Arte e barbárie

Durante a Ditadura Militar no Chile, soldados entraram na casa do poeta Pablo Neruda e ordenaram que ele entregasse sua arma. O vate não hesitou. Abriu uma gaveta e sacou a esferográfica verde que usava para arriscar seus versos. Diante da cara de dúvida do militar, explicou didático algo assim: “Não se arrisque, com ela eu posso derrubar governos”.

A arte é arma poderosa de transformação. Este é um blog sobre mobilidade urbana, mas, também, como não poderia deixar de ser, sobre transformação de cidades. A maneira como as pessoas se deslocam afeta e determina o formato do espaço em que vivemos. Arte perturba, faz pensar.

No último texto, mencionei que as bicicletadas têm sido marcadamente espaço de criatividade e alegria. Olha a poesia desta última, a do chapéu, nos retratos feitos com sensibilidade pelo Ian Thomaz. Ele não é o único fotógrafo sempre presente na Massa Crítica. O Gonzalo Cuéllar é outro com olhar aguçado que sempre clica as manifestações.

Basnky
Ainda sobre a importância da arte na reconquista do espaço público, do amor próprio, do gostar, olha o Manifesto* que o Bansky publicou tem alguns bons anos, cujo original está em arquivo aqui e a versão traduzida eu encontrei aqui:

“Não consigo dar nenhuma descrição adequada do campo de horror no qual os meus homens e eu tínhamos de passar o próximo mês das nossas vidas. Não passava de um local estéril inóspito, tão estéril como um galinheiro. Corpos jaziam por todo o lado, alguns em montes enormes, algumas vezes jaziam sozinhos ou em pares onde tinham caído. Demorou algum tempo a habituar a ver homens, mulheres e crianças a desfalecer enquanto passavam por eles e resistir ao impulso de ir ao seu auxílio. Cada pessoa tinha de se habituar à ideia que o indivíduo não contava. Todos sabíamos que estavam a morrer quinhentas pessoas por dia e que outras quinhentas pessoas por dia iam morrer durante semanas até que algo que nós tivéssemos feito surtisse o mínimo efeito. Era, no entanto, muito difícil ver uma criança a asfixiar com difteria quando sabíamos que uma traqueotomia e alguns cuidados básicos chegariam para a salvar, víamos mulheres a afogarem-se no próprio vómito por estarem demasiado fracas para se voltarem, e homens a comer vermes enquanto agarravam um pedaço de pão unicamente porque eles tinham de comer vermes para sobreviver e naquele momento pouca diferença sentiam. Pilhas de corpos, nus e obscenos, com uma mulher fraca demais para estar de pé encostada a eles enquanto cozinhava o alimento que lhe tínhamos dado; homens e mulheres agachados por todo o lado aliviando-se da disenteria que lhes irritava as entranhas, uma mulher completamente nua lavava-se com sabão e com a água de um tanque onde os restos mortais de uma criança flutuavam.

Foi pouco tempo depois da Cruz Vermelha Britânica chegar, embora possa não haver ligação, que uma grande quantidade de batom chegou. Isto não era nada do que nós homens queríamos, estávamos a clamar por centenas e milhares de outras coisas e não sabíamos quem tinha pedido batom. Só queria descobrir quem foi que o fez, foi uma acção de génio, brilhantismo puro e inalterado. Creio que nada fez mais por estes prisioneiros que o batom. Mulheres jaziam nas camas sem lençóis ou camisa de noite mas com lábios escarlates, víamo-las a vaguear com nada mais que uma manta nos ombros, mas com lábios vermelho escarlate. Vi uma mulher morta na marquesa de autópsias que ainda agarrava o batom com as mãos. Finalmente alguém fez algo para fazer destas pessoas indivíduos de novo, eles eram alguém, não mais somente o número que estava tatuado no braço. Finalmente eles podiam ter algum interesse na sua aparência. Aquele batom começou a devolver-lhes a sua humanidade.

* Extraído do diário do tenente coronel Mervin Willett Gonin que estava entre os primeiros soldados britânicos a liberar Bergen-Belsen em 1945

Grafite em casa
Além de ideias sobre arte, este artigo reúne o trabalho de dois amigos queridos, o Marcelo Siqueira e o Valdinei Calvento (Cabelo), que passaram o sábado em casa pintando. Contratei os dois durante a Bicicletada e dei total liberdade para eles pintarem. O resultado são as imagens aqui reunidas.

Por último, se você está buscando arte e bicicletas, vale dar uma olhada também no trabalho do Adams.

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6 Responses to “Arte e barbárie”


  1. 1 Palmas 03/05/2011 às 12:47 pm

    Esse Cabelo e Siqueira são artista de boa alma. Aproveitem enquanto eles ainda cobram pouco, pois em breve serão muito famosos.
    Faltou só falar do xuxu e da batata que estavam uma “dilícia”.
    Abratz,
    Palmas

    • 2 Daniel Santini 03/05/2011 às 12:50 pm

      Palmas, ainda escrevo sobre culinária, cultivo de orgânicos e arte; e aí prometo destacar seus talentos e os da Aninha.

      Abração e valeu a visita no sábado!

      Santini

  2. 3 felizcidadefeliz 03/05/2011 às 12:53 pm

    Aiiii eu quero uma ciclistinha na parede da minha salaaa… e acho que do quarto também… e no quintal.. aff… na casa toda=)

    Humpf… queria estar lá com vocês… mas eu e JP decidimos comemorar aniversário de namoro a dois! hehehe

    Beijos e continua me convidando… que na próxima a gente vai=)
    Evelyn

  3. 4 marcelo siqueira 03/05/2011 às 4:51 pm

    Lindo Texto. Faz me pensar, para agir mais… futuramente.

  4. 5 priscila moreno 03/05/2011 às 6:08 pm

    vou voltar a usar batom.

  5. 6 Márcio Campos 03/05/2011 às 6:37 pm

    …essa sala já não tem paredes…nem teto tem mais.

    Márcio Campos


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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