Paris, feminismo e bicicletas

Mulheres no pedal

Ontem Renata Falzoni foi homenageada com uma medalha na Câmara dos Vereadores de São Paulo pela energia bonita e inspiradora com que luta há décadas para transformar São Paulo em uma cidade mais justa e humana. Apesar do pique invejável, Falzoni não tem mais 20 e poucos anos. Ela pedala e distribuí esperança por aí faz tempo e, por tudo que já fez, tem importância histórica para a  consolidação do cicloativismo em São Paulo.

Baixe o áudio completo da cerimônia no site do vereador Chico Macena (PT)
Leia relato com vídeos no vadebike.org
Leia relato no Papel Eletrônico

Parabéns, mulher!

Sim, porque como mulher, Renata não enfrenta somente o asfalto seco e a fumaça áspera de uma cidade inóspita; não, encara também o machismo de uma sociedade que ainda vê a mulher como frágil e limitada. Não é a única. Pelo contrário, seja em coletivos como o das Pedalinas, seja em exemplos isolados, ela se multiplica na cidade, perturbando a ordem agressiva de disputa de espaços. São Paulo tem dezenas de Renatas hoje.

Um dia, se tudo der certo, a luta destas mulheres não fará mais sentido. O uso da bicicleta será tão corriqueiro que cicloativismo será uma palavra tão em voga quanto “brotinho”.

Paris
Em algumas cidades, as bicicletas já foram incorporadas e compreendidas como uma opção inteligente, barata e sustentável de transporte. Paris, por exemplo, não só dispõe de uma ótima infraestrutura (que, como Falzoni disse na Câmara, não se resume à construção de ciclovias, mas sim de um planejamento cicloviário com compartilhamento das pistas e farta sinalização), como também de um sistema de transporte público baseado em bicicletas, o Vélib. Homens e mulheres dividem o espaço sem tensão, sem cantadas idiotas, brigas corriqueiras e medo.

O papel das mulheres nas mudanças e na construção das mudanças foi decisivo, não só no trânsito. As bicicletas, aliás, também tiveram importância na consolidação do feminismo. Em Paris, a Bibliothèque Marguerite Durad organizou uma exposição que mistura fotografia e protagonismo das mulheres. Acompanhado de uma namorada fotógrafa feminista, não consegui escapar de gastar algumas horas na exposição.

E aproveitei para pinçar para gente dois destaques que são retratos de uma luta ainda longe de terminar. São Renatas dos dois últimos séculos.

Néva à bicyclette – 1898

Néva, dont on ignore le patronyme, assure à La Fronde la rubrique sportive, essentiellement consacrée aux courses hippiques et cyclistes. La pratique de la bicyclette par les femmes suscita d´innombrables controverses et joua un rôle déterminant dans l´évolution du costume féminin. La femme à vélo est à la Belle Epoque Identifiée à la femme émancipée, avide de liberté et d´espace.

(traduzindo) Néva, cujo sobrenome é desconhecido, garantiu para “La Fronda” a sessão esportiva, essencialmente dedicada às corridas de cavalos e de ciclistas. A prática da bicicleta pelas mulheres levou a incontáveis controvérsias e teve papel determinante na evolução da moda feminina. A mulher na bicicleta durante a Belle Epoque era identificada como a mulher antecipada, ávida de liberdade e espaço.

Mademoiselle Treuté – 1927

Mademoiselle Treuté, gagnante du cross-country féminin à Clamart

La compétition sportive touche de plus en plus de jeunes filles dans les années 1920, malgré des préjugés persistants sur la fragilité feminine.

(traduzindo) Senhorita Treuté, ganhadora do cross-country feminino en Clamart

A competição desportiva envolve cada vez mais mulheres nos anos 1920, apesar dos prejuízos persistentes sobre a fragilidade feminina.

* As fotos e os textos em vermelho dessa página são reproduções de material exibido na exposição.

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3 Responses to “Paris, feminismo e bicicletas”


  1. 1 Fabricio do Prado Semmler 08/12/2010 às 7:34 pm

    Que interessante! Não sabia que as bicicletas foram tão importantes no passado, e ainda continuam sendo até hoje. Que máquina incrível, tão simples e tão útil.

  2. 2 Marcelo Iha 08/12/2010 às 8:16 pm

    Seria ótimo ter mais mulheres de bicicletas nas ruas!

    Li ou ouvi comentário de alguém outro dia que, inconscientemente, os motoristas – pelo menos os homens – tomam mais cuidado ao verem e ultrapassarem meninas pedalando porque – em princípio – elas são “mais frágeis”.

    Claro que trata-se de uma mentalidade totalmente machista e sem lógica. Na verdade, qualquer pessoa numa bicicleta é muito mais frágil se comparado a uma máquina ambulante de uma tonelada.

    Mas vejamos pelo lado bom, a cada vez que mais motoristas tomam mais cuidado por se depararem com mais meninas em bikes, melhor para todos os ciclistas, para toda a sociedade e para a cidade. Avante no pedal, garotas!

    Em tempo: o Cine Belas Artes fará edição do último Noitão do ano nesta sexta-feira (10/12) com filmes especialmente feitos ou protagonizados por mulheres.


  1. 1 A medalha é de tod@s « Trackback em 08/12/2010 às 4:44 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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