Arquivo para 28 de fevereiro de 2011

Não foi acidente

arte: tncbaggins

Que nome você daria à atitude de alguém que empunha uma metralhadora e dispara uma rajada de balas contra mais de uma centena de pessoas?

Até mesmo no Arizona, estado norte-americano que permite aos seus cidadãos o porte de armas inclusive em locais públicos, tal atitude seria considerada uma tentativa de homicídio. O autor dos disparos seria preso, mesmo que ninguém tivesse morrido.

Na última sexta-feira (25), em Porto Alegre (RS), um motorista apontou seu carro, acelerou e disparou intencionalmente contra mais de uma centena de pessoas que pedalavam na rua José do Patrocínio. Mais de 20 de ciclistas ficaram feridos.

Até o momento, as autoridades gaúchas consideram que o motorista do Golf preto é “suspeito” de um “acidente de trânsito” que resultou em “lesão corporal”.

Talvez a visão das autoridades ajude a dar algumas pistas importantes sobre a (aparentemente) inexplicável atitude do motorista.

Segundo o Mapa da Violência, estudo divulgado pelo Ministério da Justiça no começo do ano, os “acidentes” de trânsito matam em escala semelhante aos homicídios por armas de fogo.

Cerca de 40 mil pessoas perdem a vida por ano no trânsito brasileiro. No Estado de São Paulo, colisões e atropelamentos são as maiores responsáveis pela morte de jovens.

Mesmo assim, continuamos a chamar esses casos de “acidentes”, como se fossem fatalidades, coisas que acontecem por razões inexplicáveis ou misteriosas.

No trânsito, os números do que consideramos fruto do acaso são comparáveis aos de uma guerra civil.

As ideias e conceitos que orientaram nossas cidades na tentativa de garantir o fluxo infinito de automóveis estão à beira do colapso e se mostraram fracassadas, inclusive em seu objetivo principal de atender quem utiliza automóveis.

Boa parte do tempo desperdiçado por um motorista dentro de um carro nas ruas de uma cidade média ou grande do Brasil é consequência da presença de outros carros nas ruas.

Os ciclistas que foram atingidos na rua José do Patrocínio participavam de uma mobilização internacional, chamada de Massa Crítica ou Bicicletada.

Nascida em 1992 na cidade de São Francisco (EUA), a Massa Crítica não é um movimento tradicional: não tem organizadores, regimentos ou plataforma e consiste essencialmente em um encontro para pedalar em grupo que acontece durante algumas horas da última sexta-feira de cada mês.

Submetidos ao cotidiano de convivência com motoristas agressivos, máquinas perigosas e ambientes hostis, uma vez por mês a massa de ciclistas subverte o caótico paradigma da imobilidade urbana em várias cidades do mundo.

Motoristas impacientes nem sempre ficam contentes ao perceber que terão que esperar alguns minutos ou andar em velocidades baixas durante o “congestionamento de bicicletas”. Mesmo assim, são muito raras as vezes em que esse desconforto resulta em algum tipo de agressão.

Estar preso no trânsito por alguns minutos de vez em quando faz parte da vida de quem escolhe andar de carro. Seja por conta de uma manifestação, passeio, cortejo fúnebre, chuva ou, quase sempre, pelo excesso de carros nas ruas, dirigir na cidade é sinônimo de paciência.

Muitas partes do mundo já entenderam que é necessário melhorar todas as formas de transporte urbano mais inteligentes que o automóvel e redistribuir o espaço urbano.

Não é preciso eliminar os carros das cidades, mas é necessário que pedestres, ciclistas, passageiros de ônibus, trens e metrôs sejam respeitados e valorizados nas ruas, recebendo também a maior parte do investimento e da atenção dos órgãos públicos.

O motorista que avançou contra a Bicicletada de Porto Alegre não precisaria saber nem concordar com as ideias acima.

Ele poderia ficar extremamente bravo com o grupo de ciclistas que ocupava a rua à sua frente, buzinar e até chamar a polícia.

Mas é inadmissível que tenha agido com tamanha brutalidade. O atropelamento durante a bicicletada de Porto Alegre não foi um acidente.

arte: cabelo

Mobilizações de ciclistas devem acontecer em diversas cidades do Brasil e do mundo nos próximos dias.

O blog da massa crítica de São Francisco propõe dedicar o próximo encontro, no dia 25 de março, aos gaúchos.

Na capital paulista, uma bicicletada em solidariedade aos ciclistas gaúchos acontece na segunda-feira (28), a partir das 18h, na Praça do Ciclista (mais informações aqui ou aqui)

Na terça, a partir das 18h30, a massa crítica de Porto Alegre se encontra no Largo Zumbi dos Palmares.

(Atualização em 28/11 – 18h05): No Rio de Janeiro, a Bicicletada em solidariedade aos ciclistas de POA acontecerá na quarta-feira (02/02), às 18h, com saída da Cinelândia (em frente ao Cine Odeon).

Em Curitiba, também na quarta-feira, a partir das 18h, com encontro no Pátio da Reitoria da UFPR.

Visite o blog da massa crítica de Porto Alegre, confira aqui um clipping de notícias sobre o assunto ou acompanhe a tag #naofoiacidente no twitter.

Por Thiago Benicchio

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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