Archive for the 'Bicicletada' Category

Tempo de mudanças

Sábado à tarde, Praça do Ciclista, esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Da cobertura de um prédio, moradores jogam balões coloridos e saúdam a manifestação. As pessoas, que caminham com cartazes, fantasias e flores em um protesto pacífico, vibram. A Marcha da Liberdade avança.

Policiais, que dias antes haviam reprimido com violência um protesto pela legalização da maconha (veja os vídeos do jornal Folha de S. Paulo e da revista Trip), desta vez apenas observam, formando um cordão protegendo a massa. Nem os gritos de “ei, polícia, liberdade é uma delícia”, tiram a tropa do sério.  O afastamento de dois oficiais, cuja responsabilidade pelo excesso de violência na manifestação anterior está sendo apurado em sindicância interna aberta pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, freia o ímpeto dos mais exaltados.

Pela cara, alguns PMs parecem incomodados com a multidão colorida; outros, sorriem e olham com simpatia as flores e o tom de brincadeira da passeata. Todos mantêm uma postura profissional, evitando confrontos desnecessários. Afinal, além do afastamento de oficiais, o próprio governador Geraldo Alckmin adotou um tom crítico ao falar sobre a repressão à última manifestação (ouça na CBN).

Controle
Espera. Assim como a manifestação anterior, a Marcha da Liberdade também foi proibida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O desembargador Paulo Antonio Rossi utilizou toda sua autoridade para determinar que o Estado de São Paulo coibisse a manifestação. A Polícia Militar chegou a anunciar que a passeata estava proibida. O que aconteceu então?

Quando a ordem institucional deixa de dialogar com a realidade, nenhum juiz tem autoridade para proibir uma manifestação por liberdade ou democracia. Foi o que aconteceu, é o que tem acontecido. Não adianta ordenar o silêncio ou a ausência. Não dá para coibir a indignação com bombas ou gás de pimenta. O magistrado pode até determinar que sua ordem seja cumprida a qualquer custo (leia-se com a promoção pública de uma carnificina) e a tal indignação pode até ficar escondida, contida por um tempo. Isso, para explodir de uma só vez em uma revolta violenta. Melhor assim, manifestações pacíficas, protestos, greves (leia mais sobre a campanha salarial dos Metroviários de São Paulo) – instrumentos de diálogo institucional para mudanças. Prevaleceu o bom-senso do comando ou do governo de não tentar forçar o fim da manifestação com botinadas.

Pior para o desembargador.

Liberdade
É tempo de mudanças e quem não conseguir visualizar e entender isso vai ficar igual o citado magistrado, dando ordens ao vento. Os protestos recentes não são orquestrados ou partidários; não são parte de um movimento político bem organizado, com líderes e hierarquia. Não, são manifestações públicas quase espontâneas, impulsionadas pela internet e pela facilidade que a comunicação em rede permite para a troca de informações.

Foi assim que aconteceu o churrasco-protesto em prol de uma estação de Metrô em Higienópolis, parte da construção de uma rota de ligação importante com um pedaço da Zona Norte até agora mal conectado com o Centro de São Paulo. Foi assim que começaram os protestos recentes que derrubaram ditaduras no Oriente Médio e no norte da África. Foi assim que ganharam força as manifestações de agora na Espanha e em Portugal.

A política está mudando. E não é uma leitura só deste escriba atrapalhado, que talvez escreva melhor sobre mobilidade urbana do que sobre protestos. Olha o que o Clóvis Rossi andou escrevendo sobre o tema.

Informação e poder
São mudanças recentes, ainda não muito claras ou definidas. Ao mesmo tempo em que as manifestações individuais ou coletivas influenciam cada vez mais a política, a maneira como a troca de informações se dá na sociedade também muda rapidamente. Começam a surgir redes em que os integrantes são mais do que telespectadores ou leitores passivos. Em vez de apenas receber informações, tal público também influencia. Republica, comenta, questiona, participa. Acaba ditando os assuntos mais importantes do dia – e que ninguém se iluda, o interesse pelo tipo de batom da celebridade x ou y pode até provocar explosões de audiência, mas o que consolida e fortalece a audiência um portal é a credibilidade, independência e seriedade com que temas relevantes são tratados.

