O tempo em minha bicicleta

Durante a viagem que fiz em março para o Irã conheci o Takeshi Tomita, um médico cirurgião japonês que, entre kebabs e muito dugh (bebida típica sem álcool de iogurte salgado), se tornou um grande amigo. Ele estava fazendo um giro pela região, mas teve que interromper sua viagem e voltar para o Japão e ajudar no atendimento das vítimas do desastre nuclear. Continuamos em contato pela internet e outro dia ele me escreveu entusiasmado, contando que havia ido para o trabalho de bicicleta. Ele escreveu a respeito para o Outras Vias:

“Conforme o tempo passa, conforme fui ficando mais velho, troquei a bicicleta como meu principal meio de transporte por um carro. Hoje, trabalho em Tóquio, uma das cidades ‘mais ocupadas e rápidas’ do mundo, e sou médico, uma das profissões ‘mais corridas’ de todas. Minha filosofia de vida tem sido ‘tempo é dinheiro’. Isso quer dizer que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então não devemos desperdiça-lo, como vocês sabem.

Conheci um brasileiro chamado Daniel no Irã, quando eu fazia uma viagem pela Índia, Paquistão, Irã e Turquia. Nós viajamos juntos no Irã e na Turquia por mais de uma semana e viramos bons amigos, apesar de eu não ter certeza se ele me considera um bom amigo.

De qualquer forma, ele é um rapaz muito legal e ama tanto bicicletas que até acho que ele as prefere a uma garota. E se tem algo que me deixou cansado durante a viagem é que ele sempre me dizia para parar de dirigir um carro e ir para o trabalho de bicicleta. Durante a viagem, ouvi demais essa sugestão.

Alguns dias passaram, eu voltei para o Japão e para o meu trabalho de médico novamente. Então, minha vida voltou a ser comum, ocupada e rápida.

Até que um dia em Tóquio eu acordei uma hora mais cedo que o comum. Não sei por que fiz isso, mas fui pedalando até o hospital. No caminho, descobri uma escola com crianças falando, sorrindo e dando risadas com prazer. Elas pareciam muito felizes e a felicidade e paz na cara delas me fizeram feliz também. E eu passei também um velho e lindo templo japonês.

Descobri que o caminho é silencioso e com bastante verde, e que o ar é limpo. Mesmo sendo o mesmo caminho que eu faço de carro, isso tudo foi novidade para mim.

No caminho para o hospital de bicicleta eu me senti maravilhoso e feliz. Consegui tempo para pensar em muitas coisas também.

Hoje minha filosofia ainda é ‘tempo é dinheiro’. Mas isso significa agora que o tempo é tão importante quanto dinheiro, então devo aproveitá-lo devagar, como quando pedalo minha bicicleta.”

Takeshi Tomita
Médico cirurgião cardiáco
Tóquio – Japão

Uma foto do velho e lindo templo japonês:

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10 Responses to “O tempo em minha bicicleta”


  1. 1 Gisele Brito 26/05/2011 às 1:22 pm

    Que lindo Santini, sua chatice se espalhando pelo mundo!

  2. 2 calenga 26/05/2011 às 1:40 pm

    Sentimentos da Terra do Sol Nascente, compartilhados na América Mestiça. Parabéns, assim renasce mais um ciclista na Terra.

  3. 4 matiasmm 27/05/2011 às 10:49 am

    que legal, fiquei feliz!

  4. 5 Claudete Radünz 27/05/2011 às 2:59 pm

    Olá, Daniel! O relato de Takeshi me deixou feliz e creio que para ti, o grande estimulador, a sensação deve ser ainda melhor.
    Meu trabalho fica longe de casa e, acredite, eu não sei andar de bicicleta!!! Tenho até uma certa inveja de quem passa por mim no comando de uma bike. Mas um dia aprenderei, e então também descreverei minhas peripécias pelas ruas. Teu blog é super incentivador! Parabéns!

    • 6 Paula 27/05/2011 às 6:59 pm

      Oi, Claudete!
      Eu aprendi a andar de bicicleta há 2 anos e ainda morro de medo de pedalar fora de parques e condomínios fechados. Mas um dia tbm chego lá! rs

    • 7 Daniel Santini 31/05/2011 às 8:03 pm

      Gentileza, Claudete. As palavras do Takeshi foram tocantes, fiquei muito feliz sim. E te agradeço também.
      Sobre começar a pedalar, tem os bike anjos (no próximo post eu falo um pouquinho sobre eles) que ajudam quem quer aprender e as Pedalinas, que costumam dar dicas bem legais para mulheres que pedalam. Se eu puder ajudar, é só teclar.

      = )

      santini

  5. 8 Carolina Pinheiro 30/05/2011 às 9:12 pm

    Nossa Daniel, que coisa mais linda. Um relato de vida, experimento e reflexão muito belo e instigante. Sabe, o Márcio me falou que vocês passaram um tempo conversando com um motorista e tentando convencê-lo a trocar o carro pela bicicleta. Agora entendo o quão importante é disseminar esta ideia. Admiro muito vocês pela entrega e amor verdadeiro pela bike e pelo que ela representa. Saiba que estes impulsos e gestos servem de alimento para mim também. Obrigada. Vou aproveitar o embalo para deixar aqui um relato de vida, experimento e reflexão que escrevi para as meninas Pedalinas hoje de manhã:

    ***

    Pedalando na rua e Traçando caminhos

    Depoimento
    Carolina Pinheiro, 34 anos, jornalista

    Comecei a utilizar a bicicleta como meio de transporte urbano em março de 2011, em Florianópolis, cidade onde morava. Da Ilha, eu iniciei uma pesquisa intensa sobre o movimento ciclístico de São Paulo, já que estava em processo de mudança para a capital paulista. Foi quando descobri o coletivo e entrei em contato com as meninas, que me receberam de braços abertos. No sábado passado, dia 28 de maio, participei, pela primeira vez, de uma oficina promovida pelo grupo. Com o tema Pedalando na rua e Traçando caminhos, as ciclistas mais experientes apresentaram para cerca de 12 mulheres, entre veteranas e iniciantes, dicas sobre postura no trânsito, direção defensiva, mapeamento de ruas e avenidas alternativas para trajeto, opções intermodais e uso de ferramentas como Google Maps e Bikely para traçar rotas pela cidade. Penso que a oficina foi um espaço de troca de informações, aprendizado e integração muito útil e fundamental para todas as participantes. Por meio de encontros como o de sábado, eu irei adquirir a segurança e os conhecimentos necessários para enfrentar sozinha o trânsito de São Paulo. A meta é vencer, a cada dia, uma barreira para conquistar o meu espaço como cidadã e usuária da bicicleta na cidade. Não será uma tarefa fácil, o desafio é grande, os perigos são reais, os motoristas desrespeitosos, mas esta foi uma escolha que fiz para a minha vida – uma das mais verdadeiras e belas – e não acho justo abrir mão do que sou e quero para mim e para o mundo por conta da imposição de uma cultura de mercado motorizada. As Pedalinas são peça decisiva na construção deste sonho. Obrigada meninas. Vamos em frente. Até a próxima.

  6. 9 Daniel Santini 31/05/2011 às 8:04 pm

    O Takeshi se tornou um grande amigo no fim, Lê. Um brinde de dugh! =)


  1. 1 Olhar não é Enxergar « a macaca Trackback em 31/05/2011 às 5:57 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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