A Ilha

É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós

José Saramago

No domingo, o Estadão publicou reportagem avaliando que, com o trecho sul do Rodoanel, o fluxo de carros em direção ao litoral de São Paulo aumentou consideravelmente. E prevendo que, no verão, os congestionamentos devem se agravar. Com a obra, a capacidade de mais gente sair da cidade ao mesmo tempo aumentou, mas no litoral a capacidade de recepção continua a mesma. Ou seja, vai entupir.

No mesmo caderno, entre as soluções apresentadas pelas autoridades para o futuro problema, está tirar os semáforos do caminho, construir viadutos e priorizar o fluxo.

O naufrágio
No curta A Ilha (clique aqui para assistir), um homem naufraga na cidade ao atravessar uma avenida e ficar preso pelo trânsito. Ele espera para poder atravessar novamente por horas, dias, semanas… O curta, do talentoso Alê Camargo, da Buba Filmes, está disponível no Porta Curtas da Petrobrás. A animação é de 2008, mas fica cada dia mais atual. O filme começa com a mesma frase do Saramago que abre este post.

Reprodução: A Ilha / Alê Camargo

Priorizar o fluxo de automóveis é insistir em um modelo pouco eficiente que sempre dependerá de adequações. Ampliar avenidas, construir viadutos ou eliminar semáforos é uma solução imediatista que provoca impactos ambientais e urbanísticos brutais e só agrava o problema. A história da urbanização de São Paulo é uma aula prática de como criar um modelo em que as pessoas ficam presas em congestionamentos que chegam a 300 km.

Há alternativas. Investir em transporte público é a principal delas. O mesmo dinheiro que foi gasto nas principais obras de trânsito recentes de São Paulo poderia ter sido utilizado para mudanças reais. Apostar na construção do Estilingão, aquele viaduto gigante de gosto duvidoso na Zona Sul, na criação do trecho sul do Rodoanel (em uma área de proteção ambiental, com impacto enorme) e na ampliação da avenida Marginal Tietê, que agora tem trechos com até 11 pistas (!), é insistir em uma política atrasada e ineficiente.

O paulistano vive diariamente a falência de tal modelo. E sofre no trânsito.

Reprodução: A Ilha / Alê Camargo

Retirar os semáforos da Baixada Santista, ampliar avenidas, criar a estrutura necessária para que milhões de pessoas passem de maneira avassaladora, desesperadas por mais minutos brigando por um lugar na praia, é insensatez. Em vez de tentar melhorar a cidade em que vivemos, priorizamos rotas de fuga e aceleramos na estrada para reproduzir o mesmo modelo em  outros cantos.

Se tudo continuar assim, em breve nossos engenheiros estarão estudando como asfaltar a praia para mais gente poder chegar mais rápido até o mar.

E tudo perde o sentido.

Reprodução: A Ilha / Alê Camargo

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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