Transporte público no Irã

Tranquilo entender o mapa do metrô?

Subterrâneo de Teerã, 17h, atordoado ainda sem certeza de qual a direção certa a seguir, caminho seco em direção à porta do trem. São poucos segundos, o próximo, demorará a passar. Pressa. Confusão. Sigo em linha diagonal, sem conseguir ver o interior do vagão. É meu amigo, que viaja comigo, quem me salva no último instante, segurando pelo braço e me puxando em direção ao vagão certo. Chego a vislumbrar os olhares das mulheres assustados com a quase invasão do espaço reservado. O último vagão é só delas.

No Metrô, ainda há convivência pelo menos. Tirando os vagões exclusivos para mulheres, onde homem não entra, nos demais é possível encontrar casais e até mulheres sozinhas, misturadas entre os homens. Dentro dos ônibus não. As mulheres entram e sentam no fundo, os homens na parte da frente. Mesmo casais são obrigados a seguir viagem à distância, juntos somente pelo olhar.

Ponto de ônibus em Shiraz

Como no Brasil, os sistemas de transporte coletivo iranianos não são compatíveis com a dimensão e as necessidades de Teerã e das principais cidades do país. O Metrô não chega à lotação absurda como a do de São Paulo, por exemplo, mas está longe de ser suficiente para a extensão da cidade. As largas avenidas em todos os cantos tornam evidente qual tem sido a priorização de sucessivos governos na área de transportes. Avenidas, túneis, viadutos, asfalto, asfalto, asfalto, asfalto. Não por acaso, há carros para todos os lados, brigando por espaço, soltando fumaça. As metrópoles foram construídas para eles; é desagradável caminhar em Teerã e não são poucas as pessoas que usam máscaras tanta a poluição no ar.

Na confusão da disputa por espaço, reina o improviso.

Casal de moto. Capacete é raridade no Irã

Se as linhas de ônibus não funcionam de maneira adequada, se os coletivos ficam parados nos congestionamentos e na confusão das ruas, um sistema paralelo formado por táxis e mototáxis vira solução. Algo totalmente diferente do que a gente conhece por aqui.

Funciona assim: nas principais avenidas os táxis vão e voltam pegando passageiros. Fazer o trajeto custa barato, mas o motorista tentará encher o carro com o máximo de gente possível. O que significa que você pode acabar esmagado do lado de dois homens corpulentos e uma mulher de chador no banco de trás de um dos muitos Peykans, apertados, poluentes e velhos carros que entopem as ruas. A não ser que você especifique que quer “porta fechada” e um destino específico, os taxistas seguirão tentando pegar mais passageiros.

O resultado desse sistema confuso em que a prioridade é a infraestrutura para os carros e o investimento em transporte público fica em segundo plano são os congestionamentos cada vez mais demorados. Viadutos, avenidas, túneis no lugar de linhas de metrô, corredores de ônibus, bondes e ciclovias – a receita para criar cidades engarrafadas funciona do mesmo jeito seja aqui, seja em Teerã.

Da janela do ônibus, claustrofobia em um dia de chuva

 

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1 Response to “Transporte público no Irã”


  1. 1 Marcio De Souza 20/04/2011 às 3:31 am

    O curioso é que as linhas norte-sul/leste-oeste do metrô sao semelhantes nas duas cidades, em Teera e Sao Paulo. A verdade é que a indústria automobilística destruiu as grandes cidades no mundo inteiro. Mesmo em Londres, Paris e Nova Iorque onde há ótima infra-estrutura de metrô e transporte público viário, as cidades estao completamente poluídas e com enormes congestionamentos.
    A frase “bike everyday, bus twice a week and car almost never” é a realidade em milhares de cidades de até 50 mil habitantes, os únicos lugares urbanos ainda habitáveis na Terra.


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Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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