O público participa e troca informações. Foi assim que as notícias sobre a morte de camponeses no Pará ou em Rondônia espalhou-se pelo resto do país, a ponto de provocar críticas até por parte de ministros. Foi assim que ganhou força a mobilização contra a flexibilização do Código Florestal – e a indignação com o posicionamento de deputados pró-desmatamento liderados pela bancada ruralista fez a audiência de ((o)) eco disparar em função da boa cobertura crítica que o portal realizou  sobre o assunto.

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Arte e barbárie

Durante a Ditadura Militar no Chile, soldados entraram na casa do poeta Pablo Neruda e ordenaram que ele entregasse sua arma. O vate não hesitou. Abriu uma gaveta e sacou a esferográfica verde que usava para arriscar seus versos. Diante da cara de dúvida do militar, explicou didático algo assim: “Não se arrisque, com ela eu posso derrubar governos”.

A arte é arma poderosa de transformação. Este é um blog sobre mobilidade urbana, mas, também, como não poderia deixar de ser, sobre transformação de cidades. A maneira como as pessoas se deslocam afeta e determina o formato do espaço em que vivemos. Arte perturba, faz pensar.

No último texto, mencionei que as bicicletadas têm sido marcadamente espaço de criatividade e alegria. Olha a poesia desta última, a do chapéu, nos retratos feitos com sensibilidade pelo Ian Thomaz. Ele não é o único fotógrafo sempre presente na Massa Crítica. O Gonzalo Cuéllar é outro com olhar aguçado que sempre clica as manifestações.

Basnky
Ainda sobre a importância da arte na reconquista do espaço público, do amor próprio, do gostar, olha o Manifesto* que o Bansky publicou tem alguns bons anos, cujo original está em arquivo aqui e a versão traduzida eu encontrei aqui:

“Não consigo dar nenhuma descrição adequada do campo de horror no qual os meus homens e eu tínhamos de passar o próximo mês das nossas vidas. Não passava de um local estéril inóspito, tão estéril como um galinheiro. Corpos jaziam por todo o lado, alguns em montes enormes, algumas vezes jaziam sozinhos ou em pares onde tinham caído. Demorou algum tempo a habituar a ver homens, mulheres e crianças a desfalecer enquanto passavam por eles e resistir ao impulso de ir ao seu auxílio. Cada pessoa tinha de se habituar à ideia que o indivíduo não contava. Todos sabíamos que estavam a morrer quinhentas pessoas por dia e que outras quinhentas pessoas por dia iam morrer durante semanas até que algo que nós tivéssemos feito surtisse o mínimo efeito. Era, no entanto, muito difícil ver uma criança a asfixiar com difteria quando sabíamos que uma traqueotomia e alguns cuidados básicos chegariam para a salvar, víamos mulheres a afogarem-se no próprio vómito por estarem demasiado fracas para se voltarem, e homens a comer vermes enquanto agarravam um pedaço de pão unicamente porque eles tinham de comer vermes para sobreviver e naquele momento pouca diferença sentiam. Pilhas de corpos, nus e obscenos, com uma mulher fraca demais para estar de pé encostada a eles enquanto cozinhava o alimento que lhe tínhamos dado; homens e mulheres agachados por todo o lado aliviando-se da disenteria que lhes irritava as entranhas, uma mulher completamente nua lavava-se com sabão e com a água de um tanque onde os restos mortais de uma criança flutuavam.

Foi pouco tempo depois da Cruz Vermelha Britânica chegar, embora possa não haver ligação, que uma grande quantidade de batom chegou. Isto não era nada do que nós homens queríamos, estávamos a clamar por centenas e milhares de outras coisas e não sabíamos quem tinha pedido batom. Só queria descobrir quem foi que o fez, foi uma acção de génio, brilhantismo puro e inalterado. Creio que nada fez mais por estes prisioneiros que o batom. Mulheres jaziam nas camas sem lençóis ou camisa de noite mas com lábios escarlates, víamo-las a vaguear com nada mais que uma manta nos ombros, mas com lábios vermelho escarlate. Vi uma mulher morta na marquesa de autópsias que ainda agarrava o batom com as mãos. Finalmente alguém fez algo para fazer destas pessoas indivíduos de novo, eles eram alguém, não mais somente o número que estava tatuado no braço. Finalmente eles podiam ter algum interesse na sua aparência. Aquele batom começou a devolver-lhes a sua humanidade.

