Sobre Bicicletadas, rebeldia e causas

Há tempos o direito à manifestação nas grandes cidades vem sendo contestado. Em nome da ordem, qualquer tentativa de chamar atenção para os problemas cotidianos é condenada e, eventualmente, criminalizada e reprimida com violência. Ai de quem ousar interromper o sagrado trânsito da cidade com cartazes, narizes de palhaço, apitos e cantoria. Se não for para travar as ruas enfileirando carros, não pode; é caso de polícia, de mandar batalhão, tropa especial, de bater e prender.

A repressão é construída e reforçada por microfones moralistas e gritos pela manutenção da ordem, sempre a ordem. Uma lógica que ignora as falhas e limitações do sistema, que se faz cega para os vícios na política, no judiciário, para os interesses na manutenção de estruturas sociais pouco democráticas e injustas. Retirar a legitimidade de manifestações populares, classificar seus participantes de “rebeldes sem causa”, é um jeito de impedir ou pelo menos frear mudanças.

Tal discurso é violento. O Atropelador de Porto Alegre pode até não bater bem dos pinos, mas existe uma relação entre o que ele fez e a percepção de que quem participava da Massa Crítica naquele dia não tinha o direito de estar ali, de existir. É uma ideia construída com mensagens diárias, com a repetição à exaustão de expressões como “desocupados” ou “baderneiros”, os “sem causa”.

Bicicletadas
As Bicicletadas ou Massas Críticas são movimentos espontâneos, sem líderes ou chefes, manifestações coletivas de pessoas que querem mudanças, que não se conformam mais em viver em cidades entupidas de carros e fumaças. São pessoas dispostas a gastar tempo e energia em busca de tais transformações, e não desocupados. Gente disposta a brigar por isso.

Mesmo assim, os protestos têm sido pacíficos,  alegres e diversificados. Reúnem crianças, mulheres, gente de todas as cores e idades, gente tinindo de pedalar e gente fora de forma. Envolvem pessoas solidárias, que entendem que é preciso compartilhar as ruas – e lutam para que, em vez de apenas carros, outros modais também sejam valorizados pelas autoridades. É uma massa capaz de manifestações épicas, como a do último Dia Mundial Sem Carro.

Dá até para criticar o trancamento de ruas e avenidas – e tem gente que faz isso com elegância e criatividade, o que provoca mais reflexão do que ataques baseados em estereótipos. Vale dar uma espiada neste vídeo gringo gravado e editado por cara que ficou preso no trânsito dentro de um ônibus por mais de dez minutos devido à Massa Crítica. É uma crítica forte, que faz pensar, que provoca o questionamento interno, necessário para rever ou reafirmar direções.

E é para pensar mesmo. Muitos colegas não concordam que fechar o trânsito é uma boa estratégia para chamar atenção para os problemas de mobilidade da cidade. Mas quer crítica maior para a ineficácia do sistema de transportes do que travar o próprio trânsito com bicicletas? Que outra forma melhor de chamar a limitação de manter o trasnporte individual como principal sistema? De chamar a atenção para a falta de interação entre os diversos meios de transporte? Para a falta de diversidade? Para a Ditadura dos Carros, que reinam absolutos dominando recursos públicos e a atenção da mídia, mesmo sendo opção da minoria da população?

Hoje é dia de Bicicletada em São Paulo e em algumas das principais capitais do país. Mais aqui.

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2 Responses to “Sobre Bicicletadas, rebeldia e causas”


  1. 1 thu 04/05/2011 às 9:11 am

    Bom saber, que há movimentos que lideram os pensamentos de sustentabilidade, sou adepta da bicicleta e faço dela o meu meio de transporte. Massa Crítica.!


  1. 1 Arte e barbárie « Outras Vias Trackback em 03/05/2011 às 12:05 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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