Ônibus lotado em um dia de chuva

Ônibus lotado na Av. Sumaré. As luzes de fora são de carros travando o trânsito, a maioria com uma pessoa só dentro

São Paulo, mais uma vez, entrou em colapso ontem. Bastou uma chuva mais forte para metade da cidade alagar, semáforos travarem, o trânsito ficar maluco e, consequentemente, o sistema de transporte coletivo travar. Eu precisei pegar um ônibus ontem, estava sem bicicleta.

Após ouvir notícias de amigos de que a Zona Sul tinha virado um lago, de carros boiando na 23 de Maio, e um temporal na Zona Norte, esperei para sair. As 20h achei que dava e no ponto de ônibus encontrei a Kátia Mello, colega de trabalho querida que ia para o mesmo lugar que eu. Uma das vantagens de utilizar transporte público é encontrar amigos sem querer (veja outras 10).

Estava na Barra Funda e tinha duas opções, considerando os ônibus que passam próximos. A primeira era arriscar um trajeto cruzando Pacaembu ou Perdizes em direção a Doutor Arnaldo, para, depois descer a Cardeal Arcoverde, meu ponto final. A segunda era optar por um ônibus que passa em frente ao Terminal Barra Funda, segue pela Avenida Sumaré, e então desce a Cardeal. Escolhi esta última (escolhi nada, foi o ônibus que passou primeiro…).

Sufoco
Entramos no ônibus já relativamente cheio, conseguimos dois lugares no corredor e fomos conversando. Papo bom, os dois de ótimo humor e, de repente, a Kátia crispa o rosto em um olhar preocupado. Olhei para a janela e vi o ônibus encostando no terminal, bem ao lado de uma fila com mais ou menos a população da China.

Entre uma bolsa e duas cinturas, deu para continuar conversando com a Kátia

Começou a entrar gente, o espaço do corredor foi sumindo  e, quando vi, estava com o pescoço torto quase deitado para frente para conseguir ver uma fresta do rosto da Kátia e continuar papeando. Lá fora, um mar de luzes vermelhas indicava que o caminho ia demorar.

É difícil não sentir raiva com a injustiça, a violência e a estupidez da situação. Carros e mais carros vazios parados no caminho, a maioria apenas com o motorista, ocupando o espaço que permitiria que o ônibus seguisse sua rota. E o ônibus cheio de gente, com as janelas fechadas por conta da garoa, esquentando. Trânsito, demora, as pessoas esmagadas lá dentro, todo mundo triste ou cansado (volta no começo deste texto e repara na cara das pessoas).

Eu e a Kátia descemos no final da Sumaré e decidimos caminhar pela Cardeal, margeando a insanidade do trânsito de São Paulo. Andando, chegamos antes de todo mundo. Da próxima vez que chover, volto de bicicleta, nem que eu tenha que procurar uma boiando na enchente mais próxima.

Leia também: Preço do ônibus dispara em todo o País. Novas tarifas afetam inflação e tornam mais difícil vida dos passageiros, que reagem com protestos nas capitais. Reportagem em PDF no Googledocs -> página 1 e página 2

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3 Responses to “Ônibus lotado em um dia de chuva”


  1. 1 Willian Cruz 17/02/2011 às 11:33 am

    Ontem à noite quando voltava de bicicleta vi que o túnel da Rebouças, sob a Faria Lima, estava interditado, provavelmente cheio de água (e já era por volta de 21h).

    Em vez de fazer com que os carros que vinham no sentido bairro saíssem pela direita e fizessem um retorno na Faria Lima, a CET optou para não complicar o trânsito para os carros e foder a vida de quem usa ônibus: desviava os carros para o corredor, que deveria ser exclusivo.

    Resultado? Os ônibus faziam uma fila gigantesca, tinham que parar para esperar carros e mais carros entrarem na sua frente no corredor, sendo seus passageiros punidos em pé porque havia carros demais na rua e os motoristas, coitadinhos, não podiam fazer um retorno a mais lá na frente.

    A cada ônibus, entravam no corredor uma dúzia de pessoas, cada uma no seu carro, ocupando umas cinco vezes o espaço de um ônibus que leva uma centena.

    Nessa cidade absurda, quem dirige sozinho em um carro continua tendo prioridade sobre um ônibus lotado com 100 pessoas dentro dele, a maioria em pé e espremida. É mais importante o carro não ter que dar a volta do que o pessoal dentro do ônibus esperar “mais um pouquinho”. E não, não é só mais um pouquinho: é um pouquinho por carro, com centenas de carros invadindo o corredor e multiplicando esse “pouquinho”. Quem está dentro do ônibus pode até não perceber o motivo dele demorar tanto, mas sente o efeito dessa inversão de prioridade.

  2. 2 Amanda 18/02/2011 às 1:59 pm

    É realmente triste e injusta a falta de consideração que o poder público tem com os “cidadãos” – tendo em vista a quantidade de impostos aos quais somos submetidos, esperamos ao menos que nos considerem assim – e, a cada episódio desse, fica cada vez mais difícil não ficar cético ao olhar esta cidade. A alternativa imediata frente a todo este caos (e para quem não tem bicicleta =) é, separe uma roupa confortável e deixe-a no escritório. Quando este caos se estabelecer, respire fundo, crie coragem e caminhe. É um bom momento para ver a cidade, dar vazão aos pensamentos, e disparar serotonina.


  1. 1 Quem mais sofre com o caos no trânsito | Vá de Bike! Trackback em 17/02/2011 às 12:49 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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