* Extraído do diário do tenente coronel Mervin Willett Gonin que estava entre os primeiros soldados britânicos a liberar Bergen-Belsen em 1945

Grafite em casa
Além de ideias sobre arte, este artigo reúne o trabalho de dois amigos queridos, o Marcelo Siqueira e o Valdinei Calvento (Cabelo), que passaram o sábado em casa pintando. Contratei os dois durante a Bicicletada e dei total liberdade para eles pintarem. O resultado são as imagens aqui reunidas.

Por último, se você está buscando arte e bicicletas, vale dar uma olhada também no trabalho do Adams.

Sobre Bicicletadas, rebeldia e causas

Há tempos o direito à manifestação nas grandes cidades vem sendo contestado. Em nome da ordem, qualquer tentativa de chamar atenção para os problemas cotidianos é condenada e, eventualmente, criminalizada e reprimida com violência. Ai de quem ousar interromper o sagrado trânsito da cidade com cartazes, narizes de palhaço, apitos e cantoria. Se não for para travar as ruas enfileirando carros, não pode; é caso de polícia, de mandar batalhão, tropa especial, de bater e prender.

A repressão é construída e reforçada por microfones moralistas e gritos pela manutenção da ordem, sempre a ordem. Uma lógica que ignora as falhas e limitações do sistema, que se faz cega para os vícios na política, no judiciário, para os interesses na manutenção de estruturas sociais pouco democráticas e injustas. Retirar a legitimidade de manifestações populares, classificar seus participantes de “rebeldes sem causa”, é um jeito de impedir ou pelo menos frear mudanças.

Tal discurso é violento. O Atropelador de Porto Alegre pode até não bater bem dos pinos, mas existe uma relação entre o que ele fez e a percepção de que quem participava da Massa Crítica naquele dia não tinha o direito de estar ali, de existir. É uma ideia construída com mensagens diárias, com a repetição à exaustão de expressões como “desocupados” ou “baderneiros”, os “sem causa”.

Bicicletadas
As Bicicletadas ou Massas Críticas são movimentos espontâneos, sem líderes ou chefes, manifestações coletivas de pessoas que querem mudanças, que não se conformam mais em viver em cidades entupidas de carros e fumaças. São pessoas dispostas a gastar tempo e energia em busca de tais transformações, e não desocupados. Gente disposta a brigar por isso.

Mesmo assim, os protestos têm sido pacíficos,  alegres e diversificados. Reúnem crianças, mulheres, gente de todas as cores e idades, gente tinindo de pedalar e gente fora de forma. Envolvem pessoas solidárias, que entendem que é preciso compartilhar as ruas – e lutam para que, em vez de apenas carros, outros modais também sejam valorizados pelas autoridades. É uma massa capaz de manifestações épicas, como a do último Dia Mundial Sem Carro.

Dá até para criticar o trancamento de ruas e avenidas – e tem gente que faz isso com elegância e criatividade, o que provoca mais reflexão do que ataques baseados em estereótipos. Vale dar uma espiada neste vídeo gringo gravado e editado por cara que ficou preso no trânsito dentro de um ônibus por mais de dez minutos devido à Massa Crítica. É uma crítica forte, que faz pensar, que provoca o questionamento interno, necessário para rever ou reafirmar direções.

E é para pensar mesmo. Muitos colegas não concordam que fechar o trânsito é uma boa estratégia para chamar atenção para os problemas de mobilidade da cidade. Mas quer crítica maior para a ineficácia do sistema de transportes do que travar o próprio trânsito com bicicletas? Que outra forma melhor de chamar a limitação de manter o trasnporte individual como principal sistema? De chamar a atenção para a falta de interação entre os diversos meios de transporte? Para a falta de diversidade? Para a Ditadura dos Carros, que reinam absolutos dominando recursos públicos e a atenção da mídia, mesmo sendo opção da minoria da população?

