Atenção, São Paulo

(arte pedalo pelado - clique na imagem)

Noite de segunda-feira, umidade relativa do ar em 21% segundo a Defesa Civil de São Paulo, olhos ardendo, pele seca, sensação de sujeira grudando na cara. Depois de ver o sol desaparecer em uma camada bizarra de fumaça no sábado e domingo, hoje, dia em que a imensa frota de automóveis de São Paulo voltou às ruas, a situação ficou insuportável. A cidade está em estado de atenção e isso não sou eu quem diz, é a Defesa Civil. Na verdade, o tal alerta já virou tão constante que nem ganha mais destaque nos jornais.

Tirando um breve período de chuva na semana passada, a cidade está há mais de um mês em condições críticas. Quando a umidade fica abaixo de 30%, a Defesa Civil decreta estado de atenção. Dos 20% aos 12%, é estado de alerta, o que já aconteceu pelo menos duas vezes (em 22 de agosto e 27 de agosto). Menos de 12%, é decretado estado de emergência, o que ainda não aconteceu.

E, veja bem, isoladamente não é o tempo seco o problema. A questão é que, combinado com a fumaça emitida pelos carros com a qual já nos acostumamos, ele agrava males que afetam principalmente crianças, idosos e pessoas com a saúde debilitada. Na semana retrasada, para escrever esta reportagem (aqui em PDF, com infográficos), procurei o doutor Gustavo Faibischew Prado, professor de pneumologia do Hospital das Clínicas e um dos principais especialistas no assunto do Instituto do Coração (Incor).

Reproduzo abaixo algumas respostas que ele enviou por meio da assessoria sobre a crise de saúde na cidade.

– Qual a gravidade da situação atual?

A poluição atmosférica nas grandes cidades, resultado da emissão de gases e materiais particulados (poeira) por veículos automotores e indústrias, principalmente, vem aumentando de forma significativa em função do infrene crescimento da frota de automóveis e, especificamente nas épocas mais secas do ano, pela menor precipitação pluvial (na ausência de chuva a poeira permanece mais tempo no ar) e maior taxa de ressuspensão de partículas depositadas no asfalto. Além disso, dias ensolarados também favorecem, através de reações químicas facilitadas pela radiação ultravioleta (reações fotoquímicas), a formação de outros poluentes, como o ozônio.

Essa conjunção de fatores propícios para o aumento na concentração atmosférica de poluentes traz diversas consequências deletérias à saúde, como o aumento da incidência e agravamento de doenças respiratórias, um incremento significativo da ocorrência de eventos cardiovasculares (angina, infarto, arritmias e morte súbita, por exemplo) e os já bem conhecidos desconfortos físicos advindos da irritação dos olhos, nariz e garganta.

Como o senhor vê a possibilidade de aplicação de medidas emergenciais tais como ampliação do rodízio na capital em função da poluição? Em termos de saúde pública, é realmente necessário forçar a diminuição do número de carros nas ruas?

De acordo com o relatório de 2006 da CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), o Estado de São Paulo possui 40% da frota motorizada de todo o país. Deste total, 55% têm idade superior a 10 anos. Entre junho de 2008 e junho de 2009, o incremento no número de veículos automotores no estado foi de 1,2 milhão de unidades, atingindo a marca de 19,5 milhões, segundo dados do Detran (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo).

Com o cada vez maior número de carros, há também o consequente crescimento dos congestionamentos e do tempo de permanência das pessoas no trânsito, especialmente nas vias de tráfego. Isso tudo incorre não apenas no crescimento das emissões, como também na exposição individual aos poluentes.

Medidas restritivas à circulação de veículos por dias da semana e zonas da cidade podem oferecer um impacto bastante significativo sobre as emissões ambientais e, portanto, um notável benefício coletivo em termos de saúde e produtividade (lembrando que o adoecimento leva não apenas a consequências individuais, mas ao absenteísmo no trabalho e a gastos previdenciários), ao custo, é claro, de cerceamentos – a meu ver necessários e inevitáveis – de certas liberdades individuais. Mas isso tudo pode se esvaziar em efeito se outras ações regulatórias não forem implementadas, como uma efetiva fiscalização sobre a taxa de emissão de poluentes pelos veículos automotores, o desenvolvimento de combustíveis mais limpos e uma ampliação e modernização da malha de transporte coletivo, com enfoque aos modais mais eficientes e limpos como trem e metrô.

– Dá para quantificar (ou estimar) a quantidade de mortes provocadas por tal situação?

Arte Andy Singer - Word Car Free Network (clique na imagem)

Das 55 milhões de mortes que ocorrem em todo o mundo anualmente, 800 mil têm como causa doenças respiratórias e cardiovasculares diretamente relacionados à poluição. A cidade de São Paulo é a quinta metrópole mais poluída do mundo e estima-se que quase dez pessoas por dia faleçam em São Paulo por problemas diretamente atribuíveis a poluição. O número de admissões hospitalares também aumenta de forma expressiva nas épocas mais poluídas do ano (cerca de 25%), especialmente entre as subpopulações mais susceptíveis, como crianças, idosos e portadores de doenças respiratórias e cardiovasculares.

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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