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A despedida do Ronaldo de dentro de um ônibus

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O bem sinalizado ponto de ônibus perto de casa.

Um curioso fenômeno torna-se cada vez mais comum dentro dos ônibus da cidade. Na lentidão do sistema, com os coletivos presos em um mar cada vez mais revolto de carros, os usuários de transporte público têm apelado para pequenos aparelhos de TV portáteis.

Enquanto ônibus capazes de levar mais de 50 pessoas ficam cercados por carros que, na maioria, levam apenas um ocupante, as pessoas usam todos os recursos para fazer o tempo passar. Incluindo ver um jogo de futebol durante a viagem, ainda que em uma tela tão pequena que o Ronaldo parece magrinho.

Quem viu o jogo da seleção brasileira ontem à noite sabe a que tipo de aparelho me refiro. No estádio muita gente acompanhou a partida neste tipo de telinha, como a TV insistiu em mostrar no final da transmissão, em um estranho e curioso festival de metalinguagem.

Aos vivos
Dentro dos coletivos, em dias de futebol, as pessoas interagem. É quase um estádio em movimento. Assisti à despedida do Ronaldo no último banco do ônibus, aquele que mais pula, dependendo de quão velha é a suspensão. A do coletivo em questão deveria ser bem velha, porque o banco pulava e pulava, dando a ilusão de uma arquibancada balançando.

Vi os últimos minutos do Fenômeno no aparelho de um vizinho desconhecido. Solidário, ao perceber meu interesse, ele até curvou a telinha para me ajudar a não perder detalhes. Trocamos comentários sobre a partida. Mais gente conversava. O cobrador praticamente narrou para o motorista a despedida do “Gordo”. Um era corintiano, o outro não. Provocações, brincadeiras, risadas.

Todos interagindo. Nos carros, todos sozinhos. Fazia frio, mas envolvido no estranho estádio em movimento, me senti aquecido. Futebol junta as pessoas. Até a senhora bem velhinha, sentada na minha frente, se esticava para ver a TV na mão de outro homem, este de boné e fones de ouvido. Atentos, todos juntos, acompanhamos o artilheiro perder os três gols.

É, Ronaldo, é hora de parar mesmo.

O primeiro tempo termina e meu ponto chega antes de o Ronaldo concluir a volta olímpica.

Respeito
Brincadeiras à parte, Ronaldo é o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, com 15 gols e participação em quatro edições do principal torneio de futebol do planeta (1994 como reserva, 1998, 2002 e 2006), fez seu último jogo pela seleção brasileira na noite desta terça-feira (7). Goste-se ou não do Fenômeno, há que se respeitá-lo. O craque (e é preciso critério e cuidado ao usar essa palavra) fez 105 jogos com a amarelinha. Venceu 74, empatou 22 e participou de apenas nove derrotas. Fez 67 gols. Um vencedor que fez da vida um exemplo de superação pela coragem com que enfrentou lesões graves.

Eu não sou o fã número 1 do Ronaldo; prefiro outros craques mais tortos como Garrincha, mas esta é outra história e o ponto é esse: assim como é preciso respeitar Pelé, é preciso respeitar Ronaldo.

Leia também outras considerações interessantes sobre TVs e sistemas coletivos no Panóptico e no Apocalipse Motorizado (textos de 2009).

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Prefeitos que pedalam e a C40

De camiseta vermelha, Sam Adams, prefeito de Portland (EUA), com os ciclistas que o acompanharam em São Paulo. Foto: João Lacerda / Transporte Ativo

Na semana passada, prefeitos e autoridades municipais das principais cidades do planeta se reuniram em São Paulo para discutir como reduzir emissões de carbono e lidar com as mudanças climáticas em curso no planeta. Durante o encontro, chamado de C40, soluções de mobilidade urbana foram discutidas e as autoridades brasileiras tiveram chance de entrar em contato com diversas experiências inovadoras para reduzir congestionamentos e melhorar a eficiência dos sistemas de locomoção (leia-se transportar mais gente gastando menos energia/combustível).

A principal recomendação, como não poderia deixar de ser, foi priorizar o transporte coletivo em detrimento do transporte individual. Mais ônibus, metrôs, bondes e trens nas ruas, menos carros. Uma fórmula fácil para reduzir a quantidade de veículos circulando e de fumaça no ar. Concretizar tal mudança e, junto a isso, ampliar a integração entre modais, é o passo decisivo para a construção de cidades mais humanas. Isso significa priorizar e facilitar a circulação de pedestres, criar bicicletários próximos a terminais de transporte e outros pontos com grande fluxo de pessoas e criar redes cicloviárias adequadas – que são compostas não só por ciclovias, mas também por rotas de trânsito compartilhado com sinalização e velocidade máxima reduzida.