Hoje é dia de Bicicletada em São Paulo e em algumas das principais capitais do país. Mais aqui.

Sem pudor de mudar o mundo

foto: Santiago Luz

No último sábado (12), mais de duas centenas de pessoas participaram da quarta edição da Pedalada Pelada em São Paulo. Esta foi a primeira edição noturna do evento e também a primeira marcada exclusivamente pelo sorriso e pelos aplausos da população que viu o alegre cortejo passar.

Nas edições anteriores, a presença ostensiva da polícia (disposta a impedir a nudez) e da mídia (disposta a sexualizar a nudez) transformaram o passeio-manifestação em um jogo de gato e rato, com pessoas detidas e um clima de constrangimento sensacionalista que ficou bem longe das ruas em 2011.

foto: cc Ian Thomaz

Mistura de celebração e protesto, a World Naked Bike Ride (Pedalada Pelada Mundial) acontece uma vez por ano em diversas cidades. Começou em 2004, na Espanha e no Canadá, como forma de protesto contra a dependência por petróleo. Depois, se espalhou pelo mundo, ganhando contornos diversos em cada lugar.

Em São Paulo, a festa dos corpos nus, vestidos com roupas de banho ou decorados por pinturas coloridas, chama atenção para a “exposição indecente ao trânsito” de pedestres, cadeirantes, ciclistas e passageiros do transporte público, sujeitos à péssimas e perigosas condições de locomoção na cidade.

foto: Anderson Barbosa

Por volta das 20h do último sábado, a população se aglomerava nas calçadas da Av. Paulista. Câmeras, celulares e sorrisos apontados para os ciclistas com os corpos pintados.

Aplausos e palavras de apoio ainda pipocavam aqui e ali quando as primeiras bicicletas começaram a dar voltas em torno da praça. Aos poucos, a massa estava formada e começava a fluir pela avenida.

Enquanto os ciclistas seguiam em direção ao Paraíso, motoristas que participavam do congestionamento no sentido Consolação olhavam com admiração para o outro lado da avenida.

foto: cc Ian Thomaz

De um lado da rua, ciclistas se moviam de maneira fluida e ocupavam o espaço de maneira inteligente em uma ação direta para melhorar a realidade. Do outro lado da rua, carros e ônibus praticamente parados no congestionamento causado pelo excesso de carros.

No meio da massa, alguém grita “trânsito obsceno”. A frase, que sintetizava a paisagem da avenida naquele momento, começa a ser entoada pela multidão pelada e vira um bordão recorrente durante o percurso. Seria repetida em congestionamentos na av. Brasil e na rua Mourato Coelho, onde carros estacionados dos dois lados da via se somavam aos carros praticamente estacionados nas faixas de rolamento e causavam uma sensação claustrofóbica que já se tornou “normal” para os motoristas paulistanos.

foto: Santiago Luz

Não é preciso ser muito empolgado para se divertir com um grupo de ciclistas coloridos, festivos e alegres. A Pedalada Pelada, assim como as bicicletadas que acontecem na última sexta-feira do mês, demonstram ao vivo uma possibilidade bem mais interessante de ocupação das ruas do que o congestionamento agressivo e barulhento de carros com uma pessoa dentro.

Não é preciso ser muito esperto para entender que os ciclistas reivindicam melhores condições de circulação nas ruas. A mensagem é obvia e, em 2011, ficou mais clara ainda por conta do incidente em Porto Alegre, quando um motorista atropelou intencionalmente dezenas de ciclistas durante uma bicicletada.

foto: Santiago Luz

Munidos de símbolos, imagens, panfletos e frases, os ciclistas da Pedalada Pelada espalharam de maneira alegre a mensagem: é possível e necessário compartilhar o espaço e conviver nas ruas.

