No automático

Neste Natal é possível comprar em lojas especializadas miniaturas de escavadeiras automáticas. São brinquedos movidos a pilhas ou baterias em que crianças e adultos podem, com o simples mover de dedos em um controle-remoto, cavar buracos na areia e armar castelos ou edifícios improváveis com os grãos cuidadosamente ajeitados pelo robô. Não é necessário sujar as mãos, arranhar os joelhos na praia e sequer sair da cadeira. Tudo automático.

Vi a novidade em destaque em uma vitrine e não consegui deixar de lembrar os incontáveis castelos de areia erguido em um empurrar e escavar cuidadoso atento ao mar ao lado do meu pai. Talvez tenham sido os melhores momentos da minha vida; arranhar os dedos na terra, gritar com as ondas destruidoras se aproximando, pular e correr em busca de água com balde de plástico, cansar de tanto fuçar na areia. Minhas baterias eram picolés e o sorriso carinhoso do meu velho. Ele construiu o verão em mim com tanta força que sempre que chega dezembro me invade bom humor incontrolável, uma vontade de viver, me mexer, de correr, de brincar, ainda que adulto. Não sei como teria sido se tivesse crescido pilotando robôs em vez de baldes e pazinhas de plástico.

O filme Wall-e traz a caricatura de uma sociedade totalmente automatizada. Em vez de caminhar, as pessoas andam em cadeiras que flutuam. Não é necessário mover mais do que dedos para ser servido ou interagir com os outros. É ficção, apenas um desenho animado com enredo engraçadinho? É mesmo? Você costuma se mexer no seu dia-a-dia?

Wall-e é genial.

Motorizados
Não é o primeiro Natal que brinquedos automatizados me assustam. Nos parques das grandes cidades brasileiras há anos é possível encontrar crianças “brincando” de andar em carrinhos e motinhas motorizadas, sem precisar pedalar ou sequer colocar os pés no chão.

O jeito como crianças se comportam deveria ser considerado o principal índice para avaliar a sanidade de uma sociedade. Se a presença de pequenos nas ruas indica quão humana são as cidades, a maneira como eles brincam (e se eles brincam), serve de sinal para saber se ainda vivemos.

Ou se entramos no automático.

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3 Responses to “No automático”


  1. 1 Lucia Lopes Cominatto 15/12/2010 às 6:01 pm

    Tudo o que aí escreveu reflete a mais pura verdade. Nossas crianças estão perdendo uma infância que poderia ser tão bonita e divertida para viverem uma vida robotizada. A tecnologia avançada da atualidade está tornando adultas, antes do tempo, as crianças de hoje. Quantas meninas vemos maquiadas, de salto alto, com roupas semelhantes às de suas mães… Há tempos que não vemos a garotada subindo em árvores,jogando bolinhas de gude ou brincando de roda, pique, pega-pega e outros divertimentos sadios da infância… É uma pena! Já não se “fazem” crianças como antigamente. Hoje, passam horas e horas nos jogos violentos de computador ou num bate papo agressivo e perigoso com falsos amigos e desconhecidos. É preciso darmos um basta para salvarmos as nossas crianças de hoje.
    E, para completar, parabéns pelo seu artigo. Achei excelente. Vivendo no automático que futuro se espera? Onde ficam o raciocínio e a aquisição de bons princípios?

  2. 2 Tacizio 15/12/2010 às 7:25 pm

    E o que dizer então quando nós, agora sexagenários, éramos crianças.
    Época em que que a televisão estava engatinhando. Época em que as
    crianças brincavam na rua sem medo. Nossa bola de futebol era feita de uma meia velha recheada com jornal ou mesmo uma tampinha de cerveja. Nosso campinhno era na rua ou na calçada e as traves eram duas pedrinhas.. Nossas chuteiras eram nossos pés descalsos. Rodar pião, empinar capucheta( pipa feita só com jornal, sem varetas), jogar bolinha de gude, brincar de mana-mula.Jogar taco. Nosso carro de corrida era um carretel conduzido por uma varinha de arame e rodar com pneu velho em volta do quarteirão. Correr com um cabo de vassoura que fazia o papel de nosso cavalo alazão. Pular corda com as meninas. Não precisávamos entrar no automático.
    Vivíamos felizes!!! Agiamos como crianças.

  3. 3 Fernando Adamo 16/12/2010 às 5:44 am

    A ideia inicial da automacao era fazer com que o ser humano tivesse mais tempo para se dedicar ao lazer e a familia. Acho que os engenheiros nunca pensaram sobre o efeito da automacao em uma sociedade onde o volume de trabalho eh volatil, que se ajusta ao recipiente chamado “tempo” conforme a necessidades externas (i.e. nao pessoais). Ou seja, as maquinas fazem a atividade de dez pessoas em uma fracao de segundos e ao invez de tirarmos proveito disso para uma jornada de trabalho reduzida, aumentamos drasticamente a quantidade de trabalho que pode ser realizada numa jornada tradicional (isso quando nao a ultrapassamos). Por isso a sensacao do tempo estar passando cada vez mais rapido. Estamos num ritmo acelerado, cansados, e o pior… estamos nos tornando maquinas. Vemos coisas novas todos os dias. Temos dificuldades em lidar com a diversidade e a aleatoriedade. Acho que nao sabemos mais o que dizer aos nossos filhos. Tentamos passar adiante aquilo que aprendemos num tempo onde os conceitos sao bem diferentes daqueles da nossa infancia.
    Como dizia o mestre Yoda: “O futuro em constante movimento estah”… Ainda ha uma esperanca.


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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