O prefeito de Copenhague Frank Jensen, que aproveitou uma folga para tentar pedalar em São Paulo (veja reportagem na TV Globo), escreveu no Facebook que, durante um jantar com o prefeito de Nova Iorque Michael Bloomberg e o diretor do Banco Mundial Robert Zoellick, o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton ficou o tempo inteiro repetindo: “façam como Copenhague”. A cidade é justamente onde foi implementado de maneira mais radical o modelo de humanização de cidades pensado pelo arquiteto Jan Gehl, que acabou inspirando o genial projeto Cidade para Pessoas, da jornalista Natália Garcia e serve de base para mudanças em curso em algumas das principais capitais do planeta. O fechamento da Times Square em Nova Iorque, por exemplo, foi uma das intervenções propostas pela equipe de Gehl em parceria com a secretaria de Transportes da cidade (leia o que saiu a respeito no ((o)) eco Cidades – parte 1 e parte 2).

O secretário do Verde e Meio Ambiente Eduardo Jorge e o prefeito de Portland Sam Adams em frente à prefeitura de São Paulo. Foto: Rene Fernandes - @renejrfernandes

Tá na moda?
Ele não foi o único prefeito a pedalar. O de Portland Sam Adams aceitou um convite da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) e, em vez de ficar enfurnado em um hotel de luxo na zona sul da cidade, se animou em pedalar pela região central (veja reportagem na TV Record). Nas principais capitais do planeta, promover a reapropriação do espaço público por meio do incentivo ao uso bicicleta é cada vez mais uma tendência da qual os prefeitos de orgulham. Boris Johnson, o de Londres, outra capital onde mudanças que está se adaptando totalmente às bicicletas, não compareceu na C40, mas postou uma foto na semana passada em uma fábrica de bicicletas.

Por aqui, o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab começa a surfar (ou pedalar) também nesta onda. Quebrando a tradição dos políticos da cidade, que sempre estufavam o peito para falar de pontes e avenidas monstruosas deixadas como “legado”, o atual governante já fala em deixar “ciclovias permanentes”:

“Vamos avaliar a implementação da ciclovia permanente na cidade de São Paulo. É um legado que quero deixar para as próximas gestões.” Gilberto Kassab, no Jornal da Tarde

Os prefeitos começam a pedalar e as cidades começam a mudar. Mesmo que o carro do governador ainda não dê preferência para pedestres, como noticiou hoje o G1.

Anjos de bicicleta, carona solidária e outras ideias para prevenção de congestionamentos

Marcos Bicalho, Fernando Doria de Bellis, Soninha Francine, Eduardo Jorge e João Paulo Amaral debatem mobilidade urbana em evento sobre sustentabilidade em São Paulo

Você já ouviu falar em Bike Anjo? E já pensou em levar no seu carro alguém que você não conhece, mas que trabalha na mesma empresa que você e mora perto da sua casa? Você já imaginou se na sua cidade os ônibus custassem a metade do preço ou até menos do que custam hoje? Estas são algumas das ideias sobre como melhorar o trânsido das cidades que foram debatidas na noite de segunda-feira, dia 30, na Zona Oeste de São Paulo. No painel Mobilidade Urbana, um dos muitos da II Semana da Sustentabilidade da Livraria Cultura, quatro especialistas de diferentes áreas apresentaram e discutiram ideias interessantes para prevenção de congestionamentos.

Com a mediação de Soninha Francine, participaram da conversa o secretário municipal do Verde e Meio Ambiente Eduardo Jorge, o organizador do projeto Carona Brasil Fernando Doria De Bellis, o bike anjo e consultor ambiental João Paulo Amaral, e o superintendente da Associação Nacional dos Transportes Públicos Marcos Bicalho. Este último, ao final do evento, resumiu a qualidade do debate e a dificuldade em levar adiante projetos: “Temos unanimidade em diversos pontos e as soluções existem. O problema é que, na hora de serem votadas, os vereadores e legisladores não as aprovam”, ressaltou, apontando que tal resistência se dá devido à existência de um “judiciário conservador” e uma imprensa que, em termos gerais, não consegue analisar os problemas com profundidade e estabelecer as relações por trás da crise de mobilidade em curso.