A simpatia da população foi ampla, geral e irrestrita: pessoas de todas as idades, classes sociais, crenças ou religiões aplaudiam a massa pelada durante o trajeto. Uma pesquisa rápida no twitter por “ciclistas pelados” ou “pedalada pelada” comprova a ideia de que a população paulistana quer mais (e não menos) eventos que tragam alegria e propaguem a convivência.

foto: Santiago Luz

A nudez exibida durante a Pedalada Pelada não tem nada de obscena e está longe de ter qualquer caráter sexual. Os corpos dos ciclistas tinham formas e tipos variados.

Corpos normais, de pessoas normais. Gordos ou magros, peludos ou pelados: padrões distantes daqueles expostos e impostos sexualmente pela mídia, inclusive em programas destinados ao público infantil.

foto: Santiago Luz

Durante algumas horas da noite de sábado, o falso moralismo brasileiro parece ter sucumbido à alegria genuína de seres humanos íntegros e inteiros, que querem apenas andar de bicicleta e conviver pacificamente com os outros seres e com o planeta.

A cena de um “carnaval para Jesus” encontrando a Pedalada Pelada na rua Augusta, bem na frente de um carro de polícia, vai ficar na memória de quem viu.

foto: Santiago Luz

A coexistência necessária para a sobrevivência de uma sociedade e a tolerância exigida em uma cidade cosmopolita, por alguns instantes, se tornaram reais naquela noite de sábado. Sem dúvida, a Pedalada Pelada 2011 trouxe a linha do horizonte um pouco mais para perto.

Leia também:

WNRB 2011: ser, ter fazer – As bicicletas

Pedalada Pelada do jeitinho que a gente gosta – FelizCidade Feliz

O sucesso da quarta edição do WNBR em SP – Renata Falzoni

Mais de 200 ciclistas participam da Pedalada Pelada em SP – Folha.com

Veja também os vídeos do @opalmas e do JP Amaral

Ou visite o clipping da Pedalada Pelada 2011 no wiki do World Naked Bike Ride

Manifestações e arte contra a barbárie

arte: Gabriel Almeida / POA 2502

Nesta quarta-feira de cinzas, a partir das 19h, acontece em São Paulo o lançamento da revista digital POA 2502, que reúne trabalhos de 30 artistas sobre o atropelamento de ciclistas em Porto Alegre.

A publicação, que foi realizada inteiramente com softwares livres, pode ser baixada neste link.

O lançamento, seguido de bate-papo, acontece na Praça do Ciclista (av. Paulista X Consolação).

Na semana que antecedeu o carnaval, dezenas de manifestações de solidariedadeaos ciclistas de Porto Alegre reuniram milhares de ciclistas ao redor do planeta.

O blog Vá de Bike coletou alguns relatos nesta postagem. Veja também o clipping de notícias sobre o caso neste link.

Ciclistas de São Paulo iniciam série de manifestações em solidariedade à POA

foto: cc Gonzalo Cuéllar

A noite chuvosa de ontem em São Paulo não impediu que mais de cem ciclistas se encontrassem na avenida Paulista para prestar solidariedade aos colegas de Porto Alegre, vítimas de um brutal atropelamento na última sexta-feira (25).

A mobilização em São Paulo foi a primeira de uma série de atos que irão acontecer em várias cidades do país e do mundo nos próximos dias (veja o calendário ao final do texto).

Enquanto as novas pistas da Marginal Tietê ficavam debaixo d’água e os quilômetros de congestionamento se acumulavam a cada esquina da capital, os ciclistas pediam respeito nas ruas e o fim da impunidade nos crimes de trânsito.

A manifestação começou com um “die-in” em frente à Praça do Ciclista. O ato, que consiste em deitar-se no chão para denunciar algum tipo de violência, durou pouco mais de um minuto.

Em seguida, sob aplausos e chuva, o grupo começou a caminhar no sentido Paraíso da avenida, entoando frases como “não foi acidente” ou “mais amor, menos motor”.

Durante todo o percurso, as bicicletas foram empurradas em sinal de protesto e a caminhada seguiu pelas duas faixas da esquerda da avenida (a Bicicletada de São Paulo costuma deixar livres as faixas e corredores de ônibus).

