Vísceras

O certo seria escrever sobre a primeira entrevista que o Ricardo Neis concedeu desde que acelerou mais de uma tonelada de metal contra um grupo de ciclistas que protestava por uma cidade mais humana, por menos acidentes de trânsito, poluição e violência. Seria comentar sobre a covardia, a falta de respeito à vida, a lógica que, mesmo bem orientado pelos seus advogados, ele deixa transparecer: de que o direito ao trânsito e à propriedade se sobrepõe ao direito à existência e à manifestação. O certo seria dissecar todo discurso dele, analisar cada pedacinho e escrever algumas palavras em solidariedade aos amigos de Porto Alegre. Falar sobre humanidade, esperança, utopia, cinismo.

Ou seria comemorar a possibilidade de um plano de Ciclorrotas sair do papel em São Paulo, as novas promessas e compromissos assumidos por autoridades, os sinais de fortalecimento da corrente dentro do governo que já entendeu que só ampliar avenidas e construir túneis não vai resolver os congestionamentos da cidade. Ainda que sabendo que promessas sem prazo muitas vezes não passam de promessas e que, como aponta a oposição, mesmo as com prazos não têm sido cumpridas, não dá para deixar de ficar contente com a mudança no discurso dos políticos. Vamos torcer para dar certo e tentar ajudar.

O certo seria arriscar algumas linhas sobre esses dois assuntos, mas não consegui; precisava dividir os últimos dias com vocês. São sensações que andaram crescendo e explodiram hoje, deixando entranhas expostas. Desculpem a sujeira.

.: Terça-feira
Água gelada contra a pele quente. Chove em São Paulo, um temporal. Encosto no posto de combustível para guardar a carteira e o celular em um saco plástico e espero. O tempo corre rápido, chega outro ciclista. Conversamos. A chuva não para, o tempo corre rápido. Ainda preciso passar no mercado, comprar peixe, deixar o peixe marinar. O tempo escorre. Desisto de me manter seco e entro na Avenida Sumaré. A água solta fumaça do corpo. Sinto cada gota. Dá vontade de gritar. Eu grito. Dá para sentir a corredeira com a roda, tanta água. Eu sigo por caminhos alternativos, busco um pedaço de calçada, desço uma ladeira pelo Beco do Batman, fujo dos carros. Sinto a corrente no meu corpo. Entendo a água.

.: Quinta-feira
O viaduto é um trecho solitário. Sempre tem um morador de rua dormindo, enrolado em um saco de lixo preto, disfarçado de saco de lixo. Lembro de “O Bicho”, do Manuel Bandeira, toda vez. Da rua, onde estão os carros, não dá para ver o homem. É um dia triste, sinto-me destroçado por dentro. De onde estou, protegido da avenida por uma murada, só tenho que tomar cuidado para desviar dos pés do homem. Não pelo homem, não pelo ar seco e a poluição que machucam meu olho, mas começo a chorar. Vem uma dor e de vez em quando é bom sentir tristeza, aceitar derrotas, sofrer. Pedalo sozinho, protegido da rua, sem precisar prestar atenção, sem precisar de nada. E choro de dar soluços, choro alto, choro sem vergonha. Liberdade.

.: Sexta-feira, madrugada
Desço do ônibus e já são 22h30, Guarujá, terra estranha, há mais de dez anos que não vejo o mar destas praias. Sigo em direção ao norte, aprendendo o caminho que estudei horas antes. Encontro a estrada, deserta. Estou sozinho. Pedalo atento, lanterna pendurada de um jeito precário, a luz vermelha presa ao alforge, estou visível e esperto. Espero ultrapassagens, finas, perigo. Sou ultrapassado por somente uns quatro ou cinco carros em mais de 40 km rumo a Bertioga. Em todas, dá tempo de sair para o acostamento, encostar com cuidado e esperar. De resto, a estrada é minha. Pedalo até não sentir mais a dor no joelho que andou latejando nos últimos dias. Pedalo até o suor secar no corpo, até começar a suar de novo, até não saber mais o que é suor e o que não é. Respiro jasmim, brinco com o que, acho, são borboletas noturnas, quase brancas. De repente, não sinto mais a bicicleta, não sinto minhas mãos, não sinto nada. E assim de repente não tem mais diferença entre meu corpo e a bicicleta.

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5 Responses to “Vísceras”


  1. 1 Tom Bike 19/04/2011 às 9:06 am

    O certo seria cortar os 3 primeiros parágrafos, está decretado: começa em Terça-Feira.

    Muuuito bom! 🙂

  2. 2 @Cesaurio 19/04/2011 às 2:30 pm

    Fez-me encher os ohos d’água! Catártico!

  3. 3 Neli 19/04/2011 às 2:56 pm

    Bateu no coração, bateu nas (rsrsrs) VÍSCERAS…
    Não sou ciclista. Sou pouco pedestre. Mas sou, acho.
    Deu para compartilhar momento, emoção, sensação.
    Compartilhar, mesmo no meio aparente vazio, a sintonia fina do sentir.

  4. 4 luwithdiamonds 11/06/2011 às 1:11 am

    Coloquei um link deste texto no meu blog. Gostei muito. Abraços.


  1. 1 Vísceras « Luwithdiamonds Trackback em 10/06/2011 às 7:32 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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