Com o intuito de colaborar na busca de soluções de congestionamentos e melhoria coletiva da qualidade de vida nas cidades, o Outras Vias apresenta uma seleção das principais propostas apresentadas.

Bike anjo – Projeto tocado de maneira voluntária por ciclistas que se dispõe a ajudar novatos para aumentar o número de bicicletas nas ruas. Os anjos de bicicletas dão dicas de segurança, orientam quanto aos melhores caminhos e ajudam a traçar rotas evitando avenidas ou trechos com mais dificuldade. O João Paulo Amaral, que apresentou o conceito durante as discussões, é também integrante do coletivo Ecologia Urbana, além de trabalhar como consultor em projetos de sustentabilidade e mobilidade e ser um dos responsáveis por organizar o Ação Pegada Berrini pela Green Mobility. A iniciativa tem se multiplicado e, além dos bike anjos de São Paulo, já existem os bici anjos de Porto Alegre, e os de Pernambuco.

Para ver imagens de um bike anjo em ação e entender melhor como o projeto funciona, assista à reportagem “Bike anjos ajudam a diminuir o trânsito e a poluição de São Paulo”, do Bom Dia Brasil, da TV Globo.

Caronas solidárias – Surgem no Brasil diversos programas para incentivar a prática de caronas e ampliar a segurança dos adeptos desta forma de viagem. No evento, o organizador de um destes projetos, o Carona Brasil, Fernando Doria De Bellis, contou sobre a receptividade que a ideia tem tido em diversas empresas, defendeu o potencial de reduzir o número de carros em circulação aumentando o número de passageiros por veículos, e explicou como a tecnologia tem ajudado a colocar em contato pessoas que moram próximas e tem destinos parecidos. Em diversas cidades do planeta há programas para incentivar a solidariedade entre os motoristas. Entre as medidas que tiveram resultados positivos estão a criação de faixas preferenciais para carros com mais de um ocupante. Tem gente muito boa por aqui defendendo este tipo de iniciativa. O antropólogo Roberto da Matta, por exemplo, é favorável à criação deste tipo de faixas na Ponte Rio-Niterói (leia entrevista recente que fiz com ele para o jornal Folha Universal).

Redução de tarifas para o transporte coletivo – Aumentar o número de bicicletas nas ruas e incentivar a carona pode ajudar a reduzir o número de carros em circulação, mas nenhuma medida é mais importante do que tornar mais acessível o transporte coletivo nas grandes cidades. Durante a palestra, o superintendente da Associação Nacional dos Transportes Públicos Marcos Bicalho defendeu uma redução radical no preço das tarifas, citou exemplo de outras cidades do mundo e ressaltou os benefícios para todos de substituir um sistema baseado no transporte individual por um baseado no transporte coletivo.  Reclamou da falta de vontade política para tais mudanças e lembrou que, apesar dos investimentos normalmente serem direcionados principalmente para ampliação e manutenção da infraestrutura para carros (os “grandes vilões”, nas suas palavras), a maioria da população se desloca de outras maneiras – fato já destacado neste blog. Aliás, Bicalho não é o primeiro a defender a ideia de reduzir radicalmente as tarifas e o Outras Vias já resumiu anteriormente também propostas até de reduzir a tarifa para zero. Bicalho, por fim, defendeu a integração de diferentes modais, os bicicletários em terminais, e “um olhar mais intenso e radical para os pedestres”, tendo como base a Década de Ação pela Segurança no Trânsito.

Cidades para pedestres – A priorização e melhoria das condições para quem caminha nas cidades foi outro consenso entre os participantes. Apoiado na recente campanha de respeito para os pedestres da pasta municipal de Transportes de São Paulo, o secretário municipal de Verde e Meio Ambiente Eduardo Jorge defendeu medidas como a redução da velocidade máxima nas vias, lembrando que só de alterar o limite de 80 km/h para 70 km/h o número de acidentes na Avenida 23 de Maio, uma das principais da cidade, caiu 27%. O secretário destacou a preocupação em melhorar a qualidade do ar, defendeu a busca por novas tecnologias de combustível para frota e a criação de novos mecanismos para desestimular o uso do transporte individual, como o polêmico pedágio urbano. Ao tocar neste ponto, lamentou o que avalia como resistência à proposta por parte da própria população que seria beneficiada. Pedágio urbano, aliás, é um tema tão complexo e polêmico que vale um texto inteiro a respeito. Em breve.

