Tempo de mudanças

Sábado à tarde, Praça do Ciclista, esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Da cobertura de um prédio, moradores jogam balões coloridos e saúdam a manifestação. As pessoas, que caminham com cartazes, fantasias e flores em um protesto pacífico, vibram. A Marcha da Liberdade avança.

Policiais, que dias antes haviam reprimido com violência um protesto pela legalização da maconha (veja os vídeos do jornal Folha de S. Paulo e da revista Trip), desta vez apenas observam, formando um cordão protegendo a massa. Nem os gritos de “ei, polícia, liberdade é uma delícia”, tiram a tropa do sério.  O afastamento de dois oficiais, cuja responsabilidade pelo excesso de violência na manifestação anterior está sendo apurado em sindicância interna aberta pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, freia o ímpeto dos mais exaltados.

Pela cara, alguns PMs parecem incomodados com a multidão colorida; outros, sorriem e olham com simpatia as flores e o tom de brincadeira da passeata. Todos mantêm uma postura profissional, evitando confrontos desnecessários. Afinal, além do afastamento de oficiais, o próprio governador Geraldo Alckmin adotou um tom crítico ao falar sobre a repressão à última manifestação (ouça na CBN).

Controle
Espera. Assim como a manifestação anterior, a Marcha da Liberdade também foi proibida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O desembargador Paulo Antonio Rossi utilizou toda sua autoridade para determinar que o Estado de São Paulo coibisse a manifestação. A Polícia Militar chegou a anunciar que a passeata estava proibida. O que aconteceu então?

Quando a ordem institucional deixa de dialogar com a realidade, nenhum juiz tem autoridade para proibir uma manifestação por liberdade ou democracia. Foi o que aconteceu, é o que tem acontecido. Não adianta ordenar o silêncio ou a ausência. Não dá para coibir a indignação com bombas ou gás de pimenta. O magistrado pode até determinar que sua ordem seja cumprida a qualquer custo (leia-se com a promoção pública de uma carnificina) e a tal indignação pode até ficar escondida, contida por um tempo. Isso, para explodir de uma só vez em uma revolta violenta. Melhor assim, manifestações pacíficas, protestos, greves (leia mais sobre a campanha salarial dos Metroviários de São Paulo) – instrumentos de diálogo institucional para mudanças. Prevaleceu o bom-senso do comando ou do governo de não tentar forçar o fim da manifestação com botinadas.

Pior para o desembargador.

Liberdade
É tempo de mudanças e quem não conseguir visualizar e entender isso vai ficar igual o citado magistrado, dando ordens ao vento. Os protestos recentes não são orquestrados ou partidários; não são parte de um movimento político bem organizado, com líderes e hierarquia. Não, são manifestações públicas quase espontâneas, impulsionadas pela internet e pela facilidade que a comunicação em rede permite para a troca de informações.

Foi assim que aconteceu o churrasco-protesto em prol de uma estação de Metrô em Higienópolis, parte da construção de uma rota de ligação importante com um pedaço da Zona Norte até agora mal conectado com o Centro de São Paulo. Foi assim que começaram os protestos recentes que derrubaram ditaduras no Oriente Médio e no norte da África. Foi assim que ganharam força as manifestações de agora na Espanha e em Portugal.

A política está mudando. E não é uma leitura só deste escriba atrapalhado, que talvez escreva melhor sobre mobilidade urbana do que sobre protestos. Olha o que o Clóvis Rossi andou escrevendo sobre o tema.

Informação e poder
São mudanças recentes, ainda não muito claras ou definidas. Ao mesmo tempo em que as manifestações individuais ou coletivas influenciam cada vez mais a política, a maneira como a troca de informações se dá na sociedade também muda rapidamente. Começam a surgir redes em que os integrantes são mais do que telespectadores ou leitores passivos. Em vez de apenas receber informações, tal público também influencia. Republica, comenta, questiona, participa. Acaba ditando os assuntos mais importantes do dia – e que ninguém se iluda, o interesse pelo tipo de batom da celebridade x ou y pode até provocar explosões de audiência, mas o que consolida e fortalece a audiência um portal é a credibilidade, independência e seriedade com que temas relevantes são tratados.

O público participa e troca informações. Foi assim que as notícias sobre a morte de camponeses no Pará ou em Rondônia espalhou-se pelo resto do país, a ponto de provocar críticas até por parte de ministros. Foi assim que ganhou força a mobilização contra a flexibilização do Código Florestal – e a indignação com o posicionamento de deputados pró-desmatamento liderados pela bancada ruralista fez a audiência de ((o)) eco disparar em função da boa cobertura crítica que o portal realizou  sobre o assunto.

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4 Responses to “Tempo de mudanças”


  1. 1 Gisele Brito 30/05/2011 às 4:22 pm

    Alguém já disse que toda ação é uma ação política. Eu não sei. Parece que existe alguma literatura que trata da diferença do engajamento e da adesão. Eu não sei também. O que eu acredito é que só a praça é do povo e a cidade e seu espaço público é o veneno e o antídoto das nossas desigualdades.

    Só a praça é capaz de reunir os diferentes, os opostos, os contrários e os iguais. Como um gari faz bombar uma hashtag ? Como um analfabeto faz bombar uma hashtag? Como uma professora, um operador de cnc, uma cozinheira trancafiados em seus locais de trabalho offline fazem bombar suas hashtags?

    É encantador ver que o movimento não para nunca. Mas pra mim é triste que o espaço público seja menos importante do que a esfera pública que a adesão seja mais motivada que o engajamento.

    As redes sociais não inventaram a indignação. As pessoas sempre marcharam. A base sempre se movimenta. Por isso eu sou meio cética com essa onda de revolução tuitada. Acho que as redes sociais abrem outro campo na esfera pública para uma parcela da sociedade que já era dona das melhores posições, que já tinha sua voz amplificada pelas velhas mídias. Acredito que isso fica muito claro quando vemos o centro das reivindicações que tem movido as passeadas. Nenhuma delas é para saúde, educação, em apoio ao movimento por melhores condições de transporte no M’ boi Mirim, pelas pessoas em situação de rua assassinadas brutalmente ou pelos despejos na ZL.

  2. 3 Gisele Brito 30/05/2011 às 7:02 pm

    Mais um pra eu discordar, Santini.

  3. 4 João Gulherme Cunha 31/05/2011 às 7:09 pm

    O buraco no muro http://t.co/UXnYiIQ via @youtube, pode ser um instrumento, por que não?


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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