A estética do medo

O que você acha de usar capacete para andar de bicicleta? E de pedalar em uma cidade com o trânsito agressivo que nem São Paulo? E em se preocupar em fazer tudo isso com beleza?

Esse texto levou algumas semanas para ficar pronto. Fiquei escrevendo ele na cabeça aos pouquinhos e hoje tentei organizar as palavras em ideias. São perguntas polêmicas que tocam em dois pontos centrais para qualquer um: segurança e estética. O entendimento e abordagem a partir destes dois conceitos têm, não só influenciado a maneira como vivemos, como justificado guerras.

A primeira premissa é básica porque envolve sobrevivência. Tomar cuidado, proteger a família, se proteger, é instintivo e natural. E ninguém questiona isso. O problema é quando a segurança vira ponto central, ampliada por notícias exageradas, sensacionais, chocantes, por discursos preconceituosos e imagens fortes. A obsessão em calcular riscos e a exacerbação do medo podem ter efeito contrário ao da proteção da vida – podem tirar o que ela tem de essência. E, desta forma, colocar em risco a própria vida.

Explico melhor. A lógica do cada-um-com-seu-tanque-de-guerra: andar de bicicleta em São Paulo é “perigoso”, coisa de maluco. Logo, o certo é andar de carro, blindado, alto e resistente, de preferência. Se meu vizinho se desloca em um carro maior e mais duro, estou sujeito a me machucar mais em um choque. Então vou comprar um veículo ainda maior e mais duro. É assim que criamos as bases para uma cidade com gente fortemente armada, seguranças privados e câmeras de vigilância para todos os lados, fortalezas e condomínios fechados. Não é cimento e ferro o que segura as grades e muros cada dia mais altos: é o medo.

Tal lógica é insustentável por natureza. Investir mais dinheiro em segurança do que em qualquer outra área cria uma sociedade torta, em que a desigualdade é contida com violência. Cria um ciclo vicioso baseado em mais desigualdade, mais revolta, mais necessidade de contenção, mais medo.

É a partir desse ciclo de medo que os carros têm ficado maiores, mais fechados, com vidros filmados, blindados. E as pessoas ficam cada vez mais isoladas uma das outras, as ruas vazias de humanidade. Uma sensação de segurança vazia, nem sempre real. Acidentes de carro são violentíssimos e, apesar de subnoticiados, bastante comuns. A revolta que tal estrutura injusta desperta é outro risco. Melhor torcer para não furar um pneu ao passar por um dos bairros escuros em que só passam carros correndo.

Resistência
Andar de bicicleta quebra tal ciclo. Ao viver a cidade, participar, interagir, quem pedala dá vida ao espaço público. Mas e o risco de sair sem a armadura de ferro medieval-moderna nessa selva de pedra? Existe e não deve ser ignorado, mas é bem menor do que se pensa. Está relacionado ao resultado direto do conjunto do medo de outras pessoas: carros maiores, mais rápidos, mais duros. Ao se tomar alguns cuidados como evitar avenidas, saber esperar, encontrar um ritmo, evitar disputar espaço com ônibus e caminhões, os riscos diminuem consideravelmente.

 

Aprender a viver sem ser dominado pelo medo – e sem ignorar também riscos – é inspirador e tem um potencial transformador fantástico. É o caminho para alterar a lógica do ferro e aço, a militarização direta da vida. E aí começamos a falar de estética. Sobrepor o medo com beleza e prazer é perturbador, no melhor sentido da palavra.

Por isso o coletivo Pedalinas, de mulheres ciclistas de São Paulo, talvez seja o movimento de potencial mais revolucionário em termos de mobilidade na cidade. Em um ambiente machista, em que a força e a violência imperam, as meninas tem mostrado com graça que é possível sim outra realidade. Marmanjos assustados com as ruas se veem parados em congestionamentos em suas caminhonetes gigantes ao lado de garotas em bicicletas com cestinhas. Algumas, além de confortáveis, ainda caprichando no visual.

Beleza
Andar de bicicleta é algo simples. Não é preciso roupas especiais, artigos esportivos, tecidos sofisticados e nada do gênero. Se você aprender o ritmo suave em que o vento compensa o calor e o esforço não chega a te fazer suar, dá para ir trabalhar sem uma muda de roupa. Em boa parte do Brasil dá. Em São Paulo dá.

Pedalar não necessariamente está relacionado a se tornar um atleta. Entender bicicletas como alternativas de transporte e não somente como esporte é parte desta mudança de perspectiva. Deixar de se fantasiar de ciclista e passar a andar como uma pessoa comum é uma mensagem forte e direta: qualquer um pode pedalar.

Fazer isso com beleza amplia a força do recado. Eu já tive muito preconceito e dificuldade em compreender esse ponto. A moda, apesar de tratada sempre como algo banal e vazio de conteúdo, tem uma função importantíssima, decisiva até. Estética é informação. A maneira de se vestir transmite mensagens, valores.

