Passageiro vira abóbora

Na semana passada, uns amigos vieram de Brasília para assistir a um show. Nenhum deles conhecia bem a cidade e a maioria nunca tinha vindo a São Paulo. Talvez por isso estavam cheios de expectativas em relação a “cidade que não para”.

Saímos de um bar por volta das duas da manhã na Vila Madalena e tivemos que pegar táxis para chegar a outro lugar, na Consolação.  Como éramos muitos, precisamos de três carros e gastamos mais com deslocamentos (primeiro esse, depois o de ida para casa) do que com as bebidas que tomamos durante toda a noite.

Foto do Flickr de EduolimA

Segundo a SPTrans, a cidade conta com apenas 21 linhas diurnas (aquelas que circulam até altas horas da noite) e 30 linhas noturnas (aquelas que circulam exclusivamente na madruga). Parte significativa delas faz apenas a ligações entre terminais de ônibus, impossibilitando que pessoas que moram em bairros distantes desses terminais acessem entretenimento, lazer, cultura e trabalho por meio do transporte público coletivo.

O Metrô e os CPTM também não funcionam depois da meia-noite com a justificativa de que durante a madrugada os serviços passam por manutenção. Aparentemente, isso não vai mudar nos próximos anos, já que as novas linhas que estão sendo implantadas na cidade não contam com um sistema de trilhos que permitiria que alguns trens passassem por manutenção enquanto outros circulariam.

Ainda assim, as pessoas enfrentam a noite e trabalham e se divertem. Outra amiga tem a teoria de que a falta de metrô é responsável por uma parte significativa das bebedeiras. Segundo ela, se tivessem como ir para casa quando se cansam das baladas as pessoas beberiam menos. Não sei se tem fundamento, mas a quantidade de gente que acampa na frente do metrô aguardando o início das operações sempre me impressiona. Assim como me impressiona a velocidade com que circulam os “negreiros”, microônibus precários que atendem a vários trabalhadores nas Avenidas Faria Lima e 9 de julho e tantos outros lugares da cidade.

Muitas das pessoas que não querem ou não podem esperar até a volta da oferta desse serviço básico da Cidade usam essas restrição na sua mobilidade por aí como justificativa para comprar e usar automóveis particulares.

Fica evidente que a Cidade não para apenas para quem tem carro ou mora próximo as áreas que concentram as ofertas de lazer e pode fazer os deslocamentos a pé e para quem se arrisca de bike enfrentando o trânsito ainda mais hostil na madrugada.

por Gisele Brito

Ps: Amanhã, Daniel Santini está de volta. Foi ótimo poder escrever nesse espaço e interagir com os leitores. Aquele abraço e até o próximo encontro em outras vias.

 

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7 Responses to “Passageiro vira abóbora”


  1. 1 ogum777 30/11/2010 às 11:19 pm

    gisele, eu prefiro pedalar na madrugada. ando mais rápido.
    às vezes até espero fechar tudo.

    mas há regiões onde o movimento realmente não pára. a zona cerealista é um exemplo. é uma loucura ali de 3 a 4 horas da manhã.

    a cidade elegeu a madrugada como período em que apenas os + abonados, com carro, circulam. os + pobres, que esperem nas ruas o começo da operação comercial.
    em alguns casos, são os trabalhadores, garçons de restaurantes que fecharam às 2 da manhã, por exemplo, que esperam tudo voltar a funcionar para ir para casa dormir.

  2. 2 Willian Cruz 01/12/2010 às 1:13 pm

    Estava comentando isso esses dias mesmo. A cidade te clonvence a ter um carro. Se você gosta de sair à noite (e não usa bicicleta), é obrigado a usar táxi ou ter um carro/moto. Isso tem que mudar.

  3. 3 Fellipe F. 01/12/2010 às 11:02 pm

    A linha terminal Dom Pedro/terminal Amaral Gurgel é realmente muito util para a cidade na madrugada. Quantas vezes precisei ir da beira do Tamanduateí até debaixo do Minhocão às 4:25 da manhã. Esse planejamento é realmente barbaro!
    Mas falando sério agora, em Belo Horizonte, a cidade que sempre para, todas as linhas de onibus não param de madrugada. Sofrem um duro golpe de as vezes até 1:30h entre um onibus e outro, mas mesmo assim permanecem servindo a cidade. Acho uma alternativa significativa e de fácil implantação. O cidadão pelo menos tem a certeza que estará a caminho em no máximo uma hora e meia.
    Mais politicas publicas sérias para transporte publico, menos festinha de inauguração de Linha Amarela que só foi inaugurada das 9h às 15h, quem dera a população trabalhasse apenas das 9 as 15, como o Kassab.

  4. 4 Tom Bike 02/12/2010 às 9:34 am

    XL 🙂 Gostei muito dos seus textos. Ótimo trabalho! [ ]s Oton Barros

  5. 5 Luciano 03/12/2010 às 5:22 pm

    O transporte público é, para a maioria da elite, o meio de transporte para levar os empregados ao trabalho.

  6. 7 Maria Leticia de Souza Paraiso 14/01/2011 às 5:42 am

    Apesar dos problemas da falta de transporte noturno gostaria de enfatizar que ainda bem que estes seus amigos não estavam em Brasília,porque lá somente a seis anos o metro começou a circular no fim semana e entrar no Plano Piloto .Brasília além das longoas distancias é a cidade mais segregada que conheci.E andar um puco é muito bom!!


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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