Arquivo para 7 de janeiro de 2011

Uma penny-farthing nas ruas de São Paulo

Wilson Gomes Jazz e uma das raras penny-farthings utilizadas como transporte no Brasil. Foto: Daniel Santini

A penny-farthing é uma das primeiras bicicletas da história. Trata-se de um modelo clássico, com uma roda gigante e outra pequena. O nome faz referência à diferença de tamanho de duas moedas britânicas, o penny e o farthing (veja foto na Wikipédia). São bikes raríssimas, hoje fabricadas prioritariamente só por encomenda. O modelo é objeto de cobiça de colecionadores.

O músico Wilson Gomes Jazz tem quatro delas e as utiliza como transporte em São Paulo. “Rodo quatro vezes por dia”, diz o músico, que mora em Pinheiros e pode ser encontrado cedinho passeando com as suas bikes clássicas em locais como o Parque do Ibirapuera.

“Como eu viajo muito, vejo muita gente andando com elas. Teve um ciclista que deu uma volta ao mundo em uma dessas”, conta. Rodar com uma bicicleta com a roda gigante exige manutenção constante, cuidado e atenção. “Se os raios não estiverem regulados, a roda dobra. Entorta como se fosse um S”, explica.

“Você aprende a observar. É preciso saber afinar os raios, como num instrumento. Minha roda estava entortando, tentei levar para mecânicos, ninguém descobria por que. Fui ver, e no garfo a ruela da direita tinha um milímetro de espessura a mais do que a da esquerda. Dá um desvio, é como uma flecha atirada em longa distância. Qualquer diferença, ela desvia, por mínimo que seja. A ruela deixava a rota torta e ninguém percebia”, explica.

“Para ter uma penny-farthing, o cara tem que estudar física e mecânica”, brinca o músico.

A penny-farthing na Avenida Sumaré. Foto: Daniel Santini

Delicadeza
A penny-farthing custa caro, mais de R$ 10 mil. Às vezes bem mais. No Brasil, pouquíssimos mecânicos-artistas fazem o modelo sob encomenda, nem sempre com resultados satisfatórios.

Mesmo no exterior a produção não é comum. Há fabricantes na Tazmania e em pouquíssimos outros países. A dica do Wilson Gomes Jazz é uma loja chamada Victory Bicycles, em Orlando, nos Estados Unidos. Ele adianta, porém, que não é simples importar uma penny-farthing, há taxas e o transporte costuma ser problemático. “Uma opção é mandar fazer o corpo aqui e importar as rodas”, explica. “Mas mesmo assim é caro e nem sempre dá certo. Já encomendei uma que não funcionou, a roda dobrava. Os raios, aliás, tem que ser cruzados. Assim eles são bem mais fortes que os retos.”

As penny-farthings modernas são bem mais leves que as antigas. Hoje, os modelos pesam cerca de 14 kg. As antigas pesavam 46 kg. “Imagina carregar tanto peso. Quando as pessoas caiam, quebravam o braço ou a perna, era sempre assim”, diz o músico, que ressalta que, mesmo com os avanços, não é tão simples assim pedalar uma bike com dimensões tão pouco comuns.

“Se não souber andar, é acidente na certa. Mesmo se souber andar tem uns acidentes. É legal, mas você tem que treinar os tombos antes. Se souber cair, vai ser um tombaço, mas o máximo que acontece é a roda entortar”, detalha. “Pedalar nela ativa muito o cérebro. É preciso prestar atenção nos sons, ter atenção total e evitar impulsos. Qualquer buzinadinha, se você esquivar e jogar o peso, a bicicleta vai”, completa.

Achou loucura pedalar em uma dessas? Leia sobre a estética do medo e pense no que um músico pedalando uma penny-farthing provoca ao passear por um bairro. Bicicletas, definitivamente, são divertidas e inspiradoras.

Dúvidas sobre a penny-farthing? O Wilson Gomes Jazz pode ser contatado no e-mail Wilsongomes9@hotmail.com e tem um site bacana em que dá para ver seu trabalho como músico: http://www.wilsongomes.net/.

Leia mais sobre a penny-farthing na wikipedia (em inglês).

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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