E aí entra o capacete. Tem muita gente boa que deixou de usar capacete por motivos relacionados aos citados acima. Por ser um símbolo do medo, do perigo. Por entenderem ser um cuidado exagerado. Os ataques contra os que fizeram essa opção são duros e tratam a questão com a mesma lógica do cada-um-com-seu-tanque-de-guerra. Simplificam e tornam o debate raso. São baseados no medo puro e simples e desqualificam qualquer avaliação de riscos que seja diferente da “andar de bicicleta em São Paulo é uma loucura”.

Eu uso capacete.

Respeito quem não usa, não tento assustar com relação aos riscos, doutrinar ninguém. Pessoalmente, entendo que é como usar preservativos. É bem mais gostoso andar sem proteção, cabelos ao vento! Mas tem situações em que tomar esse cuidado é uma boa, mesmo que incomode.

Tem um adesivo que diz “uso capacete para você poder dirigir feito um idiota”. É mais ou menos por aí. Ao compartilhar o espaço com motoristas agressivos, dominados pela lógica do medo, eu me sinto mais confortável de proteção, ainda que seja um boné de isopor que não vai me salvar em um acidente grave. É uma questão pessoal.

Ao mesmo tempo, não consigo imaginar meus pais, que pedalam na praia, em ruas de terra e areia, de capacete. Ou usando preservativos.

******
Todas as fotos deste post foram tiradas do flickr do Salão do Automóvel, feira que reúne tendências diretamente relacionadas ao tema deste post, além de mulheres siliconadas tratadas como objetos e homens, muitos homens, disputando espaço, força e poder.

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20 Responses to “A estética do medo”


  1. 1 Vitor Leal Pinheiro 27/10/2010 às 4:25 pm

    Santini, seu texto está genial. Parabéns. Vou linkar lá no meu.

  2. 3 Raquel 27/10/2010 às 4:37 pm

    Muito bom para reflexão.

  3. 5 Lucas Jerzy Portela 27/10/2010 às 5:10 pm

    “capacete é como preservativo”

    precisamente! e hoje ja se discute o maldito “Use Camisinha!”

    por que?

    porque há diversas formas de sexo mais seguro que não precisam de camisinha. Se não houver penetração, por exemplo. Tomar nas coxas, masturbação mútua, amasso. Mesmo o sexo oral é menos arriscado do que a penetração vaginal, se não houver ejaculação.

    E existem outras formas de sexo com risco alto em que a camisinha é irrelevante. BDSM, por exemplo. E, no limite, bare-backing – que eu não pratico, mas reconheço como um direito.

    (minha monografia de residência em Programa de Saúde da Família vai ser sobre isso: “O Marquês de Sade na prevenção de DSTs – por um modelo não-genital”)

    • 6 Daniel Santini 28/10/2010 às 7:31 pm

      Caro Lucas,

      Confesso que sua argumentação empolgada me fez por alguns segundos pensar que eu não deveria ter incluído meus pais na comparação.

      =)

      Interessante suas ponderações, nunca imaginei que a associação capacete-camisinha pudesse ir tão longe.

      Um abraço e boa pesquisa, meu caro,

      Santini

  4. 7 Aline Cavalcante 27/10/2010 às 6:29 pm

    agora entendi um monte de coisas que vc andou falando -fracionadamente- pra mim..
    genial
    parabens pela reflexão
    era disso que eu tava falando

    • 8 Daniel Santini 28/10/2010 às 7:32 pm

      Valeu, Line! Gentileza sua! Você tem sua dose de culpa neste texto – me fez pensar bastante sobre alguns pontos. Quando eu voltar de viagem, continuamos nossos papos.

      Santini

  5. 9 SÍLVIA 27/10/2010 às 9:39 pm

    mto legal o texto!
    parabens!
    uma gde reflexão… faz parar pra pensar, mas eu ja me acostumei ao uso do capacete e das luvas…

    mas o texto é mto bom msm!

  6. 11 Tom Bike 28/10/2010 às 5:30 pm

    Capacete é algo que EU coloquei na minha cabeça.

    Nunca tive medo de nada, e continuo não tendo (veja a foto no link de um post antigo). Convenhamos que isso, ser fearless, é um problemão. Comecei andando sem capacete. Com o acúmulo de quilômetros rodados notei a insustentabilidade desse hábito.

    Essa coisa toda anti-carro, até entendo e respeito, fui atropelado por um carro com 9 anos de idade. Cortei muito a cara a cabeça e um braço. Fratura de crânio. Amnésia, até hoje lembro muito pouco de coisas que aconteceram antes dessa data. Sempre questionei essa maluquice no trânsito.

    Concordo que qualquer um pode pedalar.

    Acredito em usar o equipamento certo. Seja um chapéu de hemp, sunga e protetor solar na praia. Ou capacete, luva e óculos na bike. Cotoveleira já usei um tempo, mas abandonei, muito desconfortável. Quer dizer, posso sacrificar meus cotovelos, mas meu cérebro não. Nem meus olhos, trabalho com imagens de satélites, nem meus dedinhos para teclar. Como faço agora.

