Andando no Futuro

A bicicleta passou dias debaixo de sol e chuva, daí o cadeado emperrou. Chamei um monte de gente para tentar solucionar o problema, mas só uma bicicleteira de verdade sabia o macete do cadeadinho de senha. Finalmente, ontem, a magrela foi libertada.

Para que a culpa não me matasse, improvisei uma lanterna que levei uns vinte minutos para prender. E fui.

Aprendi a andar de bike aos 9, 10 anos com uma Monark rosa emprestada que tinha cestinha e garupa. A rua de casa era tranquila, mas aos sábados as crianças eram proibidas de ficar bobeando por ela. Havia uma feira na rua de cima e os carros, um ou dois a cada hora, usavam o meu “playground” como desvio. Os adultos achavam o sábado muito perigoso para andar de bicicleta. A vida toda só pedalei por lá e pelo Parque do Ibirapuera. Por isso, no primeiro impulso de ontem, considerei estar indo em direção a uma grande burrada. Mas não tinha volta. Capacete na cuca, lanterna ligada. Go.

Senti muito a falta de um espelho retrovisor e de conhecer regras de trânsito, aquelas coisas de preferencial, de entender as placas, de saber quando era mão e quando era contramão. Confesso que fiz coisas que eu não acho legais. Em boa parte do caminho fui pela calçada. As estreitas calçadas dos pedestres!

Eu até tentei pôr em prática ensinamento do tipo andar no centro da via, mas não deu. Ainda mais porque eu não conseguia ver os carros, ônibus, caminhões e motos que vinham atrás de mim. Sempre que me sentia acuada, insegura, ia para a calçada.

Perto do metrô Marechal, trombei, roda dianteira com roda dianteira, com um outro ciclista que vinha na contramão. Ficamos lá, negociando com o olhar quem ia sair da frente do outro. Ele esperou não vir nenhum carro e seguiu pelo lado errado da rua. Mais à frente, a mesma situação se repetiu com outro ciclista.

Vários carros entraram sem dar seta, vários pedestres atravessaram com o sinal fechado para eles ou no meio da rua, passando bem na minha frente, como se eu não fosse um veículo. Vários ficaram visivelmente irritados com a minha presença na calçada.

E, de repente, do nada, eu avistei o Largo Santa Cecília! Eu já estava exausta desde a primeira esquina, já tinha comprado uma água e a perdido pelo caminho, nem sei como. Eu merecia uma cerveja! (e olha que eu nem bebo). Fiquei muito feliz de ter chegado ali, sã e salva, no meu entreposto. Pensei que ia me aproximar de casa por outro lugar. Não imaginei que as ruas por onde segui me levariam ao Largo. Foi muito legal. A euforia era tanta que, quando eu vi, estava pedalando e sorrindo pela contramão. Mas até que foi bom ter entrado por aquela rua, porque pra sair dela eu peguei a única descida do trajeto. E ela me proporcionou um vento na cara maravilhoso.

Sai da Barra Funda às 21h14 e cheguei na Santa Cecília às 21h46, depois de ter calibrado o pneu, comprado água, parado no mercado para comprar cerveja, bebido a cerveja lá mesmo e conversado com um senhor. Na verdade, ele é que veio conversar comigo, por causa do capacete. Ele disse que é um dos ativistas das antigas e me contou como a bicicleta é usada na Europa. Eu disse que era meu primeiro dia e ele, todo feliz, me deu parabéns e disse: “Quem usa bicicleta está andando no futuro”.

Se eu não tivesse feito tantas paradas e batido esse papo, teria feito o percurso em uns 15 minutos! É mais do que com o Metrô, mas fiquei bem feliz com a ideia de poder economizar R$2,70, descobrir um caminho, suar e lavar o suor com chuva. Sim, porque choveu assim que eu encostei a bicicleta no portão do prédio. Eu não resisti e dei uma voltinha só para me molhar mesmo. Considerei que era uma chuva de boas-vindas.

por Gisele Brito.

Anúncios

12 Responses to “Andando no Futuro”


  1. 1 Camila Oliveira 10/11/2010 às 2:32 pm

    Relato emocionante! Ao que tudo indica, sua relação com a bike começou bem e tende a ser duradoura!

    bjs e bem-vinda à vida:)

  2. 2 Willian Cruz 10/11/2010 às 6:16 pm

    Que legal, Gisele. Adorei ler seu relato. Você descobriu a mobilidade por bicicleta com a alegria de uma menina. Sentiu as preocupações e principalmente as alegrias de se deslocar de bicicleta, em uma corajosa investida solitária. Descobriu que dá para fazer do deslocamento um prazer e não uma obrigação, que a viagem pode ser mais interessante que chegar ao destino, que a cidade tem coisas que a gente geralmente não repara, que a bicicleta incita a amizade. A cidade é outra para quem “está” ciclista.