A caminhada, que durou pouco mais de uma hora, seguiu até a av. Brigadeiro Luís Antônio, retornando até a Praça do Ciclista em seguida. Centenas de panfletos foram distribuídos aos motoristas e pedestres, chamando a atenção para o caso de Porto Alegre e para o direito do ciclista de utilizar as ruas com segurança.

Repercussão
O atropelamento em Porto Alegre ganhou repercussão internacional. Sites e veículos de notícia em países como Portugal, EUA, Holanda, Bélgica, Reino Unido, Argentina, Chile, Espanha relataram o acontecimento, classificando-o como “barbárie”. Redes de TV como CBS, Fox News e BBC também destacaram o acontecimento.

No Brasil, a notícia do atropelamento em Porto Alegre ganhou expressão nacional ainda no sábado, com reportagens nos principais telejornais. Na segunda-feira, a tag #naofoiacidente chegou ao primeiro lugar nos “trending topics” do Twitter brasileiro.

Autoridades, políticos e até celebridades como o ex-jogador Ronaldo se mostraram indignados com o acontecimento.

Na segunda-feira, os promotores Eugênio Amorim e Lúcia Helena Callegari, do Ministério Público gaúcho, pediram a prisão preventiva do motorista. O MP afirma tratar-se de um crime doloso (com intenção de matar) e duplamente qualificado, por ter sido cometido por motivo fútil e por um meio que impossibilitou defesa das vítimas.

Calendário
Hoje, terça-feira (01/03), os ciclistas de Porto Alegre se reúnem no Largo Zumbi dos Palmares para uma bicicletada, a partir das 18h30.

Em Belo Horizonte, o Rolê Urbano das Terças começa às 20h, na Praça da Liberdade, e será dedicado aos ciclistas gaúchos.

A Massa Crítica de Buenos Aires (Argentina) também sai às ruas hoje. A partir das 18h30, os ciclistas se encontram no Obelisco e pedalam até a embaixada brasileira.

Na quarta-feira (02), Rio de Janeiro e Curitiba promovem bicicletadas de solidariedade. No Rio, o encontro acontece às 18h, na Cinelândia (em frente ao Odeon). Em Curitiba, também às 18h, a Bicicletada se encontra no pátio da reitoria da UFPR.

Também na quarta-feira, ciclistas de Bogotá (Colômbia) se encontram na plazoleta K15 calle 85. Em Natal (RN), a manifestação acontece a partir das 20h, em frente ao IFRN.

Na quinta-feira, Pelotas, Brasília, Florianópolis, Goiânia, Niterói e Recife. Realizam atos semelhantes.

O blog Vá de Bike fez uma postagem bem organizada com o calendário de mobilizações. Veja mais detalhes por lá.

Relatos, fotos e vídeos da manifestação em SP:
relato no Vá de Bike
relato no Eu Vou de Bike
matéria no Bom Dia Brasil (Globo)
fotos Gonzalo Cuéllar
fotos Eduardo Dias de Andrade
fotos everton137
fotos luddista
vídeo spamhaterbr

clipping de notícias sobre o caso

Por Thiago Benicchio

Não foi acidente

arte: tncbaggins

Que nome você daria à atitude de alguém que empunha uma metralhadora e dispara uma rajada de balas contra mais de uma centena de pessoas?

Até mesmo no Arizona, estado norte-americano que permite aos seus cidadãos o porte de armas inclusive em locais públicos, tal atitude seria considerada uma tentativa de homicídio. O autor dos disparos seria preso, mesmo que ninguém tivesse morrido.

Na última sexta-feira (25), em Porto Alegre (RS), um motorista apontou seu carro, acelerou e disparou intencionalmente contra mais de uma centena de pessoas que pedalavam na rua José do Patrocínio. Mais de 20 de ciclistas ficaram feridos.

Até o momento, as autoridades gaúchas consideram que o motorista do Golf preto é “suspeito” de um “acidente de trânsito” que resultou em “lesão corporal”.

Talvez a visão das autoridades ajude a dar algumas pistas importantes sobre a (aparentemente) inexplicável atitude do motorista.

Segundo o Mapa da Violência, estudo divulgado pelo Ministério da Justiça no começo do ano, os “acidentes” de trânsito matam em escala semelhante aos homicídios por armas de fogo.

