Noite de Natal

Nas estradas estaduais de São Paulo, entre sexta-feira, 24 de dezembro, e domingo, dia 26, foram 36 mortos e 689 feridos em nada menos do que 1.063 acidentes, de acordo com a Secretaria de Transportes. Nas Federais em todo Brasil, foram 117 mortos e 1.361 feridos em 1.884 acidentes*. Não há levantamentos nacionais sobre o total de mortos e feridos (a soma dos acidentes nas rodovias estaduais e federais) nos três dias do feriado de Natal – os dados são levantados pelas Polícias Rodoviárias Estaduais e Federais e divulgados separadamente, em datas diferentes e sem nenhuma coordenação. Em alguns estados, sequer há a preocupação em registrar e tabular os números; nenhum órgão federal dá a devida atenção à situação caótica nas estradas federais e estaduais do País.

Não há levantamentos completos nacionais, mas o que aconteceu em São Paulo está longe de ser exceção ou eventualidade. Todo feriado morrem centenas de pessoas em todo o Brasil – constante que talvez torne inadequada a palavra acidente – as mortes são inerentes de sistemas que priorizam transporte individual privado e não soluções coletivas de deslocamento. Enquanto o Brasil continuar sendo rasgado por estradas e não ferrovias, a variável se manterá estável: toda vez que o trânsito aumentar, perderemos o mesmo tanto de gente que morreria se um avião caísse. Não é exagero, fiz o levantamento no Carnaval de 2009, na unha, telefonando para as polícias rodoviárias federais e estaduais de todos os Estados: na ocasião, morreram 262 pessoas, gente suficiente para encher um Boeing 787.

Se caísse um avião todo feriado, talvez a situação mudasse, aliás.

Atropelamento e fuga
Escrever sobre números é tarefa ingrata e nem sempre dá para transmitir a dimensão da gravidade de uma situação sem contar situações particulares, sem dar cor e cara para as vítimas; falar da dor de uma morte, com a devida contextualização, pode ajudar a entender a dor de 36 mortes. Ou de centenas de mortes.

Não queria escrever sobre tristeza ou acidentes no Natal. A previsão do pessoal do Ipea de 40 mil mortes nas estradas em 2011 já tinha pesado. Mas aí veio o relato sobre a morte de Serbino Martins Vilhalva na madrugada do Natal. Trata-se de um adolescente Kaiowá Guarani,  de 15 anos, que, em meio à disputa por terras no Mato Grosso, vivia acampado com a família e outros integrantes da comunidade Laranjeira Nhanderu, na beira da BR-163, no município de Rio Brilhante.

A presença dos Kaiowás Guaranis ao lado da rodovia é uma ironia por si só. Os povos foram expulsos ou empurrados para fora de suas terras pela expansão da cana-de-açúcar e da soja no estado – e para escoar as safras e facilitar o avanço dos latifúndios no Estado é que foi aberta a estrada na beira da qual agora vivem enquanto aguardam a demarcação de terras.

O adolescente morreu atropelado a 500 metros de onde a família comemorava a data. É o terceiro da comunidade atropelado. O motorista sequer parou após atingi-lo.

Na noite de Natal.

* O levantamento da Polícia Rodoviária Federal foi incluído no post 12h47, após a publicação. Apesar de ser um levantamento nacional, ele abrange apenas as estradas federais e, por isso, é apenas um indicativo da gravidade da situação. A PRF tem feito esforços para minimizar o caos rodoviário, mas, sem políticas nacionais para enfrentar (e resolver) o problema, a margem de atuação dos policiais é limitada.

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2 Responses to “Noite de Natal”


  1. 1 Helton 27/12/2010 às 1:17 pm

    Santini,
    Uma coisa que sempre penso e que não vejo falar é a velocidade máxima que um automóvel pode atingir.
    Você já parou para pensar que, no Brasil, a maior velocidade permitida em estradas é 120km/h?
    Então por que os carros chegam a mais de 200km/h? Não é a mesma coisa que vender um produto para infringir a lei?
    Na semana passada, na avenida Giovani Gronchi, morreram três garotos em um carro que, segundo testemunhas, estava a mais de 140km/h.
    O que falar sobre isso?
    Ai vem um monte de propagandas de montadoras se dizendo responsáveis, alinhadas à sustentabilidade, etc…
    Mais responsáveis seriam se limitassem a velocidade de seus veículos de forma a não permitirem que pessoas se matem dentro de seus produtos.
    Um abraço e parabéns pelo post.


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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