    Sua cabeça já mudou (pra melhor, é claro), embora você talvez ainda não tenha percebido. Seja bem vinda à sua nova vida.

  3. 3 ana rüsche 10/11/2010 às 7:17 pm

    ehhh! que linda!, também peguei a chuva. e o escuro. e dá até dó dos que ficam espremidos, com os guarda-chuvas, com os vidros fechando, tudo isso. açúcar a gente tem por dentro.

  4. 4 Fabricio Emiliozzi 10/11/2010 às 7:37 pm

    Bem vinda Gisele!!!
    Pode crer, que qdo a fase do medo passar, e vc se habituar com os espacos, a coisa se torna tao natural, e teu olhar ira perceber coisas, lugares, pessoas e sentidos, que, com certeza, vc nao perceberia com QQUER OUTRO meio de locomocao. Eu qdo pedalo nao uso nem fones, pra mim, eh uma salada de sentidos, um descobrimento a cada segundo. Parabens!

    • 5 Gisele Brito 10/11/2010 às 10:26 pm

      É mesmo. Eu fiquei tão concentrada em não morrer que nem deu pra olhar pros lados direito. Estou bem afim de ir por outros caminhos e relaxar.

      • 6 Pedro M 11/11/2010 às 10:30 am

        “Eu fiquei tão concentrada em não morrer que nem deu pra olhar pros lados direito.”

        Hehehe no começo é assim mesmo. Antes eu xingava, morrendo de medo, todo motorista que tirava fino. Hoje eu “agradeço” pra ele se tocar da besteira perigosa que faz =)

        Pedalo em Brasília, cidade teoricamente com menos trânsito e mais fácil de pedalar do que Sampa. E pedalo menos do que gostaria.

        Parte da frustração é essa mesma: você é invisível e sem lugar. Quando está na rua, te empurram pra fora, e quando está fora, te empurram pra rua. Mas essa frustração é compensada (mil vezes compensada) pelo prazer de não estar preso e de ver tudo com outros olhos. É isso aí =)

      • 7 Gisele Brito 11/11/2010 às 6:19 pm

        Hoje e vim para o trabalho pedalando. Achei mais difícil, muito sol, muito calor e muita gente na rua. Eu não podia ocupar a calçada e as pessoas ficavam passando na minha frente! Muita tensão. Muita. Ainda por cima me perdi! Mas dá um barato gostoso, né? E cachaça, viu!

  5. 8 Juliana 11/11/2010 às 9:01 am

    seja bem vinda ao mundo dos ciclistas!!! vamos marcar de andar juntas!

  6. 10 Amanda Camasmie 11/11/2010 às 10:46 pm

    Gisele,
    Adorei o texto, parabéns!
    Até eu fiquei com vontade de voltar a andar de bike! Você passou brilhantemente o espírito!
    Beijão !!!


  1. 1 Quem paga a conta? « Outras Vias Trackback em 03/12/2010 às 10:57 am

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

Junte-se a 55 outros seguidores

novembro 2010
S T Q Q S S D
« out   dez »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

Dica de leitura

compartilhe ideias

Quando uma cidade congestiona é preciso pensar alternativas de trânsito; discutir, dividir caminhos e dialogar. Ocupe este espaço.

Creative Commons License

outras vias no twitter

((o))eco no twitter

((o))ecocidades no twitter

  • Copa do Mundo das áreas protegidas: México. No campo da preservação da natureza os mexicanos jogam bonito. ow.ly/y7eYh 3 years ago
  • Copa do Mundo das áreas protegidas: Irã. Com 1 vitória em Copas, também não vai bem se o assunto é áreas protegidas. ow.ly/y47GD 3 years ago
  • No centro das políticas ambientais brasileiras está o MMA. Entenda qual o seu papel. ow.ly/y47CM 3 years ago
  • Relatório indica lacunas no monitoramento de qualidade do ar. População tem pouca informação sobre emissões. ow.ly/xOLbG 3 years ago
  • Livro mostra como usar integralmente os alimentos e incentiva a redução do lixo orgânico residencial. ow.ly/xGVz6 3 years ago

%d blogueiros gostam disto: