Baixe a tarifa, prefeito Kassab

Na semana passada, o Estadão chamou a atenção para a possibilidade de aumento da tarifa de ônibus em São Paulo. Os repórteres Bruno Ribeiro e Diego Zanchetta consultaram o prefeito Gilberto Kassab (DEM) sobre um eventual aumento no valor cobrado nos ônibus municipais; de R$ 2,70 as passagens passariam para R$ 2,90 em dezembro.

Ele respondeu o seguinte:

Pode ser um pouco mais, um pouco menos. Mas a cidade tem de ter um reajuste com base na reposição da inflação todo ano, sem deixar acumular (o preço). Isso é transparência

O jornal deu destaque para a perspectiva de aumento e, no dia seguinte, em entrevista coletiva,  Kassab afirmou que ainda não há nada decidido a respeito. E foi mais longe. Como é possível ver neste vídeo publicado pelo G1, ele falou até em uma eventual redução do valor da tarifa. Nas palavras do prefeito:

A Secretaria (que cuida) do orçamento trabalha com uma tarifa média, mas isso é um problema técnico da Secretaria do Planejamento. Não existe nenhuma decisão, podemos até baixar a tarifa, podemos aumentar, é um equivoco essa suposição porque não existe essa discussão na Prefeitura hoje.

Pois, bem, prefeito, baixe a tarifa. Manter congelado o valor, como o senhor fez nos primeiros anos de governo, não basta. Aproveite que na  previsão orçamentária de 2011 (PDF) já foi contabilizado o repasse de R$ 600 milhões para as empresas concessionárias (página 844 do documento citado) e force uma redução no preço das passagens. Como bem destaca o Estadão, se esta previsão se confirmar, as empresas receberão o dobro do que foi repassado em 2010 – tudo bem que parte é para renovação da frota, mas convenhamos que com o dobro do orçamento é possível incluir alguma redução.

Tal iniciativa, prefeito, como o senhor mesmo apontou quando apresentou o orçamento na Câmara dos Vereadores, pode atrair mais usuários e até resultar em um aumento na arrecadação total. Reduzir tarifas e subsidiar o transporte público o ajudará a economizar em outras áreas. Pense no tanto de gente que pode deixar de utilizar carros para passar a optar pelo transporte coletivo (52% da população gostaria de fazer isso, prefeito!). O senhor não precisaria gastar tanto com gerenciamento do trânsito (previsão de gasto de R$ 764.637.886 com a CET em 2011, conforme texto na página 857 do documento citado), e veria os índices de poluição, estresse e atropelamento minguarem.

Periga até começarem a chamá-lo de prefeito verde, preocupado com o meio ambiente, coisa e tal. Já pensou?

Recursos e viabilidade
Aí o senhor me pergunta, poxa, “Santini, mas e se faltar dinheiro para isso?”. Olha, prefeito, o senhor teria que fechar o cofre e diminuir o ritmo das obras de expansão viária, frear a construção de avenidas e viadutos e tudo mais. Isso mesmo, diminuir o espaço para os carros e desincentivar o uso do automóvel, em vez de seguir asfaltando mais e mais a cidade (alguém falou em enchentes?). O trânsito pode piorar em um primeiro momento, mas, convenhamos, com o caos permanente que já esta instalado, vale o desgaste político para depois ser lembrado como o primeiro governante a mudar a lógica de transportes de São Paulo.

Se tal iniciativa vier acompanhada da construção de mais corredores de ônibus e ampliação da cobertura do sistema de transportes, periga até os congestionamentos começarem a diminuir – o senhor ganharia moral até para concorrer à presidência, Kassab!

Custos
Se todos esses argumentos não bastarem e alguns técnicos insisterem que é necessário aumentar o valor da passagem, seguem mais alguns dados para que o senhor possa argumentar, prefeito. Como dá última vez que houve aumento, em 22 de dezembro de 2009, conforme o decreto no 51134, os principais afetados serão os mais pobres. Quem não tiver condições de abandonar o sistema de vez e tentar comprar um carro ou uma moto em prestações, terá que apertar ainda mais o cinto. Dá uma olhada nestes números do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

E, por último, repare que, atualmente, entre todas as capitais que podem ser comparadas com a que o senhor governa, São Paulo é a que tem a passagem de ônibus municipal mais cara do Brasil. Abaixo o senhor pode consultar a relação de todas as cidades com mais de 1 milhão de habitantes (conforme a última contagem do IBGE, de 2009) e as respectivas tarifas. Deu algum trabalho organizar isso, mas espero que o inspire, prefeito.

Tarifas de ônibus das cidades brasileiras
com mais de 1 milhão de habitantes

(levantamento feito em 5 de outubro de 2010*)

  1. São Paulo – 11.037.593 habitantes – tarifa R$ 2,70 (fonte: SPTrans)
  2. Guarulhos –  1.299.283 habitantes – tarifa R$ 2,65 (fonte: STT)
  3. Campinas – 1.064.669 habitantes – tarifa R$ 2,60 (fonte: EMDEC)
  4. Porto Alegre – 1.436.123 habitantes – tarifa R$ 2,45 (fonte: EPTC)
  5. Rio de Janeiro – 6.186.710 habitantes – tarifa R$ 2,35 (fonte: Secretaria Estadual de Transportes – o site da municipal está fora do ar; mais infos sobre as tarifas no RJ no R7)
  6. Salvador – 2.998.056 habitantes – tarifa R$ 2,30 (fonte: Setin)
  7. Belo Horizonte – 2.452.617 habitantes – tarifa R$ 0,65 a 2,30 (fonte: BHTrans; mais sobre o sistema)
  8. Goiânia – 1.281.975 habitantes – tarifa R$ 2,25 (fonte: CMTC)
  9. Manaus – 1.738.641 habitantes – tarifa R$ 2,25 (fonte: IMTU; um resumo da briga jurídica causada pelo último aumento no A Crítica)
  10. Curitiba – 1.851.215 habitantes – tarifa R$ 2,20 (Fonte: URBS)
  11. Brasília – 2.606.885 habitantes – tarifa R$ 1,50 a 2,00 (Fonte: DFTrans)
  12. Recife – 1.561.659 habitantes – tarifa R$ 1,85 (Anel A) (Fonte: Grande Recife Consórcio de Transportes)
  13. Fortaleza – 2.505.552 habitantes – tarifa R$ 1,80 (Fonte: Etufor)
  14. Belém – 1.437.600 habitantes – tarifa R$ 1,70 (Fonte: CTBel, texto sem link direto, mas que foi replicado aqui; mais sobre o sistema aqui)

* O levantamento foi todo baseado nos sites das prefeituras, secretarias, empresas públicas e concessionárias. Alguns são confusos e desatualizados; Justiça seja feita, se São Paulo é a cidade com tarifa mais cara, é também uma das mais transparentes na divulgação de dados pela internet.

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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