Tempo, distanciamento e discernimento

Foto: Julia Chequer (clique na imagem)

O historiador Nicolau Sevcenko usa um conceito interessante para analisar a maneira como vivemos atualmente. Em seu livro “No loop da montanha-russa”, ele compara o ritmo e a intensidade dos dias de hoje ao loop de uma montanha-russa. Ficamos entorpecidos, relaxamos o impulso de reagir, aceitamos resignados a vertente de fatos e novidades que explodem em sequência crescente.

Na era da microeletrônica, as inovações aparecem de maneira multiplicativa, as atualizações e saltos tecnológicos são cada vez mais rápidos, tudo irresistível, imprevisível, incontrolável,  incompreensível. Só resta relaxar.

A esta passividade cega e irrefletida decorrente da aceleração das transformações tecnológicas, Sevcenko chama de “síndrome do loop”. Aprendi o conceito em um seminário apresentado por Valeria Bursztein, durante o curso de pós-graduação em jornalismo internacional da Pontifícia Universidade Católica (PUC).

Presente, passado, futuro
É necessário buscar três momentos para recuperar a crítica e resistir ao impulso de ficar parado sem fazer nada vendo o mundo passar cada vez mais rápido. São eles presente, passado e futuro. Primeiro, é preciso se distanciar do ritmo das mudanças. Sair do agora e urgente para conseguir ver com clareza, refletir com discernimento crítico.

Depois, é preciso recorrer ao passado; fazer a contextualização dos fatos e recuperar o tempo histórico para poder dimensionar melhor as mudanças, a quem elas beneficiam e prejudicam. Por último, é preciso sondar o futuro a partir destes dois momentos de observação. Trabalhar com perspectivas, pensar ancorado em bases sólidas.

Férias
Esse post é pessoal, mas é também um convite à reflexão sobre ritmo e vida. Sob bombardeio de textos no twitter, facebook, jornais e blogs, a gente deixa de ler – só passa os olhos para ver do que se trata o assunto. Com a pressa para chegar, a gente deixa de viver o caminho. À 90 km/h, de carro, não dá para ver a cidade. Às vezes, é necessário parar.

A Gisele

Pretendo passar um mês desplugado, fora do ar. O OutrasVias nesse meio tempo fica nas mãos da Gisele Brito, jornalista talentosa de 25 anos, com especial interesse no debate sobre transporte público e coletivo. Ela tem experiência para falar do assunto. Mora no Grajaú, extremo sul de São Paulo, conhece a rotina injusta dos trabalhadores que cruzam a cidade em ônibus e trens lotados para trabalhar todos os dias.

Mais que isso, a Gisele faz uma pós em Economia Urbana e Gestão em Políticas Públicas. Não deve escrever uns textos tão chatos como este aqui, mas tem embasamento para tratar de assuntos complexos com o cuidado necessário. E, como garantia que ela não é uma acadêmica chata, adianto ainda que deixei com ela minha bicicleta. Se der certo e ela se animar a arriscar umas pedaladas na cidade, pode até dividir a experiência de ciclista novata com vocês aqui.

Aproveitem. Voltamos a nossa programação normal em dezembro.

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4 Responses to “Tempo, distanciamento e discernimento”


  1. 1 Cássio Garcez 01/11/2010 às 8:26 pm

    Que texto chato qual nada! Muito bom ler uma reflexão crítica, “subversiva” e sensível como esta, quebrando um pouco do lugar comum de se discutir ecologia ao só se falar de bicho, planta, poluição ou áreas protegidas (não que isso não seja importante!). Parabéns para você, autor ou autora, que não consegui saber quem é… E sucesso à Gisele! Abraços


  1. 1 Magrela amarrada « Outras Vias Trackback em 03/11/2010 às 7:32 pm
  2. 2 Pasárgada e outras utopias « Outras Vias Trackback em 25/02/2011 às 7:06 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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