Trânsito padrão Teerã *

Hoje, segunda-feira, 4 de abril de 2011, a Companhia de Engenharia de Trânsito de São Paulo registrou 157 km de congestionamentos na cidade, o pior índice durante o período da manhã no ano. O colapso do trânsito paulistano não acontece por acaso; é resultado de uma combinação de políticas públicas desastradas em diferentes esferas de governo, que incluem a ampliação e construção de avenidas, túneis e viadutos (medidas municipais e estaduais), e a redução de impostos para compra de automóveis (medida federal). A situação é sufocante, mas pode ficar muito pior se não for revista a lógica de priorizar o transporte individual em detrimento do coletivo, com as autoridades apostando na construção da infraestrutura para carros circularem em vez de na melhoria e ampliação dos sistemas de transporte público.

Tomemos como exemplo o Irã.

Carros, carros e mais carros. Cena comum em Teerã, capital do Irã.

Assim como São Paulo e outras metrópoles, Teerã, a capital econômica e política do Irã, sofreu com a explosão populacional relacionada ao veloz processo de urbanização mundial das últimas décadas. A cidade cresceu rapidamente e, para tentar garantir a circulação de uma população que já ultrapassa 13 milhões, as autoridades investiram e seguem investindo na construção e ampliação de largas avenidas por todos os cantos. Aliado aos subsídios para a compra de combustível, tal planejamento urbano tem tido resultados desastrosos. A priorização radical para a circulação de automóveis criou uma cidade em que, na disputa caótica por espaço, impera a lei do mais forte, mais rápido ou mais agressivo. Pedestres são incentivados a recuar ameaçados por buzinadas e aceleradas constantes. Os cruzamentos são campos de batalha em uma lógica difícil de entender.

Dá medo atravessar a rua em Teerã.

Se circular na cidade é um desafio, respirar também não é algo tão simples.

Poluição deixa tudo com um tom amarelado

A poluição chega a níveis tão críticos que o governo eventualmente decreta feriado só para tentar reduzir o número de carros circulando. É comum ver pessoas com máscaras nas ruas. O céu é cinza, o ar deixa tudo com um tom amarelado.

Isso para não falar dos acidentes de trânsito. Em 2o dias no país presenciei seis deles, a maioria batidas leves, mas alguns mais sérios. E conheci um escocês que em um passeio foi atropelado e quebrou as duas pernas. Aliás, entre os iranianos não são poucos os que têm histórias de acidentes violentos para contar.

E tal padrão de mobilidade vai sendo reproduzido em todo o país. Mesmo em cidades históricas, que foram importantes centros do Império Persa, as avenidas ganham espaço e os cruzamentos malucos se repetem. Shiraz, por exemplo:

Dá para ser diferente. Os amigos que fiz na viagem, que estão entre as pessoas mais simpáticas e hospitaleiras que já conheci, merecem um dia viver em cidades que seguem padrões diferentes do de Teerã. A gente aqui no Brasil também.

* Após um mês circulando pelo Irã e pela Turquia, reassumo o Outras Vias hoje. Agradeço o Thiago Benicchio, que aproveitou o espaço para ampliar o debate sobre bicicletas durante o mês de março, tendo publicado um dos textos mais importantes e não por acaso o mais lido desde que o blog começou – sobre o atropelamento em Porto Alegre. Aliás, tocante a mobilização e a solidariedade entre as Bicicletadas de diferentes cidades nas semanas seguintes. Dá gosto de fazer parte de uma rede de pessoas tão legais. O Benicchio, assim como a Gisele Brito, que cuidou do Outras Vias em novembro, permanece convidado como colaborador eventual do blog e do portal O Eco também. Para facilitar consultas ao trabalho que ambos desenvolveram no Outras Vias, agora tem um botão aí do lado em que dá para ler os textos por autores. Hoje e nos próximos dias, divido com vocês algumas experiências sobre os países que visitei, em especial o Irã, enquanto a equipe de O Eco prepara  novidades para o portal.

Daniel Santini

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6 Responses to “Trânsito padrão Teerã *”


  1. 1 Thiago Benicchio 05/04/2011 às 11:37 am

    Salve meu caro, seja bem-vindo!

    Muitas histórias na bagagem, hein?

    Estive em Abuja, Nigéria em 2009 no ano passado e a sensação foi parecida: o trânsito se “auto-organiza” de uma maneira caótica. As buzinas são realmente formas de comunicação entre as pessoas e você não sabe muito bem como os carros não batem uns nos outros.

    Abuja é bem menor que Teerã, tem muito menos carros. Então esses videozinhos aí são uma loucura. O que é aquele sinal vermelho piscando enquanto carros passam para todos os lados? Faixas de rolamento, pra que?

    Enfim, dizem que o Cairo é outra loucura dessas. Não vou dizer que a nossa insanidade aqui é melhor ou pior, mas fica a constatação de que essa “quarta guerra mundial” (para usar a ideia zapatista) está realmente introjetada nas pessoas, que passam a não mais perceber os absurdos cotidianos.

    • 2 Rodrigo Afonso Guimarães 05/04/2011 às 5:12 pm

      Esse caos é também o padrão na Índia e Nepal: a lei do mais forte, a buzina como forma legítima de comunicar “atenção que eu tô passando perto” ou “abre espaço senão eu passo por cima” e o mistério de como os carros não batem uns nos outros.

      Em Kathmandu, onde boa parte dos pedestres e ciclistas usam máscaras no dia-a-dia, aluguei uma bicicleta para dar uma volta na cidade. Foi a pior sensação de poluição do ar que eu já senti na vida, com uma poluição sonora pouco menor que a da Índia. Quanto à segurança, ainda consegui sentir-me menos inseguro do que na maioria das vias de Brasília.

      Por falar em Brasília :p, passei também em Dubai, que conseguiu me impressionar negativamente ainda mais que Índia e Nepal, no caso pelo enorme desperdício e pelo ordenamento urbano radicalmente concebido para os carros.

  2. 3 Carolina Garrido 05/04/2011 às 4:03 pm

    Os textos publicados no blog pela Gisele e pelo Thiago foram excelentes. Leio muito sobre mobilidade urbana e principalmente a questão das bicicletas. Vivo num local em que estamos em constante perigo ao pedalar, pois a cidade (São Sebastião) é cortada pela SP-55, que serve tanto como via de transporte pesado do Porto e da Petrobras como via de passeio, por ter grande parte de serra e ficar entre a Mata Atlântica e o oceano Atlântico; esta cidade histórica, que tem tudo para ser um grande atrativo turístico, um lugarejo propício para o trasporte alternativo, vive dias de fúria, com as estradas “desmoronando” tanto pela chuva quanto pelo excesso de peso e velocidade dos veículos motorizados. O que nos falta ainda é a conscientização da nossa vida real aqui, da impossibilidade de um aumento tão generoso do tráfego motorizado e a implantação de um movimento social como a bicicletada, que talvez (eu acredito) possa mostrar ao poder público a real necessidade de atenção no tráfego do município: o uso de bicicletas

  3. 4 João Lacerda 05/04/2011 às 10:24 pm

    Bem vindo de volta! Mas poxa, que resumo triste! 😦 Parecem as mesmas vias. Queremos outras! 🙂

  4. 5 paulo fernando teixeira 06/04/2011 às 11:24 pm

    O transito e um salve quem Ala puder


  1. 1 As bicicletas do Irã « a macaca Trackback em 09/04/2011 às 2:37 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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