Ciclos de esperança

Na última quarta-feira, 11, aconteceu mais uma reunião geral da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade). Coordenadores das diferentes áreas do grupo apresentaram resultados e discutiram perspectivas, enquanto os demais presentes colaboravam com sugestões, ideias e novos sonhos. São projetos que gradualmente avançam e começam a influenciar políticas públicas e a forma como quem pedala é visto na cidade. Tem tanto a ser feito e ajustado que os responsáveis pelos principais projetos toparam sacrificar o domingo em um mutirão de trabalho.

Há desde ações localizadas e eventos específicos até articulações e pressão envolvendo políticos e empresas para o incentivo do uso da bicicleta como transporte. Representantes da Ciclocidade têm feito reuniões com autoridades de trânsito e representantes do poder público e influenciado na tomada de consciência em relação a quem se locomove sem carro na cidade, seja por opção, seja por falta de. Não é à toa que foi criada a Frente Parlamentar em Defesa da Mobilidade Humana na Câmara dos Vereadores. Não é à toa que a Prefeitura lançou nesta semana uma campanha de defesa do pedestre.

São mudanças de paradigmas na maneira como as políticas de mobilidade sempre foram pensadas em São Paulo. Trata-se de um avanço que, se não ficar só no discurso, pode alterar completamente a cidade. Menos avenidas, túneis e obras megalomaníacas e mais investimento em transporte público e infraestrutura para pedestres e ciclistas. As notícias sobre as visões do secretário de Transportes Marcelo Branco são boas e dão esperança de que podemos avançar.

Oficialização de ciclorotas sinalizadas na cidade, programas conscientização de motoristas de ônibus e táxi sobre a importância de respeitar quem é menor no trânsito, medidas para aumentar o respeito aos pedestres são alguns dos sonhos mais próximos. Este blog espera, em breve, trazer novidades.

Utopia
É claro que é difícil acreditar antes de ver projetos saírem do papel. Sem prazo, muitas promessas não passam de promessas; e quem vive em São Paulo sabe quantas promessas de construção de ciclovias foram feitas até agora. É difícil, ainda mais quando agora se fala em um planejamento que não se limita a criação de pistas segregadas, mas sim, além de ciclovias (que, sim, são necessárias em alguns pontos), da criação de uma cultura de convivência e compartilhamento das vias, com redução de velocidade para os carros e sinalização. Soa como um sonho irreal, só que deixar de acreditar que, sim, a mudança é possível, é arriscado também.

Em 2008, em um congresso internacional de jornalismo promovido pela Fundação Avina, o professor Javier Darío Restrepo deu uma aula sobre ética (leia o discurso na íntegra em espanhol), sobre como fazer jornalismo com ética. E seu principal argumento é de que é necessário ter esperança, acreditar. Quem deixa de sonhar com a utopia, quem deixa de sonhar em uma cidade melhor, em menos poluição, em ruas em que as crianças podem brincar tranquilas, corre o risco de se conformar. E, na lógica do não dá para mudar, reina o individualismo e o cada um por si. Não dá para abrir mão da crítica e de fiscalizar o poder público, mas a falta de esperança anda de mãos dadas com cinismo.

Imaginação
No seu livro Contra o Fanatismo, o escritor israelense Amós Oz fala sobre a imaginação como arma contra o fanatismo, para a desconstrução de preconceitos. Imaginar o outro, ter a capacidade de visualizar o humano, de assumir seu lugar, escrever, ler, falar e ouvir são armas poderosas. Dialogar pode dar resultados mais efetivos contra o fundamentalismo do que atacar com balas.

No livro História Sem Fim, aquele que virou um filme que, quem é mais velho certamente vai se lembrar, o autor Michael Ende usa uma série de alegorias para falar sobre esperança, imaginação e medo. O herói tem que salvar o reino de Fantasia e para isso precisa imaginar, sonhar, desejar. Alguns personagens de Fantasia, desesperados em meio ao avanço da escuridão, se matam se jogando no Nada, que não para de crescer. E a história toda gira em torno da briga entre Fantasia e o Nada. O livro é maravilhoso.

Conseguir imaginar uma cidade diferente é o primeiro passo para as mudanças efetivas acontecerem. E fazer isso em conjunto é ainda mais gostoso. Ver pessoas que se importam, que acreditam e trabalham por uma cidade melhor renova a esperança. Sim, dá para tornar São Paulo uma cidade agradável, viva e amistosa para pessoas de novo. Viva a Ciclocidade!

Veja palestra de Renata Falzoni no TedX na Vila Madalena

As fotos desta página são de um domingo em um parque de São Paulo. Mas poderiam ser de dias da semana na cidade.

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3 Responses to “Ciclos de esperança”


  1. 2 Márcio Campos 14/05/2011 às 12:07 am

    Ah, mas vem ao encontro de meu modo de ver a vida, o pulso só bate mais forte quando a gente fecha os olhos e sonha com o que deseja. E ao abrí-los, tudo já está mais possível, e somos tomados de uma emoção que dá vontade de começar imediatamente. É um pé no chão, mas outro no céu profundo. Quem vive de sonhar com a mudança não se abate, porque se alimenta na imaginação.

    Texto belo e sensível, Santini, que traz à razão do dia concreto o que tem sua gênese numa deliciosa “noite de sono”.

    Grande abraço

    M. Campos

  2. 3 Eduardo Pegurier 14/05/2011 às 11:27 am

    Oi Daniel, ótimo texto. É sempre bom lembrar às pessoas que elas tem mais poder de mudar as coisas do que pensam. Mesmo um indivíduo sozinho pode provocar mudanças. Esse blog é um exemplo.

    As vezes, as coisas só ficam iguais porque ninguém pensa que elas podem ser melhoradas.

    Abraços, Pegurier


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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