Tempo de mudanças

Sábado à tarde, Praça do Ciclista, esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Da cobertura de um prédio, moradores jogam balões coloridos e saúdam a manifestação. As pessoas, que caminham com cartazes, fantasias e flores em um protesto pacífico, vibram. A Marcha da Liberdade avança.

Policiais, que dias antes haviam reprimido com violência um protesto pela legalização da maconha (veja os vídeos do jornal Folha de S. Paulo e da revista Trip), desta vez apenas observam, formando um cordão protegendo a massa. Nem os gritos de “ei, polícia, liberdade é uma delícia”, tiram a tropa do sério.  O afastamento de dois oficiais, cuja responsabilidade pelo excesso de violência na manifestação anterior está sendo apurado em sindicância interna aberta pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, freia o ímpeto dos mais exaltados.

Pela cara, alguns PMs parecem incomodados com a multidão colorida; outros, sorriem e olham com simpatia as flores e o tom de brincadeira da passeata. Todos mantêm uma postura profissional, evitando confrontos desnecessários. Afinal, além do afastamento de oficiais, o próprio governador Geraldo Alckmin adotou um tom crítico ao falar sobre a repressão à última manifestação (ouça na CBN).

Controle
Espera. Assim como a manifestação anterior, a Marcha da Liberdade também foi proibida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O desembargador Paulo Antonio Rossi utilizou toda sua autoridade para determinar que o Estado de São Paulo coibisse a manifestação. A Polícia Militar chegou a anunciar que a passeata estava proibida. O que aconteceu então?

Quando a ordem institucional deixa de dialogar com a realidade, nenhum juiz tem autoridade para proibir uma manifestação por liberdade ou democracia. Foi o que aconteceu, é o que tem acontecido. Não adianta ordenar o silêncio ou a ausência. Não dá para coibir a indignação com bombas ou gás de pimenta. O magistrado pode até determinar que sua ordem seja cumprida a qualquer custo (leia-se com a promoção pública de uma carnificina) e a tal indignação pode até ficar escondida, contida por um tempo. Isso, para explodir de uma só vez em uma revolta violenta. Melhor assim, manifestações pacíficas, protestos, greves (leia mais sobre a campanha salarial dos Metroviários de São Paulo) – instrumentos de diálogo institucional para mudanças. Prevaleceu o bom-senso do comando ou do governo de não tentar forçar o fim da manifestação com botinadas.

Pior para o desembargador.

Liberdade
É tempo de mudanças e quem não conseguir visualizar e entender isso vai ficar igual o citado magistrado, dando ordens ao vento. Os protestos recentes não são orquestrados ou partidários; não são parte de um movimento político bem organizado, com líderes e hierarquia. Não, são manifestações públicas quase espontâneas, impulsionadas pela internet e pela facilidade que a comunicação em rede permite para a troca de informações.

Foi assim que aconteceu o churrasco-protesto em prol de uma estação de Metrô em Higienópolis, parte da construção de uma rota de ligação importante com um pedaço da Zona Norte até agora mal conectado com o Centro de São Paulo. Foi assim que começaram os protestos recentes que derrubaram ditaduras no Oriente Médio e no norte da África. Foi assim que ganharam força as manifestações de agora na Espanha e em Portugal.

A política está mudando. E não é uma leitura só deste escriba atrapalhado, que talvez escreva melhor sobre mobilidade urbana do que sobre protestos. Olha o que o Clóvis Rossi andou escrevendo sobre o tema.

Informação e poder
São mudanças recentes, ainda não muito claras ou definidas. Ao mesmo tempo em que as manifestações individuais ou coletivas influenciam cada vez mais a política, a maneira como a troca de informações se dá na sociedade também muda rapidamente. Começam a surgir redes em que os integrantes são mais do que telespectadores ou leitores passivos. Em vez de apenas receber informações, tal público também influencia. Republica, comenta, questiona, participa. Acaba ditando os assuntos mais importantes do dia – e que ninguém se iluda, o interesse pelo tipo de batom da celebridade x ou y pode até provocar explosões de audiência, mas o que consolida e fortalece a audiência um portal é a credibilidade, independência e seriedade com que temas relevantes são tratados.

O público participa e troca informações. Foi assim que as notícias sobre a morte de camponeses no Pará ou em Rondônia espalhou-se pelo resto do país, a ponto de provocar críticas até por parte de ministros. Foi assim que ganhou força a mobilização contra a flexibilização do Código Florestal – e a indignação com o posicionamento de deputados pró-desmatamento liderados pela bancada ruralista fez a audiência de ((o)) eco disparar em função da boa cobertura crítica que o portal realizou  sobre o assunto.

