O mundo é diferente da ponte pra cá

"Ano que vem, seremos eu e a magrela"

Tatiana Montorio é professora de geografia e se impressiona com o tempo que leva para fazer um deslocamento sul-sul, entre sua casa, antes da ponte do Socorro, e a escola onde dá aulas, do outro lado – cerca de uma hora e meia no horário de pico. O desgaste é tanto que ela planeja pedir transferência no próximo ano. “Eu adoro meus alunos, a escola, mas a dificuldade para chegar lá é um dos fatores determinantes para que eu migre”.

Tati pretende lecionar em uma escola próxima a sua casa e aderir à bicicleta. “Atualmente eu não posso fazer isso porque depois do trabalho na escola, vou para outra jornada, no Ibirapuera. Normalmente carregada de livros, mapas, provas, e volto tarde. Mas, ano que vem, seremos eu e a magrela”.

Ela conta que mora próximo à represa da Guarapiranga e que, se pudesse, “não atravessaria a ponte do Socorro por nada”, mas vê dificuldade nisso. “Eu adoro acordar com passarinho cantando, abrir a janela e ver um monte de árvores, a represa. Mas se eu quero simplesmente ir ao cinema, tenho que ir pro lado de lá”.

Segundo ela, que mora com os pais e tem pesquisado aluguéis, os preços para alugar casas na região são incompatíveis com a oferta de bens urbanos oferecida. “O cara paga a mesma coisa por uma casa na periferia do que pagaria pela locação de um apartamento no centro. Só que ele não tem acesso aos mesmos equipamentos urbanos. Com aumento da renda e programas como o Minha Casa Minha Vida, as pessoas continuam morando na periferia, mas cada vez buscam mais o centro”. E como essa “busca” não é amparada por um sistema de transportes adequado, a aquisição de um automóvel é apontada pela população excluída das benesses da urbanidade como uma necessidade básica.

Há alguns dias, o comentarista Luiz Carlos Prates atribuiu os acidentes de trânsito ocorridos em Santa Catarina no feriado do dia 15 aos “miseráveis” e “ignorantes” devido à “espúria” política de “popularização do automóvel através do crédito”. Depois, respondeu às diversas críticas que recebeu por conta dos comentários preconceituosos dizendo que não poderia “aceitar que uma pessoa extremamente carente subverta a ordem das necessidades e dos desejos”.

A popularização do automóvel começou a ocorrer no Brasil nos anos 50 e 60 e hoje, como sabemos, ele está impingido de valor simbólico que atribui status àqueles que o possuem. Eu imagino que os “miseráveis” a que se refere o comentarista são, em boa parte, a população para quem a Cidade, em seu entendimento pleno, está bloqueada. Ele também disse: “desejar, todos desejamos. Necessitar, poucos necessitamos”; mas, ao contrário do que fez entender, quem necessita menos, por estar mais próxima da Cidade plena, é exatamente a parcela da população que concentra o maior número de carros.

O carro é um bem que se quer, mesmo quando não se precisa. Romper com a cultura do “querer” é um grande desafio. O comentarista não culpou o excesso de carros e a cultura motorizada, mas os motoristas – e não qualquer motorista, só os “miseráveis e ignorantes”, numa clara referência a classe social. Culpou o indivíduo, e não a ausência de políticas públicas voltadas para a mobilidade e segurança no trânsito.

Tati não quer carro nenhum e resiste bravamente às necessidades reais em seu cotidiano em uma cidade que – como tantas outras – exclui, segrega e concentra. O mundo é diferente da ponte pra cá. Mas não se sabe até quando. Tomara que o prazer de pedalar seja avassalador e ao menos atenue o problema.

 

por Gisele Brito

 

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5 Responses to “O mundo é diferente da ponte pra cá”


  1. 1 Pedaline 23/11/2010 às 11:52 am

    é dificil pensar em quem mora longe do trabalho.. realmente.. planejamento urbano tb deveria contemplar que fosse mais vantajoso morar perto do trabalho.. assim reduziria o tempo de deslocamento.. enfim.. debate longo!
    fato é.. para alguns o carro é uma necessidade real, ainda bem que existem pessoas preferem resistir bravamente às essas imposições

  2. 2 Rafaela 23/11/2010 às 2:35 pm

    É impressionante ser pedestre em São Paulo e observar o quanto a gente tem que “justificar” essa escolha a todo momento. Quase todo mundo pode ter um carro e quase ninguém aceita que não se tenha. Penso que qualidade de vida em Sampa é morar perto do trabalho e poder ir caminhando. O problema vem lá de trás, no “não planejamento”. E a solução para o caos no trânsito só virá com uma mudança cultural e comportamental.

  3. 3 Iara 23/11/2010 às 3:08 pm

    Oi Gi!

    Então, essa coisa do “querer” é importantíssima. O carro deixa de ser um meio de transporte pra ser um objeto de status. Carro = pernas. Acho inadmissível que tenha se transformado nisso. Carro não é necessariamente ruim, não é um vilão. Mas a cultura que o trasnformou em o principal meio de deslocamento é perversa. A cultura que faz com o automóvel seja o protagonista do (não) planejamento urbano está matando a cidade…
    Ah! E parabéns pra Tati! 🙂

  4. 4 Marcelo Iha 23/11/2010 às 11:48 pm

    A relação e sensação de pertencimento a um lugar mudam totalmente quando se vê a paisagem, a natureza – natural ou artificial – as pessoas e o mundo em cima de duas rodas.


  1. 1 Quem paga a conta? « Outras Vias Trackback em 03/12/2010 às 10:57 am

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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