Uma penny-farthing nas ruas de São Paulo

Wilson Gomes Jazz e uma das raras penny-farthings utilizadas como transporte no Brasil. Foto: Daniel Santini

A penny-farthing é uma das primeiras bicicletas da história. Trata-se de um modelo clássico, com uma roda gigante e outra pequena. O nome faz referência à diferença de tamanho de duas moedas britânicas, o penny e o farthing (veja foto na Wikipédia). São bikes raríssimas, hoje fabricadas prioritariamente só por encomenda. O modelo é objeto de cobiça de colecionadores.

O músico Wilson Gomes Jazz tem quatro delas e as utiliza como transporte em São Paulo. “Rodo quatro vezes por dia”, diz o músico, que mora em Pinheiros e pode ser encontrado cedinho passeando com as suas bikes clássicas em locais como o Parque do Ibirapuera.

“Como eu viajo muito, vejo muita gente andando com elas. Teve um ciclista que deu uma volta ao mundo em uma dessas”, conta. Rodar com uma bicicleta com a roda gigante exige manutenção constante, cuidado e atenção. “Se os raios não estiverem regulados, a roda dobra. Entorta como se fosse um S”, explica.

“Você aprende a observar. É preciso saber afinar os raios, como num instrumento. Minha roda estava entortando, tentei levar para mecânicos, ninguém descobria por que. Fui ver, e no garfo a ruela da direita tinha um milímetro de espessura a mais do que a da esquerda. Dá um desvio, é como uma flecha atirada em longa distância. Qualquer diferença, ela desvia, por mínimo que seja. A ruela deixava a rota torta e ninguém percebia”, explica.

“Para ter uma penny-farthing, o cara tem que estudar física e mecânica”, brinca o músico.

A penny-farthing na Avenida Sumaré. Foto: Daniel Santini

Delicadeza
A penny-farthing custa caro, mais de R$ 10 mil. Às vezes bem mais. No Brasil, pouquíssimos mecânicos-artistas fazem o modelo sob encomenda, nem sempre com resultados satisfatórios.

Mesmo no exterior a produção não é comum. Há fabricantes na Tazmania e em pouquíssimos outros países. A dica do Wilson Gomes Jazz é uma loja chamada Victory Bicycles, em Orlando, nos Estados Unidos. Ele adianta, porém, que não é simples importar uma penny-farthing, há taxas e o transporte costuma ser problemático. “Uma opção é mandar fazer o corpo aqui e importar as rodas”, explica. “Mas mesmo assim é caro e nem sempre dá certo. Já encomendei uma que não funcionou, a roda dobrava. Os raios, aliás, tem que ser cruzados. Assim eles são bem mais fortes que os retos.”

As penny-farthings modernas são bem mais leves que as antigas. Hoje, os modelos pesam cerca de 14 kg. As antigas pesavam 46 kg. “Imagina carregar tanto peso. Quando as pessoas caiam, quebravam o braço ou a perna, era sempre assim”, diz o músico, que ressalta que, mesmo com os avanços, não é tão simples assim pedalar uma bike com dimensões tão pouco comuns.

“Se não souber andar, é acidente na certa. Mesmo se souber andar tem uns acidentes. É legal, mas você tem que treinar os tombos antes. Se souber cair, vai ser um tombaço, mas o máximo que acontece é a roda entortar”, detalha. “Pedalar nela ativa muito o cérebro. É preciso prestar atenção nos sons, ter atenção total e evitar impulsos. Qualquer buzinadinha, se você esquivar e jogar o peso, a bicicleta vai”, completa.

Achou loucura pedalar em uma dessas? Leia sobre a estética do medo e pense no que um músico pedalando uma penny-farthing provoca ao passear por um bairro. Bicicletas, definitivamente, são divertidas e inspiradoras.

Dúvidas sobre a penny-farthing? O Wilson Gomes Jazz pode ser contatado no e-mail Wilsongomes9@hotmail.com e tem um site bacana em que dá para ver seu trabalho como músico: http://www.wilsongomes.net/.

Leia mais sobre a penny-farthing na wikipedia (em inglês).

Anúncios

7 Responses to “Uma penny-farthing nas ruas de São Paulo”


  1. 1 matiasmm 07/01/2011 às 6:56 pm

    O que ele provoca, harmonia. É músico, de jazz, no som e na vida.

  2. 2 Sílvio 09/01/2011 às 10:03 am

    Só o choque que as pessoas têm ao ver uma bicicleta tão incomum já provoca um caminho para a mudança.

    Andar de bicicleta na sua cidade muda sua visão sobre ela. Muda sua vida.

    Parabéns Wilson.

  3. 3 Willian Cruz 09/01/2011 às 11:11 am

    Conheci o “Wilson Gomes Jazz” em um dia de semana pela manhã, no início de dezembro, no Parque do Ibirapuera, quando eu ia para o trabalho. Ele me ofereceu para dar uma voltinha, mas fiquei com receio de cair e recusei. 🙂 Peguei o telefone dele para fazer uma entrevista, mas havia outros assuntos na fila e acabei não o fazendo. E agora nem preciso, o texto aqui do Outras Vias ficou ótimo! 🙂


  1. 1 Pedalando à lá Penny-farthing | 10porhora Trackback em 11/01/2011 às 4:18 pm
  2. 2 Penny Jazz Farthing « FIXA SAMPA Trackback em 12/01/2011 às 4:12 am
  3. 3 Qual foi a melhor época de São Paulo? {Promoção} | Papo de Homem – Lifestyle Magazine Trackback em 28/01/2011 às 10:37 am

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

Junte-se a 55 outros seguidores

janeiro 2011
S T Q Q S S D
« dez   fev »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Dica de leitura

compartilhe ideias

Quando uma cidade congestiona é preciso pensar alternativas de trânsito; discutir, dividir caminhos e dialogar. Ocupe este espaço.

Creative Commons License

outras vias no twitter

((o))eco no twitter

((o))ecocidades no twitter

  • Copa do Mundo das áreas protegidas: México. No campo da preservação da natureza os mexicanos jogam bonito. ow.ly/y7eYh 3 years ago
  • Copa do Mundo das áreas protegidas: Irã. Com 1 vitória em Copas, também não vai bem se o assunto é áreas protegidas. ow.ly/y47GD 3 years ago
  • No centro das políticas ambientais brasileiras está o MMA. Entenda qual o seu papel. ow.ly/y47CM 3 years ago
  • Relatório indica lacunas no monitoramento de qualidade do ar. População tem pouca informação sobre emissões. ow.ly/xOLbG 3 years ago
  • Livro mostra como usar integralmente os alimentos e incentiva a redução do lixo orgânico residencial. ow.ly/xGVz6 3 years ago

%d blogueiros gostam disto: