A hora de expandir o aluguel de bicicletas

As bicicletas já estão por todas as partes em São Paulo. Só não vê quem não quer. Foto: Daniel Santini

Na segunda-feira, a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista em que o novo secretário de Transportes Metropolitanos Jurandir Fernandes disse que pretendia rever o aluguel de bicicletas em São Paulo (aqui para assinantes, aqui para quem não for assinante). Em meio a críticas diretas à gestão de seu antecessor, o ex-secretário José Luiz Portella, ele aventou a possibilidade de o programa atual ser marketing e jurou que, olhando números, se constasse que a utilização é impressionante, aumentaria tudo. Literalmente, o secretário afirmou o seguinte sobre bicicletas ao repórter Alencar Izidoro:

Sou apaixonado por ciclovia. Mas não quero fazer marketing com coisa séria. Quero ver se a história de alugar bicicleta é eficiente, útil ou se foi marketing. Vale todo mundo dizer que em São Paulo tem um sistema de bicicletas igual ao de Paris e depois eu ter que explicar que não é bem assim? Não consigo explicar o inexplicável. Agora, se disserem que há utilização impressionante, juro que aumento tudo.

Pois bem, secretário, a utilização é impressionante. Vamos aos fatos. Mesmo com todas as dificuldades de se utilizar um veículo não poluente em uma cidade projetada para carros, tem bastante gente utilizando regularmente o sistema. O Instituto Parada Vital, que administra os bicicletários públicos em estacionamentos, metrôs e terminais de ônibus EMTU na região metropolitana, informa que, de setembro de 2008 até dezembro de 2010, o sistema foi utilizado 164.680 vezes, sendo 67.238 para empréstimos e 97.442 para estacionamento de bicicletas.

Até agora 19.109 usuários se cadastraram. E, preste atenção, secretário, estamos falando de um sistema até agora nanico para o tamanho de São Paulo, com apenas 23 postos, sendo oito deles em garagens e não em estações de metrô ou trem. Paris, que o senhor citou, tem mais de 2.000 postos e a propaganda deles é que a cada 300 metros é possível encontrar um deles.

Perguntei ao pessoal do Instituto Parada Vital o que eles achavam da possibilidade de o sistema todo ser cancelado. A resposta deles é que “esses números provam a importância do uso de bicicletas em uma cidade como São Paulo, cujo sistema de transportes, muitas vezes, não favorece o uso desse meio de locomoção” e que o projeto é “pioneiro no Brasil e tem como principal objetivo propor soluções que preservem o meio ambiente e promovam o desenvolvimento sustentável em grandes centros urbanos.  A iniciativa visa estimular o uso de transportes alternativos que contribuam com a redução de emissão gases poluentes.”

Cidade inóspita
Pois é. São Paulo não é simpática ao ciclista ou ao pedestre, apesar de haver milhares de pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte regularmente. O sucateamento do transporte público e a falta de opções a quem não tem dinheiro para manter um carro fazem com que muitos tenham optado por pedalar para se deslocar.

Incentivar quem se locomove sem poluir, sem ameaçar a vida dos outros, sem fazer barulho ou degradar áreas, deveria ser incentivado pelo poder público. Ampliar e oferecer alternativas de acesso a este modal é um dos passos que devem ser tomados. E isso não se limita a construir ciclovias ou ciclofaixas de lazer (que sim, são importantes, mas não bastam).

Em Paris, que o senhor citou, eles trabalham com um conceito que não envolve apenas ciclovias, mas sim compartilhamento de ruas – método que torna as vias mais seguras até para quem está dirigindo.

É impossível fazer comparações, mas se o senhor ou alguém da sua equipe pesquisar, verá que sistemas públicos de aluguel de bicicletas estão sendo adotados e expandidos, sendo entendidos como métodos complementares para reduzir o trânsito e a poluição nas principais capitais do planeta. Além de Paris e Londres, há exemplos em Santiago, no Chile, e mesmo cidades com a topografia irregular semelhante a São Paulo como São Francisco, nos Estados Unidos; ou, falando em semelhanças, com trânsito infernal e dimensões respeitáveis de megalópole como a Cidade do México.

Já demos o primeiro passo em São Paulo, secretário. Os números são consideráveis e o senhor tem uma base para trabalhar a expansão do sistema de aluguel.

É hora de expandir, Jurandir.

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5 Responses to “A hora de expandir o aluguel de bicicletas”


  1. 1 Marcos Flavio 13/01/2011 às 11:04 am

    Sem duvida, é hora de expandir, Jurandir, meu na moral, fico puto da vida com essas coisa, “Não consigo explicar o inexplicável”, to cansado de ver nego pondo dinheiro na cueca e não ter ninguém que pra me explicar o inexplicável, passaporte diplomatico e mais uma porrada de coisas inexplicáveis, isso não é pra dar lucros financeiros imediatos não Sr. secretário, isso é um investimento e uma solução inteligente para uma cidade que vai parar muito em breve e inclusive o sr será obrigado a ir trabalhar de bicicleta ou a pé ou será que o sr. secretário vai preferir ficar sentado dentro do seu carro por horas esperando o transito???, horas essa que nos contribuintes lhe pagamos para trabalhar por nos e pela nossa cidade.

  2. 2 Fernando Carignani 14/01/2011 às 5:42 am

    Será que o atual secretário realmente gosta de pedalar? Achei que ele declarou que sim apenas para fazer um contra-ponto com sua outra declaração (absurda, aliás) sobre manter a atual “estrutura” para bikes e ciclistas desde que esteja sendo utilizada com eficiência. Jamais poderia falar, ou pensar, isso. Com o cargo que ocupa tem obrigação de incentivar a utilização de bicicletas em São Paulo e, claro, ao menos prover seus usuários da segurança e infra-estrutura mínimas necessárias. Deveria ter afirmado que se a utilização ainda for baixa que fará muito para incentivar os cidadãos a deixarem o carro em casa e subirem em magrelas.
    Devaneio pensar assim? Talvez para o poder público…
    Belo texto Santini!
    Abração

  3. 3 jose 20/01/2011 às 11:15 pm

    Vocês são muito inocentes….

    Vocês não se tocaram que a elite paulista pensa que essa cidade (e pq não o estado) é uma Chuiça? Sim, é um lugar com o crescimento econômico da China mas com q qualidade de vida da Suiça! Pode parecer absurdo, mas é oq eles pensam! Qualquer tentativa de desqualificar a nossa nobra Chuiça é atacada ferrozmente! Pois é… nem pense em dizer “o senhor está errado, em paris,é assim, assado…” pq o cara tem na cabeça de que sp é melhor dq paris, em tudo!

    • 4 matiasmm 26/01/2011 às 2:02 pm

      Quem pensa que são paulo é tão boa não deveria sair correndo daqui todo fim de semana ou?
      No meu modo de ver o cara têm é um tanto de medo de uma sociedade mais igualitária, como os exemplos citados, isso sim. O cara cresceu tendo alguém pra arrumar a cama dele, fazer café e lavar suas cuecas e não entende que isso tá ligado com o lance de pessoas na rua que têm raiva dele por usar uma bosta de um rolex e um carro de trocentos contos.


  1. 1 Demanda reprimida « Outras Vias Trackback em 17/01/2011 às 2:47 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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