Fogos de artifício

Artifício: Aquilo que é artificial, não natural, postiço, fingido…
.: definição do Aurélio

 

As fotos* que ilustram este texto são do fotógrafo Luiz Alves, de Brasília, que gentilmente autorizou a reprodução no OutrasVias. (clique na imagem para ver mais do trabalho dele no Facebook)

Cena 1
.: Insônia. De madrugada, na TV, uma daquelas propagandas ligue-e-compre-agora-mesmo-com-desconto mostra um casal malhado, ele um contador, ela uma professora. O apresentador ressalta com entusiasmo que para ficar com o corpo assim não é necessário fazer nada, apenas subir no aparelho fantástico que fica tremendo sem parar. “Sem nenhum esforço”, destaca. Uma hora na máquina fantástica equivale a não sei quanto tempo correndo.

E o homem e a mulher sobem e ficam com o corpo inteiro tremendo. Ela sorri com as bochechas balançando enquanto a máquina treme. Imagens desconexas, confusas, os dois na praia, depois na máquina balançando. Ele aparece flácido em um primeiro momento, depois, num passe de mágica, torna-se quase um halterofilista.

Cena 2
.: Imbuídos do tal espírito de Natal, milhares de pessoas compram loucamente na Rua 25 de Março, no centro de São Paulo. O comércio é tão intenso que nas ruas se acumulam caixas e caixas de papelão, sacos e embalagens das mais diversas. Todos querem presentear, agradar o próximo, fazer do mundo um lugar melhor. É Natal.

O dia acaba e é a vez dos catadores ocuparem a rua (veja fotos e leia “O Papelão da 25” no Ecocidades). O lixo é revirado até por crianças e material que pode ser aproveitado e seria descartado, é selecionado para reciclagem. Sem políticas públicas adequadas, são os moradores de rua os únicos que minimizam o desperdício cotidiano nos grandes centros urbanos. Até as crianças trabalham.

Cena 3
.: Avenida Paulista, o ápice da decoração de Natal da cidade mais rica do Brasil. Os carros passam devagar, motoristas e passageiros se ajeitam para, com celulares ou câmeras portáteis retratarem as luzes coloridas que iluminam prédios inteiros. No dia 25, o congestionamento na região chegou a 25 km, segundo estimativa da Companhia de Engenharia de Tráfego (no G1). Detalhe: a Avenida Paulista não tem 3 km de extensão.

Nas calçadas, turistas e moradores trocam cotoveladas para chegar mais perto dos bancos, onde estão renas, pinheiros, duendes e neve, além de bonecos gigantes de Papai Noel. Nas calçadas também, moradores de rua esticam as mãos para pedir moedas e comida. Um deles grita pela minha lata de cerveja. Ele tem um saco preto, cheio de latas de cerveja. Policiais e seguranças privados de terno garantem em cada esquina o frágil equilíbrio entre o Natal miserável e o Natal milionário. O carro da Força Tática passa devagar e eu me sinto mal por estar de chinelo.

Cena 4
.: Preso no congestionamento em direção a praia. O carro fica apertado, as paredes dos túneis parecem encolher na minha direção, a luz artificial me dá dor de cabeça, estou sufocado. Não dá para ver a paisagem, não dá para ver a mata; não dá para fazer nada, só segurar o carro para não passar os 80 km/h estabelecidos como limite de velocidade. Asfalto, concreto, asfalto. 

A concessionária que cuida do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI), principal rota de ligação rodoviária entre São Paulo e o litoral, chama-se Ecovias. Não são permitidas bicicletas na pista, salvo em situações especiais após muita negociação. Na via “ecológica” só são aceitos carros.

* Apesar do título, nenhuma das fotos desta página é de fogos de artifício. As luzes foram captadas em um ensaio do fotógrafo Luiz Alves na Fonte da Torre, em Brasília. Este blog não se entusiasma com fogos de verdade, não se anima com explosões e nem simpatiza com a ideia de alimentar cadeias produtivas que muitas vezes envolvem fábricas clandestinas e trabalho infantil. As cores são luzes na água, só isso. Perdão pelo artifício.

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3 Responses to “Fogos de artifício”


  1. 1 Álvaro Diogo 30/12/2010 às 12:59 pm

    Cara, demais!

    Detesto fogos de artifício e adorei as fotos e as crônicas. Valeu pelo presente.

    Abraços!

  2. 3 Juliane Oliveira 02/01/2011 às 9:01 pm

    Eu ia morrer de rir usando uma maquina dessa de tremer pra ficar ‘durinha’. Mil vezes a minha bicicleta. Bom saber que vc tambem nao se entusiasma com fogos. Uma gande balela pra enfeitar o ceu. Prefiro o show gratuito das estrelas todas as noites daqui da minha janela ou de uma praia, sem riscos.

    Bom #2011


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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