Quem paga a conta?

Cena típica em Roma

Neste e nos próximos textos seguem algumas impressões sobre trânsito, bicicletas, políticas públicas de deslocamento e transporte, resultado de observações, conversas e discussões durante a viagem no último mês à Europa. Nunca tinha atravessado o Atlântico e, apesar de já ter lido e pesquisado sobre alternativas adotadas no Velho Mundo, não tinha a real dimensão do potencial de modelos completamente diferentes aos que estamos acostumados no Brasil.

E olha que não fui para Dinamarca ou Holanda, onde o processo de humanização das cidades é considerado referência. Não, viajei para Roma e parte do sul da Itália, gastando um bom tempo na Sicília, e, depois, na rota de volta do voo, consegui parar alguns dias em Paris, na França. Passei por algumas das regiões mais pobres da Bota, andei de trem, metrô, ônibus, carro e bicicleta.

Como motorista, tive que aprender uma lógica de trânsito completamente da diferente da de São Paulo. Quando um pedestre quer atravessar, ele mal olha para os carros. Simplesmente põe o pé na rua e caminha, com a certeza de que todos diminuirão a velocidade para facilitar a travessia. É algo natural. Ninguém buzina, dá farol alto ou acelera ao ver um pedestre forçando a passagem no meio do tráfico pesado.

Restrição de estacionamento em Paris

Quem dirige, não só tem que redobrar a atenção com os pedestres, como também tem que se conformar com áreas de estacionamento bastante restritas e sempre pagas. Diferentes sistemas de zoneamento forçam quem optou pelo transporte privado individual a arcar com os custos de tal escolha e pagar pelo espaço ocupado na cidade.

Você quer liberdade para se locomover com um motor? Sem problemas, mas terá que contribuir para minimizar o efeito da poluição sonora, visual e do ar. É tão óbvio e faz tanto sentido que, de volta, fica difícil acostumar de novo com calçadas apertadas e carros espalhados por todos os cantos de São Paulo.

Ou com o medo das pessoas ao atravessar ruas, mesmo em faixas de pedestres. A necessidade de correr para não atrapalhar os carros, a fuga quase desesperada dos motoristas irritados com a interrupção do fluxo, o sagrado fluxo.

No Brasil, com o espaço público todo ocupado por veículos privados, a desigualdade e a falta de empregos fazem surgirem compensações distorcidas. Flanelinhas, os “guardadores” dos carros, se multiplicam nas ruas criando um sistema paralelo de cobrança pelo uso da cidade baseado em ameaças e medo. Quem não quer ter o carro riscado ou ver cara feia, paga.

E ai do político que tentar mudar tal lógica. O desgaste público de se adotar restrições de estacionamento ou taxas para o uso privado das ruas é enorme em uma sociedade acostumada ao automóvel como única e natural opção de deslocamento.

Dá para ser diferente

Em uma inversão de valores, todos pagam para os poucos que poluem e travam as cidades terem condições de continuarem a rodar.

P.S. – Difícil retomar o OutrasVias depois do excelente trabalho da Gisele Brito nas últimas semanas. Como esperado, ela não só dividiu a experiência de ciclista iniciante, como também tocou em pontos delicados da desigualdade do trânsito na capital e contribui com um olhar da periferia da cidade. Ela segue convidada a aparecer quando quiser e tem o espaço aberto para futuras colaborações não só neste aqui como também nas outras frentes do portal O Eco.

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3 Responses to “Quem paga a conta?”


  1. 2 Ana Paula 05/12/2010 às 5:31 am

    Sempre achei nosso trânsito estúpido, mas também não tinha a noção do quanto o da Europa é tão (tão tão tão) melhor antes de pôr os pés lá.
    Quando estão lá, todos brasileiros aprendem rapidinho e respeitam as regras (nem tão diferentes das nossas, que infelizmente estão só no papel). Mas o que me deixou muito decepcinada foi ouvir de dois brasileiros, em países diferentes, reprovação e “saudade” da forma como o trânsito é encarado no Brasil.
    O primeiro dizia não aguentar mais ver ciclistas pela frente. Não via a hora de chegar no Brasil e pegar um carro pra “dar o troco”. E o segundo achava um absurdo as taxas cobradas em Londres para que carros circulem em regiões centrais e mais movimentadas da cidade, o que aumenta os custos de usar um carro por lá.
    Continuo chocada com a forma como essas pessoas tratam o trânsito e a si mesmo (pois, afinal de contas, em algum momento todos somos pedestres). Mas ter visto tanta gente agindo coletivamente com bom senso e ver tantos movimentos a favor do trânsito de p.e.s.s.o.a.s surgindo no Brasil me deixa esperançosa =)

  2. 3 @umcarroamenos 06/12/2010 às 1:47 pm

    Eba! Bem-vindo de volta, e chegando já com um ótimo post. Parabéns também a Gisele, que cobriu muito bem a sua ausência…


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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