Opcionais e alternativos

A palavra alternativa é bacana. Na raiz, significa a possibilidade de alternância. É meio binária: ou isso ou aquilo. Opção é mais amplo, remete a uma cesta de possibilidades de escolhas. Entre os cicloativistas o termo alternativo tem um caráter positivo e muitos usam com a mesma pegada das expressões música alternativa, estilo alternativo e sociedade alternativa.

No final dos anos 90, eram chamadas de alternativas as peruas que transportavam ilegalmente passageiros nos bairros de periferia. No começo, essas peruas cobravam tarifas menores e eram mais confortáveis, mas logo o preço subiu e as pessoas passaram a ser transportadas abarrotadas em veículos apertados e sujos, mas ainda assim mais rapidamente.

Foto: CicloBr

Em certos bairros, como o meu, a chegada dessas peruas diminuiu a oferta de transporte público ao invés de aumentá-la. Isso porque o financiamento do sistema de transporte sobre rodas no Brasil é feito inteiramenteo pelos próprios passageiros. Os donos das empresas calculam os gastos, somam e dividem pelo número de pessoas transportadas e aí chegam ao preço da passagem. O transporte “alternativo” feito pelos “perueiros” tirou passageiros dos ônibus. A fórmula para manter o lucro foi aumentar o preço da passagem, depois cortar investimentos, como na renovação da frota, e depois reduzir gastos, como o salário dos funcionários. Naquele momento, a migração para as peruas foi tanta que muitas linhas foram cortadas. Atualmente, lá no meu bairro, nenhuma das três linhas de ônibus que existiam circulam mais. Foram substituídas por 3 novas linhas de lotação, que se tornaram a única possibilidade de transporte coletivo.

Com os valores exorbitantes das conduções, uma boa galera não pode nem contar com as lotações como opção. Daí o uso crescente das bicicletas nas perifas da zona sul. É bom lembrar que quem tem a passagem subsidiada são só os estudantes, idosos e trabalhadores com carteira assinada. Toda uma massa de trabalhadores informais arca sozinha com os custos da sua mobilidade.

Para eles restaram três opções: pedalar, caminhar ou não se locomover. Quem tem que fazer essa escolha, opta por uma das duas primeiras sem pensar nenhum minuto em cidades mais humanizadas ou em ecologia. A maioria exerce funções braçais, longe, muito longe de suas casas, e andar de bicicleta significa uma economia e um sacrifício.

Eu fico pensando o que aconteceria se pelo menos 30% das pessoas que usam a lotação entre o jardim São Bernardo e o Terminal Grajaú resolvessem fazer o caminho, bem curto e tranquilo, de bicicleta. Isso significaria menos gente pagando a tarifa e, consequentemente, diminuição do lucro dos empresários, que iriam reclamar com a Secretaria de Transportes. Ela poderia atendê-los dando alguma solução para o problema ou deixaria que o mercado criasse suas próprias soluções. Provavelmente, o que aconteceria seria a redução da frota e, ao extremo, o cancelamento das linhas. Com isso, aqueles que não aderissem à bicicleta – entre eles, idosos, gestantes, pessoas com mobilidade reduzida, preguiçosos e gente sem grana para comprar uma bicicleta – ficariam sem opções.

Por isso, acredito que, para a bicicleta se tornar uma opção incorporada ao sistema viário, são fundamentais mudanças  na estrutura de financiamento. Mas para além disso, o próprio desenvolvimento local é necessário para não precisarmos, obrigatoriamente, nos deslocar tanto para trabalhar, ir ao médico, ao cinema ou à escola.

 

Por Gisele Brito.

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9 Responses to “Opcionais e alternativos”


  1. 1 Thiago 08/11/2010 às 10:12 am

    Muito bom o argumento. O governo deveria começar um programa “bicicleta para todos” e liberar financiamento pro pessoal adquirir sua própria magrela.

  2. 2 Tom Bike 08/11/2010 às 2:38 pm

    Interessante isso, acaba sempre em Justiça Social…

  3. 4 Marcelo Iha 08/11/2010 às 10:06 pm

    Sucinto e, ao mesmo tempo, sensacional esse post, Gisele! Eu não tinha parado pra pensar em vários pontos que vc cita. E a lógica dialética contraditória mostra-se presente para todos, pra quem usa a palavra “alternativo”, pra quem “é alternativo”, pra quem pensa ser, pra quem julga o alternativo, até pra quem financia os alternativos heheh
    Mas e aí, desamarrou a bike? 😀

    • 5 Gisele Brito 09/11/2010 às 11:43 am

      Desanimei nada nada, Marcelo. O Santini deixou a bike dele presa com um cadeado e o cadeado emperrou! Agora vou ter que achar um chaveiro, conseguir uma autorização para ele entrar na firma para, finalmente, libertar a magrela!
      Mas enfim, obrigada pelo comentário!

  4. 8 Raul 10/11/2010 às 9:46 am

    A Erundina tentou aqui em são Paulo mais a mídia carcou o páu!

  5. 9 matiasmm 11/11/2010 às 11:52 am

    Oi, concordo com o que escreve Gisele.
    A cidade de São Paulo se constroe como se esse contingente enorme de pessoas que a servem fosse coisa óbvia. É preciso que se mude essa forma de pensar e até de construir, um prédio comum hj não consegue viver sem menos de 5 pessoas lhe servindo, quando muito, uma delas mora no mesmo. É um calculo idiota que gera comodidade para alguns, mas para a totalidade da sociedade é péssimo. Essas pessoas podem muito mais que ficar ali sentadas; escutando desaforo de madame que chegou bem no momento que o cara teve de ir ao banheiro. As economias locais tanto de engenheiro marsilac a itaim paulista precisam crescer e de engenheiro carlos berrini e itaim precisam diminuir.


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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