O tempo em minha bicicleta

Durante a viagem que fiz em março para o Irã conheci o Takeshi Tomita, um médico cirurgião japonês que, entre kebabs e muito dugh (bebida típica sem álcool de iogurte salgado), se tornou um grande amigo. Ele estava fazendo um giro pela região, mas teve que interromper sua viagem e voltar para o Japão e ajudar no atendimento das vítimas do desastre nuclear. Continuamos em contato pela internet e outro dia ele me escreveu entusiasmado, contando que havia ido para o trabalho de bicicleta. Ele escreveu a respeito para o Outras Vias:

“Conforme o tempo passa, conforme fui ficando mais velho, troquei a bicicleta como meu principal meio de transporte por um carro. Hoje, trabalho em Tóquio, uma das cidades ‘mais ocupadas e rápidas’ do mundo, e sou médico, uma das profissões ‘mais corridas’ de todas. Minha filosofia de vida tem sido ‘tempo é dinheiro’. Isso quer dizer que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então não devemos desperdiça-lo, como vocês sabem.

Conheci um brasileiro chamado Daniel no Irã, quando eu fazia uma viagem pela Índia, Paquistão, Irã e Turquia. Nós viajamos juntos no Irã e na Turquia por mais de uma semana e viramos bons amigos, apesar de eu não ter certeza se ele me considera um bom amigo.

De qualquer forma, ele é um rapaz muito legal e ama tanto bicicletas que até acho que ele as prefere a uma garota. E se tem algo que me deixou cansado durante a viagem é que ele sempre me dizia para parar de dirigir um carro e ir para o trabalho de bicicleta. Durante a viagem, ouvi demais essa sugestão.

Alguns dias passaram, eu voltei para o Japão e para o meu trabalho de médico novamente. Então, minha vida voltou a ser comum, ocupada e rápida.

Até que um dia em Tóquio eu acordei uma hora mais cedo que o comum. Não sei por que fiz isso, mas fui pedalando até o hospital. No caminho, descobri uma escola com crianças falando, sorrindo e dando risadas com prazer. Elas pareciam muito felizes e a felicidade e paz na cara delas me fizeram feliz também. E eu passei também um velho e lindo templo japonês.

Descobri que o caminho é silencioso e com bastante verde, e que o ar é limpo. Mesmo sendo o mesmo caminho que eu faço de carro, isso tudo foi novidade para mim.

No caminho para o hospital de bicicleta eu me senti maravilhoso e feliz. Consegui tempo para pensar em muitas coisas também.

Hoje minha filosofia ainda é ‘tempo é dinheiro’. Mas isso significa agora que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então devo aproveitá-lo devagar, como quando pedalo minha bicicleta.”

Takeshi Tomita
Médico cirurgião cardiáco
Tóquio – Japão

Uma foto do velho e lindo templo japonês:

Uma oficina de ideias

Estacionamento na porta!

No último sábado, dia 21, como parte do Mão na Roda, o projeto de mecânica e discussão técnica comunitária da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade), aconteceu a oficina especial Ideia Fixa. A reunião foi realizada no espaço Contraponto, onde toda quinta-feira acontecem os encontros da Mão na Roda. Do zero, os fixeiros Rafael Rodo e Daniel Haase montaram uma bicicleta fixa, dando explicações detalhadas e instruções técnicas a cada peça instalada.

O encontro contou ainda com uma palestra do fabricante de quadros Igor*, que explicou detalhes sobre as propriedades de cada material utilizado e especificações de tamanhos. Um verdadeiro curso de graça sobre montagem de bicicletas, organizado e realizado de maneira voluntária por gente apaixonada que tem como objetivo ver mais gente pedalando e se envolvendo com bicicletas na cidade.

Haase e Rodo apresentam as peças da fixa a ser montada.

As falas foram transmitidas ao vivo e estão disponíveis no arquivo de filmes da Ciclocidade e nos links abaixo (com algumas interrupções por falhas na transmissão). O material pode ajudar quem não conseguiu participar por estar em outra cidade, mas tem interesse em tentar montar uma bicicleta deste tipo:

Ideia Fixa parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6 (com fala do Igor), parte 7, parte 8, parte 9, parte 10

Haase apresenta mais uma peça enquanto Rodo ajusta a bike.

