Convivência nas ruas, arma contra preconceito

Mulheres observam grafite em pedaço remanescente do Muro de Berlim, na Alemanha

Entrevistei na semana retrasada a professora Zilda Márcia Grícoli Iokoi, historiadora envolvida com o Laboratório de Estudos da Intolerância (LEI) da Universidade de São Paulo (USP), uma pesquisadora acadêmica de destaque no combate a crimes raciais e em estudos sobre ódios. Foi bom falar com ela e aprofundar algumas ideias; a professora Zilda é de uma linha que tenta entender relações e foge de imagens simples. Não, o nazismo não foi autoria de apenas um alemão com bigodinho ridículo, mas sim uma construção coletiva complexa e de bases sólidas da qual ainda não estamos totalmente livres. Intolerância não é algo simples, e, por isso, não é simples de ser entendida e combatida.

Conversávamos sobre o agravamento do preconceito contra os bolivianos que migraram para São Paulo, tema de reportagem que sai no próximo domingo no jornal Folha Universal, para onde escrevo também, quando ela começou a falar sobre um processo de isolamento social em curso em São Paulo, que envolve também o trânsito e a maneira como nos deslocamos.

“As pessoas vivem em guetos. Cada um no seu bloco residencial, no seu condomínio fechado, em escolas privadas, em automóveis sozinhos. As pessoas não vivem mais em ambientes coletivos, nunca. Tenho alunos na USP que nunca viram o Centro da cidade”, Zilda Márcia Grícoli Iokoi.

O problema é que, me explicou gentilmente a professora especialista em intolerância, quando você passa a conviver somente com iguais, com pessoas que tem a mesma renda e o mesmo conjunto de valores, deixa de haver o diálogo com o diferente. Este contato é o que ajuda a perceber o outro, a entender, aceitar e respeitar. Sem tal conexão, surge espaço para a criação e fortalecimento de estereótipos. Ideias toscas, rasas, generalizantes e perigosas; como a de que os bolivianos são “sujos” ou que moradores de rua são “vagabundos que não gostam de trabalhar”. Ou que quem protesta nas ruas e não se conforma com absurdos rotineiros é “desocupado e baderneiro”. Ideias que servem de base para o preconceito e para ações de ódio.

“As pessoas se isolaram por conta do medo da violência e não perceberam que esse isolamento se transformou em intolerância. Não convivem com nada e nem com ninguém. Não há diálogo, não há discussão. Surge o preconceito”, Zilda Márcia Grícoli Iokoi.

Intolerância e medo
Impossível não pensar nas considerações da professora Zilda ao ler no UOL que “após pressão de moradores, empresários e comerciantes de Higienópolis, bairro de alto padrão no centro da capital, o governo de São Paulo desistiu de uma estação do Metrô na avenida Angélica, a principal do bairro”. E que entre as alegações da Associação Defenda Higienópolis estava de que a criação de uma nova estação aumentaria o “número de ocorrências indesejáveis” e faria da área “um camelódromo”. Foram 3.500 assinaturas para derrubar o projeto de ligação da Brasilândia, na Zona Norte, com a área central.

O Felipe Gil, um bom amigo que também é jornalista e costuma tomar um cuidado bastante apropriado com números, lembra que, por dia, a estação Vila das Belezas*, a menos movimentada de toda a rede, recebe 6 mil passageiros. E aí?

Leia também:
– São Paulo, segregação urbana e desigualdade, texto acadêmico de Flávio Villaça no Dossiê São Paulo, Hoje, da revista de Estudos Avançados
– Droga de elite, análise de Fernando Canzian na Folha

* atualizado às 18h21; informei incorretamente que era a estação Paraíso a menos movimentada da rede. É a Vila das Belezas.

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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