Diferentes maneiras de ver o Natal

Sexta-feira à tarde, Avenida 23 de Maio congestionada como de costume. No canteiro central, a estátua em que um Papai Noel gigante em cima de uma bicicleta saúda os enfastiados motoristas. Do lado, em um cartaz amarrado em um poste, um desenho velhinho com sua barba branca e um capacete de ciclista e a mensagem “LIBERDADE”. Assim mesmo, em letras garrafais, quase uma provocação para os motoristas presos no trânsito.

Não precisa de carro para ver as luzes da Paulista. Foto: Caio Pimenta/PMSP

A decoração é parte do que a Prefeitura de São Paulo preparou para enfeitar a cidade em dezembro em parceria com empresas estatais e privadas. São Paulo ficou iluminada e colorida; se não toda a cidade, pelo menos as ruas e avenidas da região central (e mais rica). Há lâmpadas piscando em cores variadas, elementos decorativos e até estátuas gigantes de animais não tão comuns no Brasil como ursos, zebras, girafas, renas e pinguins. Os números, disponíveis na página especial criada para divulgar o Natal, impressionam. Não há menção de quanto custou preparar a festa toda, e nem de quanto foi gasto pelo governo e quanto foi gasto pelas empresas.

As justificativas para se usar verba pública na decoração e consumir tanta eletricidade com as luzinhas o mês inteiro é o retorno que em tese a cidade ganha não só por ficar mais bonita e agradável, como por atrair turistas. A iluminação e os enfeites funcionam como ímãs. E provocam congestionamentos.

Luzes em frente ao MASP, na Paulista. Foto: Caio Pimenta/PMSP

É bonito, fato, mas quem tem que passar de carro por alguns dos pontos em que estão as principais atrações turísticas sofre. Seja nos trechos vizinhos à árvore de Natal gigante do Parque do Ibirapuera, seja na região da Avenida Paulista, são filas e filas de motoristas esperando para poder fotografar as luzinhas coloridas espalhadas pela cidade.

Ou para estacionar e comprar. Os shoppings fervilham.

Alternativas
Há dois anos, ao retornar de uma tentativa frustrada de descer para Santos,  cruzei a Paulista de ponta a ponta de bicicleta*. Era um sábado e, as luzinhas decorativas se confundiam com as de freio de milhares de carros no meu caminho. A lentidão formou uma ciclovia natural e, com segurança, consegui atravessar em minutos a avenida. Pedalei com calma, curtindo a decoração, a cidade colorida.

 

Avenida Pacaembu iluminada. Foto Jefferson Pancieri/PMSP

Na semana passada fiz o mesmo na Avenida Sumaré. Fui devagar pela ciclovia esburacada e inadequada do canteiro central da avenida, vendo árvores brilhando em verde, vermelho, azul.

Em meio aos congestionamentos e estresse de shoppings e avenidas lotadas, dá para encontrar espaço e respirar com calma na cidade. Dá para pensar sobre os valores do Natal, o sentido em se falar em solidariedade, entrega, amor ao próximo. E o sentido em consumir, congestionar, poluir, brigar por espaço.

O que tem mais a ver com o Natal? Comprar um presente caro e não necessariamente útil ou gastar tempo pensando e preparando um presente? Que tal fazer da surpresa também uma mensagem, escolher algo que tenha significado, valor sentimental? E que tal dispensar a infinidade de embalagens e pacotes que, no final de toda fez lotam um canto da sala e, no dia seguinte, fazem volume nas lixeiras? Que tal cozinhar um presente?

Consumir, congestionar, poluir. Faz sentido para você?

— Na biblioteca do site tem alguns livros que podem virar presentes especiais. O Carteiro e o Poeta, por exemplo, pode ser dado junto com uma poesia do Neruda e um DVD do filme Il Postino. E, se, além de comprar um livro, você repassar outro para alguém que gosta? Faz mesmo sentido ter tantos livros parados na estante?

— As fotos desta página são de divulgação da Prefeitura Municipal de São Paulo e estão disponíveis aqui. Algumas ideias são resultado de influência direta de @luddista e @vmambrini.

* Depois de dois anos pressionando por uma rota para ciclistas até o litoral, temos avanços. Este ano, pela segunda vez, será liberado o percurso na Rota Márcio Prado, ligando São Paulo a Santos. E, se tudo der certo, o percurso pode tornar-se fixo e virar importante ponto de cicloturismo.

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2 Responses to “Diferentes maneiras de ver o Natal”


  1. 1 Iha 14/12/2010 às 3:27 pm

    É algo totalmente ilógico e nonsense pegar o carro para cruzar a Av. Paulista e ver a decoração de Natal preso numa lata de onde nem se consegue enxergar tudo.

    Caminhar ou ir de bike por lá é muito mais agradável, apesar da multidão que não me atrai, mas prefiro muito mais um mar de pessoas a um mar de veículos.

    Por falar em Márcia Prado, pretendo ir e vc? Vou te escrever no email pra tentar combinar! Abs


  1. 1 Iluminação de Natal, congestionamento de Natal | Vá de Bike! Trackback em 21/12/2010 às 9:22 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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