Não foi acidente

arte: tncbaggins

Que nome você daria à atitude de alguém que empunha uma metralhadora e dispara uma rajada de balas contra mais de uma centena de pessoas?

Até mesmo no Arizona, estado norte-americano que permite aos seus cidadãos o porte de armas inclusive em locais públicos, tal atitude seria considerada uma tentativa de homicídio. O autor dos disparos seria preso, mesmo que ninguém tivesse morrido.

Na última sexta-feira (25), em Porto Alegre (RS), um motorista apontou seu carro, acelerou e disparou intencionalmente contra mais de uma centena de pessoas que pedalavam na rua José do Patrocínio. Mais de 20 de ciclistas ficaram feridos.

Até o momento, as autoridades gaúchas consideram que o motorista do Golf preto é “suspeito” de um “acidente de trânsito” que resultou em “lesão corporal”.

Talvez a visão das autoridades ajude a dar algumas pistas importantes sobre a (aparentemente) inexplicável atitude do motorista.

Segundo o Mapa da Violência, estudo divulgado pelo Ministério da Justiça no começo do ano, os “acidentes” de trânsito matam em escala semelhante aos homicídios por armas de fogo.

Cerca de 40 mil pessoas perdem a vida por ano no trânsito brasileiro. No Estado de São Paulo, colisões e atropelamentos são as maiores responsáveis pela morte de jovens.

Mesmo assim, continuamos a chamar esses casos de “acidentes”, como se fossem fatalidades, coisas que acontecem por razões inexplicáveis ou misteriosas.

No trânsito, os números do que consideramos fruto do acaso são comparáveis aos de uma guerra civil.

As ideias e conceitos que orientaram nossas cidades na tentativa de garantir o fluxo infinito de automóveis estão à beira do colapso e se mostraram fracassadas, inclusive em seu objetivo principal de atender quem utiliza automóveis.

Boa parte do tempo desperdiçado por um motorista dentro de um carro nas ruas de uma cidade média ou grande do Brasil é consequência da presença de outros carros nas ruas.

Os ciclistas que foram atingidos na rua José do Patrocínio participavam de uma mobilização internacional, chamada de Massa Crítica ou Bicicletada.

Nascida em 1992 na cidade de São Francisco (EUA), a Massa Crítica não é um movimento tradicional: não tem organizadores, regimentos ou plataforma e consiste essencialmente em um encontro para pedalar em grupo que acontece durante algumas horas da última sexta-feira de cada mês.

Submetidos ao cotidiano de convivência com motoristas agressivos, máquinas perigosas e ambientes hostis, uma vez por mês a massa de ciclistas subverte o caótico paradigma da imobilidade urbana em várias cidades do mundo.

Motoristas impacientes nem sempre ficam contentes ao perceber que terão que esperar alguns minutos ou andar em velocidades baixas durante o “congestionamento de bicicletas”. Mesmo assim, são muito raras as vezes em que esse desconforto resulta em algum tipo de agressão.

Estar preso no trânsito por alguns minutos de vez em quando faz parte da vida de quem escolhe andar de carro. Seja por conta de uma manifestação, passeio, cortejo fúnebre, chuva ou, quase sempre, pelo excesso de carros nas ruas, dirigir na cidade é sinônimo de paciência.

Muitas partes do mundo já entenderam que é necessário melhorar todas as formas de transporte urbano mais inteligentes que o automóvel e redistribuir o espaço urbano.

Não é preciso eliminar os carros das cidades, mas é necessário que pedestres, ciclistas, passageiros de ônibus, trens e metrôs sejam respeitados e valorizados nas ruas, recebendo também a maior parte do investimento e da atenção dos órgãos públicos.

O motorista que avançou contra a Bicicletada de Porto Alegre não precisaria saber nem concordar com as ideias acima.

Ele poderia ficar extremamente bravo com o grupo de ciclistas que ocupava a rua à sua frente, buzinar e até chamar a polícia.

Mas é inadmissível que tenha agido com tamanha brutalidade. O atropelamento durante a bicicletada de Porto Alegre não foi um acidente.

arte: cabelo

Mobilizações de ciclistas devem acontecer em diversas cidades do Brasil e do mundo nos próximos dias.

O blog da massa crítica de São Francisco propõe dedicar o próximo encontro, no dia 25 de março, aos gaúchos.

Na capital paulista, uma bicicletada em solidariedade aos ciclistas gaúchos acontece na segunda-feira (28), a partir das 18h, na Praça do Ciclista (mais informações aqui ou aqui)

Na terça, a partir das 18h30, a massa crítica de Porto Alegre se encontra no Largo Zumbi dos Palmares.

(Atualização em 28/11 – 18h05): No Rio de Janeiro, a Bicicletada em solidariedade aos ciclistas de POA acontecerá na quarta-feira (02/02), às 18h, com saída da Cinelândia (em frente ao Cine Odeon).

Em Curitiba, também na quarta-feira, a partir das 18h, com encontro no Pátio da Reitoria da UFPR.

Visite o blog da massa crítica de Porto Alegre, confira aqui um clipping de notícias sobre o assunto ou acompanhe a tag #naofoiacidente no twitter.

Por Thiago Benicchio

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31 Responses to “Não foi acidente”


  1. 1 joao 28/02/2011 às 5:18 pm

    CADEIA PRA ESSE ASSASSINO!!!!!

    Não podemos mais aceitar impunidade no nosso país (leia-se na nossa esbórnia)!!!!

  2. 2 isabel 28/02/2011 às 5:58 pm

    tenho que acreditar que ainda estou em um país evoluido?
    só acredito que o ódio, a prepotência, e o orgulho e descontrole de sí, e a pura falta de Deus.