    É claro que existem poseurs em qualquer subcultura. E também existe gente que gosta de uniforme. Fetiches de valor, como diria Marx.

    Daí a dizer que o cabra usa capacete por ter medo de carro… foi um salto longo demais. Quem achar que capacete resolve em um atropelamento está enganado. Capacete serve para não morrer em um tombo a 10 por hora, para bater a cabeça na guia e não rachar o crânio.

    O grande problema, olhando aqui da trilha na terra, é querer incentivar uma massificação do uso da bicicleta & jogar esses newbies na boca do leão. Cada baixa a bordo de bike no trânsito é mais um argumento para mandar a gente andar no Ibirapuera, como quer a Dona de Moema.

    Fico de cara de ver um pessoal hype beirando a obesidade, ou seja não pedala nada, vir falar de país nórdico & que o cyclechic é não usar capacete. O grande lance seria andar de salto alto. Sei direitinho o que pensa o tiozinho bicicretero quando vê essa turma: “vixe, sai prá lá coisa feia!”. Servem muito mesmo é de caricatura de ciclista. São notados pela estranheza. Breve estarão surfando outra moda, quem sabe até aparecendo em novela?

    Estética é legal, é cultural. Moda é consumismo, uma recriação infinita de diversas estéticas. Acho péssimo, induz a um consumismo insustentável.

    Para finalizar. O movimento tem que ser pró bicicleta, ser anticarro é contraprodutivo. É quem está no carro que tem que sair e vir para a Urbe. Se parte logo sendo anticarro, tende a se tornar um movimento fringe, marginal, de nicho.

    É preciso massificar o uso da bike & não elitizar em diversas subculturas.

  7. 12 Rodrigo Falleiro 29/10/2010 às 9:21 am

    Excelente texto!!
    Acho que vou tentar dar umas pedaladas!!!

  8. 13 Tulio Kengi Malaspina 29/10/2010 às 1:26 pm

    Parabéns pelo texto, demorou para sair mas foi certeiro!
    Grande reflexão.

  9. 14 Gianlucca 17/02/2011 às 7:36 pm

    Achei esse texto fantástico! Eu tenho 13 anos e agora que to descobrindo o que é a vida não!! Me senti muito bem, vc compreende um sentimento que tenho e que poucoquissimos entendem!
    Gostei muito, acho que não temos espaço hoje em dia, eu moro em Jundiaí, no interior de SP, é uma cidade com aprox. 700 mil hab. mas tem um trânsito que niguém merece, aqui ninguem dirige bem! Não existe direção defensiva o suficiente…Eu acho que a beleza e a moda é o que nós vestimos e inventamos, odeio a moda das passarelas, acho algo totalmente supérfolo e perda de tempo, dinheiro, a questão de que todos querem carros maiores e mais fortes e seguros já é antiga! O que podemos fazer hoje?! Não muito, eu faço acontecer aqui em Jundiai protestos em lugares de grande fluxo de veículos e isso até sencibiliza algumas pessoas mas mesmo assim uma bike noo trânsito é como uma mosca…ninguem a vê e se vê não respeita! Eu to na idade de ser sem noção e atirado…ando mais que mto carro e freio pra mim é só em extrema emergência, penso assim, se carros não me respeitam eu os respeito porque sou melhor motorista (piloto hehehe) mas qdo tem algum pedestre o pessoa querendo passar eu sou gentil, qdo algum carro quer competir comigo, fico mto nervoso mas não deixo que ele me derrube ou pense que é imponente em seus 40 M² de produção de poluição, eu respeito o trânsito mas não é por isso que devo me omitir as coisas erradas dele! Encaro motorista e saio na frente, não aprendi a andar devagar, meu meio de transporte é a megrela, não uso tranporte coletivo nem nada, pretendo não mudar minha atitude de não poluir e pretendo mudar a maneira das pessoas dirigirem, sendo sutil e mostrando o correto, mas andar de bike no transito é algo que merece muita atenção, eu uso muito os corredores que as motos usam, é claro que aqui a velocidade e outra porque nem uma marginal da vida temos…mas se os motoristas não me verem ali no meio, não verão em nem um outro lugar! Obrigado pelo texto, curti muito! abraço


  1. 1 Capacete é coisa que colocaram na sua cabeça « Quintal – Idéias para um mundo melhor Trackback em 27/10/2010 às 4:27 pm
  2. 2 Magrela amarrada « Outras Vias Trackback em 03/11/2010 às 7:32 pm
  3. 3 Uma penny-farthing nas ruas de São Paulo « Outras Vias Trackback em 07/01/2011 às 5:37 pm
  4. 4 A violência do medo « Outras Vias Trackback em 22/06/2011 às 1:48 pm
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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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