Fotos de uma flâneur em Curitiba

Flanar. Caminhar sem objetivo, sentindo a cidade, tornar-se a cidade. Cada vez mais deixamos de viver o viajar e a viagem passou a ser apenas uma obrigação chata a ser completada da maneira mais rápida possível. Nesta realidade neurótica e apressada, vale lembrar de como o andar sem rumo já foi apreciado. João do Rio, no começo do século passado, escreveu considerações ainda bastante atuais sobre o caminhar nas ruas do Rio de Janeiro.

“Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício? (…) Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite (…)  É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas (…) O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.”

Vale para pensar sobre o ritmo que vivemos.

O texto é um trecho do livro “A alma encantadora das ruas ruas”, disponível para download no site Domínio Público, conforme a indicação deste blog aqui.

Curitiba
A Leniza Wallbach é uma amiga querida que conheci no encontro das bicicletadas de São Paulo e Curitiba, no ano passado. Além de comentários gentis em diversos textos deste blog, ela é uma fornecedora constante de ideias sobre mobilidade e notícias animadoras. Desta vez, enviou por e-mail imagens que captou flanando por Curitiba, depois de ler este texto aqui sobre caminhar sem rumo. O ensaio completo está disponível em um álbum que ela criou no Facebook. Seguem algumas das melhores fotos deste caminhar sem objetivo, mas cheio de sensibilidade.

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2 Responses to “Fotos de uma flâneur em Curitiba”


  1. 1 Mauro de Faria Sampaio (Brasília DF) 18/05/2011 às 2:05 pm

    Olha! Sou flâneur e nem sabia! Não conhecia o conceito. Mas o pratico há tempos. Abraço

  2. 2 Jaime 18/05/2011 às 5:15 pm

    Vou já pegar minha câmera e dar um rolê pela cidade, aproveitando a linda luz do fim da tarde. Valeu pelo toque!
    Abraços cordiais!!!!
    J


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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