  3. 3 André Geraldo Soares 28/02/2011 às 6:02 pm

    Thiago,

    Não precisa publicar.

    O Jornal de Santa Catarina, no ano passado, em um dos seus editoriais colocou uma imagem parecida com essas duas. Veja em http://tinyurl.com/6blc3p6

    A propósito, tem essa ótima da Mafalda: http://tinyurl.com/5wknvv6

    abraço,

    andré
    fpolis

  4. 4 voudemagrela 28/02/2011 às 6:28 pm

    Olá OUTRAS VIAS!

    O insano acelerou porque eram bicicletas na frente do carro…
    Ou seja, por que ele não acelera quando são carros-forte na frente dele? É o famoso UMA TONELADA contra 12 QUILOS !!! Nem há muito o que escrever e a fala do delegado, a meu ver, já seria motivo para colocá-lo junto com o motorista numa boa celinha, isso sim!!!

    • 5 Rafael 01/03/2011 às 9:27 am

      E queridão.. então entra no meio de uma torcida organizada com seu carro… e fica la dentro.. de boa…kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Pelo amor.. né…. quanta merda…a e não esquece de colocar seu filho junto…. assim como na torcida… sempre tem os idiotas que no meio de muitos viram macho.. e disso que o mundo ta cheio….. nada justifica a atitude do cara.. logico.. mais se eu tivesse correndo risco.. se tivessem batendo no meu carro.. me agredindo eu passaria por cima… sem dó.. afinal quando pisariam na minha cabeça 10×1 não teriam dó……..

  5. 6 Eduardo Pegurier 28/02/2011 às 6:57 pm

    Olá Thiago, ótimo post. É verdade, se existem alternativas ao carro, temos que parar de olhar para as tragédias do trânsito como meros acidentes. Parabéns.

  6. 7 valdir junior 28/02/2011 às 10:53 pm

    Cara muito bom post, achei muito realista e falo a verdade, sobre a impunidade no transito e aquele video do pateta é muito bom

  7. 8 Xavier 01/03/2011 às 3:23 am

    Olá Thiago e pessoal,

    Acho que ninguém aqui, que luta diariamente para transformar de vez a cidade em que vivemos, poderia imaginar tamanha brutalidade de uma vez só.

    O espaço urbano, sem dúvida, está organizado para a supremacia do automóvel mesmo – e isso, no Brasil, se consolida desde dos anos 1950. Isso não é nenhuma novidade.

    No entanto, acho que fatos como esse – e “acidentes” que nos deixam indignados – deveriam servir como mote para sairmos da letargia e enfrentarmos fortemente a hegemonia de uma indústria (automobilística) que mata mais gente em nosso país do que muitas guerras que ocorrem pelo mundo.

    Essa é a verdadeira guerra de classes em nossas cidades.

    Excelente texto e grande abraço!

    Xavier – Movimento Passe Livre São Paulo.

  8. 9 Adriana Carmona 01/03/2011 às 9:08 am

    Só um imbecil consideraria isso um acidente! Assassino!

  9. 10 caique 01/03/2011 às 10:43 am

    acidente certamente não foi, mas uma testemunha presenciou o motorista sendo agredido pelos ciclitas, inexigivel conduta adversa se ele estava em eminente perigo de vida……

  10. 11 Amanda Sei 01/03/2011 às 6:16 pm

    Olá Thiago,

    Concordo com o Xavier: cidades insanas desenhadas para automóveis… deveríamos/devemos(!) mesmo enfrentar esta triste realidade. Mas uma brutalidade, sem precedentes, como esta, deixa triste e cético a pessoa mais positiva. Não é pra menos que – pedestres, ciclistas e afins – sintam medo de fazer diferente, diante de tamanha covardia e falta de bom senso. Pra seguir em frente, resta acreditar que pra cada sociopata desses existe uma porção de gente que pensa e age diferente (elas estavam todas lá na bicicletada, não é?)… e acreditar. Mas isso é mesmo uma vergonha. Para todos nós.

  11. 12 matiasmm 01/03/2011 às 8:34 pm

    Cadeia! Nada ameniza a situação. A história corre o mundo com olhares indignados, e a realidade é que nesse pais aqui, vivemos nós. É isso que queremos pros nossos filhos?

  12. 13 Vanessa 01/03/2011 às 8:59 pm

    Texto muito lúcido. Parabéns.

  13. 14 Xavier 02/03/2011 às 5:50 am

    Olá Amanda e pessoal,

    Reconheço, certamente, que não é nada fácil vencer o desânimo e seguir nessa luta pelo fim da carrocracia em nossas cidades.

    Cada acidente, morte, quase-atropelamento, sinal vermelho ultrapassado e desrespeito para com o pedestre e usuário do transporte coletivo parece, no mais das vezes, colocar uma pá de cal nessa pretensão coletiva de transformar os espaços urbanos em que vivemos.

    Mesmo assim, e de forma paradoxal, é justamente todos esses conflitos e obstáculos que nos enchem de vontade para, ao invés de simplesmente continuarmos chorando individualmente e velando nossa indignação com minutos e mais minutos de silêncio, dizermos em alto e bom som que uma cidade só existe para quem pode se movimentar por ela!

    Que as manifestações de repúdio e solidariedade se multipliquem!

    Abraços,

    Xavier.

  14. 15 Cynthia 03/03/2011 às 11:56 pm

    Que isso não é um acidente, parece meio óbvio. Imagino quem que acredita nisso…

    Gostei muito desse seu texto, bem escrito.

  15. 16 Patricia Mota 15/03/2011 às 2:59 am

    desgosto imenso, vergonha, queria me transformar num cão, passarinho, gato. O homem não faz parte da Natureza, nenhum animal quando mata pra comer tem consciência da dor do outro, a maldade só existe nos seres “humanos”


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Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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