Cerca de 40 mil pessoas perdem a vida por ano no trânsito brasileiro. No Estado de São Paulo, colisões e atropelamentos são as maiores responsáveis pela morte de jovens.

Mesmo assim, continuamos a chamar esses casos de “acidentes”, como se fossem fatalidades, coisas que acontecem por razões inexplicáveis ou misteriosas.

No trânsito, os números do que consideramos fruto do acaso são comparáveis aos de uma guerra civil.

As ideias e conceitos que orientaram nossas cidades na tentativa de garantir o fluxo infinito de automóveis estão à beira do colapso e se mostraram fracassadas, inclusive em seu objetivo principal de atender quem utiliza automóveis.

Boa parte do tempo desperdiçado por um motorista dentro de um carro nas ruas de uma cidade média ou grande do Brasil é consequência da presença de outros carros nas ruas.

Os ciclistas que foram atingidos na rua José do Patrocínio participavam de uma mobilização internacional, chamada de Massa Crítica ou Bicicletada.

Nascida em 1992 na cidade de São Francisco (EUA), a Massa Crítica não é um movimento tradicional: não tem organizadores, regimentos ou plataforma e consiste essencialmente em um encontro para pedalar em grupo que acontece durante algumas horas da última sexta-feira de cada mês.

Submetidos ao cotidiano de convivência com motoristas agressivos, máquinas perigosas e ambientes hostis, uma vez por mês a massa de ciclistas subverte o caótico paradigma da imobilidade urbana em várias cidades do mundo.

Motoristas impacientes nem sempre ficam contentes ao perceber que terão que esperar alguns minutos ou andar em velocidades baixas durante o “congestionamento de bicicletas”. Mesmo assim, são muito raras as vezes em que esse desconforto resulta em algum tipo de agressão.

Estar preso no trânsito por alguns minutos de vez em quando faz parte da vida de quem escolhe andar de carro. Seja por conta de uma manifestação, passeio, cortejo fúnebre, chuva ou, quase sempre, pelo excesso de carros nas ruas, dirigir na cidade é sinônimo de paciência.

Muitas partes do mundo já entenderam que é necessário melhorar todas as formas de transporte urbano mais inteligentes que o automóvel e redistribuir o espaço urbano.

Não é preciso eliminar os carros das cidades, mas é necessário que pedestres, ciclistas, passageiros de ônibus, trens e metrôs sejam respeitados e valorizados nas ruas, recebendo também a maior parte do investimento e da atenção dos órgãos públicos.

O motorista que avançou contra a Bicicletada de Porto Alegre não precisaria saber nem concordar com as ideias acima.

Ele poderia ficar extremamente bravo com o grupo de ciclistas que ocupava a rua à sua frente, buzinar e até chamar a polícia.

Mas é inadmissível que tenha agido com tamanha brutalidade. O atropelamento durante a bicicletada de Porto Alegre não foi um acidente.

arte: cabelo

Mobilizações de ciclistas devem acontecer em diversas cidades do Brasil e do mundo nos próximos dias.

O blog da massa crítica de São Francisco propõe dedicar o próximo encontro, no dia 25 de março, aos gaúchos.

Na capital paulista, uma bicicletada em solidariedade aos ciclistas gaúchos acontece na segunda-feira (28), a partir das 18h, na Praça do Ciclista (mais informações aqui ou aqui)

Na terça, a partir das 18h30, a massa crítica de Porto Alegre se encontra no Largo Zumbi dos Palmares.

(Atualização em 28/11 – 18h05): No Rio de Janeiro, a Bicicletada em solidariedade aos ciclistas de POA acontecerá na quarta-feira (02/02), às 18h, com saída da Cinelândia (em frente ao Cine Odeon).

Em Curitiba, também na quarta-feira, a partir das 18h, com encontro no Pátio da Reitoria da UFPR.

Visite o blog da massa crítica de Porto Alegre, confira aqui um clipping de notícias sobre o assunto ou acompanhe a tag #naofoiacidente no twitter.

Por Thiago Benicchio


Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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