No final do encontro, aconteceu a exibição de filmes a cargo do também fixeiro Bruno Gola. Hipnotizante assistir às sequências de imagens de bike messengers de Nova Iorque, fixeiros subindo e descendo as colinas de São Francisco em uma velocidade impressionante, e imagens feitas pela galera em São Paulo. Produções feitas com uma qualidade absurda, com detalhes tão precisos que ficam nítidas gotas d´água espirradas por uma roda que passa.

A fixa pronta!

E quando se trata de bicicletas fixas, em que a estética de pedalar é apaixonante, este tipo de filme envolve, seduz. A precisão, as manobras, o envolvimento total com a bicicleta, tudo impressiona. Paixão por técnica é uma constante, as pessoas se apaixonam por detalhes, por construir, montar, desmontar. Quase uma obsessão. Tem gente que sente isso por armas ou por carros. Tem gente que sente isso por bicicletas.

Paixão por detalhes!

Só que, neste tipo de encontro, mais do que um curso técnico, acontece também uma oficina de ideias. Trata-se de uma troca paralela, meio informal até, incontrolável de sugestões e opiniões que vão desde como melhorar a cidade até a possibilidade de organizar campanhas de arrecadação de roupas para moradores de rua no frio; sem falar no intercâmbio de informações sobre passeios, encontros, caminhos, modelos de bicicletas, roupas, Massa Crítica, ciclismo profissional.

Sorte da cidade que tem oficinas de ideias. Fixas ou não.

Mais sobre o evento no Pscycle e fotos muito melhores do que a deste blog no Flickr do Gonzalo Cuéllar.

* Se alguém tiver o contato do Igor, favor deixar nos comentários para ajudar quem está buscando quadros especiais.

Fixas, bike de corpo e alma

No sábado, a partir do meio-dia, haverá um encontro temático na oficina comunitária Mão na Roda sobre bicicletas fixas (leia mais no blog do Mão na Roda na página da Ciclocidade). No encontro, o pessoal que pedala este tipo de bicicleta montará do zero um modelo, dando dicas e instruções para quem tiver interesse no assunto. Mas que diabos são bicicletas fixas?

Fixa é o tipo de modelo sem marchas e sem liberdade na corrente. A roda gira toda vez que o pedal gira e… vice-versa. Tenta imaginar. Não é só na subida que fica mais difícil (já que simplesmente não existe a facilidade de se trocar para uma marcha mais leve). Não; nas descidas também é preciso pedalar e controlar o ritmo da bicicleta. A relação entre o pedal e a velocidade é tão intensa que o freio é praticamente desnecessário. Para brecar uma fixa, o melhor é ficar de pé e travar o pedal, deslizando a roda (derrapando).

Mas por que as pessoas optam por bicicletas assim?! Pois é, tem a ver com esse lance de intensidade. Pedalar uma fixa é estar totalmente conectado com a bicicleta. Cada movimento das pernas, dos quadris, dos braços influencia na maneira como a bicicleta, que é leve e tem pneus finos, se mexe. Dá para sentir cada buraquinho do asfalto, cada imperfeição. E manter a velocidade (ou diminuir) é um exercício constante de concentração, foco e ritmo.

É lindo.

Liberdade
Quem critica fixas diz que elas são bikes limitadas, que não dá para fazer tudo com uma dessas. Eu não sei, mas suspeito que tal afirmação não tem cabimento. Lógico que você não vai entrar em uma trilha cheia de pedras com uma bicicleta com o pneu fininho, mas, até aí, também não dá para encarar uma dessas com uma bicicleta “normal”, sem pneus de cravo e suspensão.

Tenho convivido com gente que pedala bicicletas fixas. A minha grande amiga Aline Cavalcante foi quem me apresentou uma. Tentei montar na dela, me atrapalhei, quase cái algumas vezes e fiquei bobo com esse tipo de modelo. Ensaio desde então para, morando em um bairro repleto de colinas, tentar pedalar uma dessas com alguma regularidade. Talvez dê para aprender na Ciclofaixa de Lazer.

É inspirador ver a paixão de gente como Gola, Talita, Laurinha, Pedrinho, Rodo e tantos outros amigos próximos ou não. O tesão pedalando é uma constante para essa turma.

Leia também: próximas oficinas Pedalinas

* Tirando o pôster, as imagens deste post são todas do Adams Carvalho, ilustrador talentoso já citado neste blog anteriormente. Quando o conheci, ele estava subindo a Rua Augusta de fixa. Vale conferir mais do trabalho dele no blog, no portfólio e nesta página em que estão reunidas todas as imagens de fixas reproduzidas aqui).


Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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