irã está mudando.

A situação é complexa e qualquer simplificação é perigosa em análises sobre o país. O governo atual, marcado pela restrição de liberdades individuais, é resultado mais das pressões externas do que de um fundamentalismo generalizado. Os mais radicais, que defendem medidas e leis extremamente conservadoras, são claramente minoria. O problema é que, com o país cercado por tropas estrangeiras e alvo da cobiça das nações mais ricas e poderosas do planeta, a solução radical passa a ser vista por muitos como o melhor caminho para manter a independência.

O Irã é rico em reservas naturais. Não só petróleo, mas também do tipo de gás que será necessário para manter a Europa aquecida em invernos cada vez mais extremos em função das mudanças climáticas. Fica pertinho da Rússia, que tem interesse em controlar este mercado. E é cercado pelos países de mais alta taxa de crescimento populacional do planeta: China, Índia e Paquistão, três gigantes que também precisarão de cada vez mais recursos naturais. E, para completar, faz fronteira com Iraque e Afeganistão, vizinhos não por acaso invadidos pelos Estados Unidos. É em meio a essa pressão externa generalizada de outros fundamentalistas que o fundamentalismo floresce e dá frutos no Irã.

Fundamentalismos

Ponto de ônibus em Isfahan

Fundamentalismo não é exclusividade ou sinônimo de islamismo. O teólogo Leonardo Boff, em seu livro Fundamentalismo, discute a questão em profundidade, levantando questionamentos e dados sobre práticas fundamentalistas católicas, como a proibição do uso de preservativos – orientação que teve papel decisivo na propagação da AIDS na África. Proibir o uso de um pano sobre a cabeça para quem acredita que isso é sagrado é tão violento quanto tornar obrigatória sua utilização. No Irã, quando tentaram proibir o véu, algumas mulheres passaram anos trancadas em casa, simplesmente incapazes de cumprir a determinação de exibir os cabelos.

O diferente precisa ser respeitado. Muita gente boa tem escrito sobre a importância da convivência entre diferentes religiões e da tolerância. Visões sobre a relação entre espiritualidade e humanismo independem da fé. Aliás, talvez tolerância nem seja a melhor palavra, como ensina o bispo católico Dom Pedro Luiz Casaldáliga, que em 1977 escreveu o livro “Creio na Justiça e na Esperança”, uma aula de convivência e utopia:

Por pura necessidade de sobrevivência, o choque de civilizações terá de ser substituído por diálogo. Há no mundo um bilhão
de muçulmanos, de várias culturas e povos diferentes. Uma sexta parte da humanidade é muçulmana. E não adianta ser tolerante. Tolerância é  o que havia na guerra fria, algo muito raquítico. José Saramago inventou a palavra igualância. Podemos aprender muito com os muçulmanos, um certo sentido de contemplação, de adoração a Deus. E acho sarcástico que se queira apresentar aquele como o maior terrorismo da história. É uma blasfêmia. Esquecem-se o holocausto, Hiroshima, todas as guerras e invasões que tiveram o patrocínio dos Estados Unidos. E sobretudo a conquista da América e o que se fez com os índios, inclusive naquele país.
Dom Pedro Luiz Casaldáliga, em entrevista à revista IstoÉ

O escritor paquistanês Tariq Ali, que é ateu, é outro que tem insistido na importância da convivência e diálogo entre pessoas de opiniões e fés diferentes. Seus romances são deliciosos – “À sombra das romanzeiras” e “O livro de Saladino” são obras em que referências históricas e ficção são misturadas com talento. O islamismo está longe de ser sinônimo de fundamentalismo. Aliás, como aponta o professor de filosofia Mario Miranda Filho, “pensar, pesquisar, falar, trocar, discutir, desafiar e repensar” são parte de uma cultura de tolerância e tradição de livre pensamento originalmente conhecida como ‘Ijtihad’. Ela surgiu e se desenvolveu no Islã entre 750 e 1250.

O Outras Vias passa longe da campanha generalizada de islamofobia que tem como objetivo principal caracterizar o Irã como um país do “Eixo do Mal” e os imigrantes árabes, turcos e iranianos como ignorantes fanáticos indesejáveis – imaginário que serve de pretexto para ações violentas como intervenções militares e deportações. É fácil colar rótulos e caricaturizar com moldes toscos realidades complexas – vide a tentativa de associar a tragédia que aconteceu no Rio de Janeiro com fanatismo religioso (leia ótimos textos a respeito no IG e no G1).

Mulheres
Isso posto, fica mais fácil falar sobre o absurdo de se proibir mulheres de pedalar. Oficializar a lógica machista no trânsito, com agressividade, força e potência como prioridades no lugar da gentileza, compartilhamento e suavidade só tornam as ruas mais duras e tristes. Não por acaso, a circulação nas principais cidades iranianas é tensa. E feia.

Sim, feia; porque beleza é instrumento de mudança, principalmente no embate contra a lógica do medo e das restrições. A imagem de mulheres independentes e livres pedalando, se divertindo no caminho para o trabalho, é por demais perturbadora para que qualquer motorista preso no trânsito não pense, considere opções, se questione. O sucesso que as Pedalinas, coletivo feminino de ciclistas, têm obtido em São Paulo e o nascimento de novos grupos em outras cidades, como as Cíclicas em Porto Alegre, só prova o pontencial de se buscar alternativas com sensibilidade e beleza.

Triste o país em que as mulheres não podem pedalar

As bicicletas do Irã

Isfahan, Irã

Ia escrever sobre mulheres e mobilidade no Irã, mas a observação do amigo João Lacerda nos comentários do último texto me animaram a mostrar que, sim, existem outras vias também no país. Compartilho abaixo fotos de bicicletas do Irã. São meios de transporte utilizados por trabalhadores que encaram um trânsito mais caótico e perigoso que o de São Paulo. Gente que trilha um caminho alternativo ao da poluição e do medo, deixando as ruas mais bonitas. A arquitetura islâmica é impressionante por si só, com seus arcos, mesquitas e minaretes; com bicicletas por perto, fica difícil não parar e ficar só olhando.

Arquitetura islâmica. Isfahan

Devido à poluição, é comum ver pessoas com máscaras. Isfahan

Bicicletas de um programa público de aluguel. Isfahan

Modelos chineses e essas bolsas laterais são comuns nas ruas do Irã. Isfahan

Ao fundo, mulher com o chador, manto negro. Isfahan

Ponte Allah Verdi Khan, Isfahan

Praça principal da cidade. Isfahan

Próximo à entrada de uma mesquita. Yazd

Cena típica nas ruas desertas da cidade. Yazd

Jovem brinca de fazer manobras em praça. Shiraz

No trânsito. Shiraz

Bicicletas Hafez (o nome é uma alusão a um dos principais poetas do país). Shiraz

Vendedor de balões. Shiraz

 

Ah, no próximo texto informações sobre trânsito e gênero no país. Aliás, não é por acaso que não tem nenhuma foto de mulheres pedalando. Mulher não pode andar de bicicleta no Irã. Mais em breve.


Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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Dica de leitura

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