Notícias de uma cidade alagada

Cena singela no Bom Retiro, em São Paulo. Foto de @toffolettocatia

São Paulo afundou nessa madrugada. Os rios Pinheiros e Tietê transbordaram durante a noite, junto com centenas de córregos e riachos que cortam a capital de alto a baixo. No Estado, até as 6h00, os Bombeiros haviam contabilizado 13 mortes, sendo duas por afogamento, uma por soterramento e 11 em desabamentos.

De manhã, a cidade seguia alagada (no Centro de Gerenciamento de Emergências da Prefeitura tem uma relação atualizada dos pontos mais críticos). Aliás, falar em alagamento talvez seja pouco. Algumas ruas como a Rua dos Pinheiros viraram rios durante a chuva. Assim como aconteceu na Zona Leste na semana passada, na Zona Norte a situação centenas de pessoas não conseguiram chegar em casa depois do trabalho.

Lógico que choveu demais. Mas a chuva anormal já havia sido prevista pelo Instituto Nacional de Meteorologia. Não adianta, como em todos os anos (2009, 2010 e 2011), culpar o mau tempo pelos alagamentos, deslizamentos e mortes. Será que não é hora de rever o modelo de cidade com o qual nos acostumamos e que seguimos reforçando? Esses sustos todos não podem servir para refletir sobre a lógica de seguir asfaltando e impermeabilizando tudo para abrir avenidas, retirando árvores e não respeitando nem mesmo as várzeas de rios?

O tamanho das raízes das árvores que foram mortas para a ampliação da Marginal Tietê, uma das pistas que alagou nesta madrugada e seguia alagada de manhã. Caros administradores públicos, dica: árvore chupa água, especialmente as grandes. Foto: Apocalipse Motorizado (clique na imagem)

É óbvio que, em áreas especialmente vulneráveis, são necessárias obras para a construção de piscinões e outros buracos bizarros para acumular água emergencialmente. Mas adotar isso e a limpeza e manutenção dos córregos como única política pública para minimizar os efeitos das enchentes não resolve nada. Piscinões são paliativos.

Vai chover mais e mais nos próximos anos. Manter a construção e ampliação de avenidas como principal política de transportes não só não é solução para o trânsito como tem agravado as enchentes na cidade. É preciso ampliar as áreas permeáveis, abrir calçadas gramadas, plantar árvores, criar ciclovias nas várzeas dos rios e córregos (dá para fazer uma rede cicloviária usando essa ideia), mudar a cara da cidade.

Ou seguir boiando e culpando a chuva todo verão.

:.

Participe do Mapa Coletivo de Chuvas 2011 do portal O Eco.

Não deixe de ler a análise sobre o tema de Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada, em entrevista ao Terra Magazine.

Anúncios

1 Response to “Notícias de uma cidade alagada”


  1. 1 matiasmm 11/01/2011 às 4:21 pm

    Muito bom texto. Uma coisa que me veio a mente ontem foram as linhas de bonde que têm suas áreas permeáveis. Deveriam pensar em todas as formas de aumentar a permeabilidade. Importante é que as pessoas também participem e deixem parte de seus terrenos permeáveis não azulejem tudo. Mais fácil que reclamar da sujeira trazida de fora de casa é tirar os sapatos ao entrar, ajuda também a relaxar.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

Junte-se a 54 outros seguidores

janeiro 2011
S T Q Q S S D
« dez   fev »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Dica de leitura

compartilhe ideias

Quando uma cidade congestiona é preciso pensar alternativas de trânsito; discutir, dividir caminhos e dialogar. Ocupe este espaço.

Creative Commons License

outras vias no twitter

((o))eco no twitter

((o))ecocidades no twitter

  • Copa do Mundo das áreas protegidas: México. No campo da preservação da natureza os mexicanos jogam bonito. ow.ly/y7eYh 3 years ago
  • Copa do Mundo das áreas protegidas: Irã. Com 1 vitória em Copas, também não vai bem se o assunto é áreas protegidas. ow.ly/y47GD 3 years ago
  • No centro das políticas ambientais brasileiras está o MMA. Entenda qual o seu papel. ow.ly/y47CM 3 years ago
  • Relatório indica lacunas no monitoramento de qualidade do ar. População tem pouca informação sobre emissões. ow.ly/xOLbG 3 years ago
  • Livro mostra como usar integralmente os alimentos e incentiva a redução do lixo orgânico residencial. ow.ly/xGVz6 3 years ago

%d blogueiros gostam disto: