Conexões necessárias

No final de 2008, o fotógrafo Pedro Martinelli defendeu, nesta entrevista à Brasileiros,  que não adianta insistirmos em falar em sustentabilidade ou preservação da Amazônia, tentar dar lições para caboclos, índios ou ribeirinhos, enquanto as cidades são exemplos de destruição e falta de respeito com o meio ambiente.

Agora, a minha questão é a seguinte: e o Tietê e o Pinheiros? O Rio Pinheiros passa do lado da Universidade de São Paulo que é onde estão as melhores cabeças deste País.

Pedro Martinelli

Lembrei da frase ao passar por cima da ponte da Cidade Universitária no domingo, aproveitando São Paulo vazia por conta do feriado de 7 de Setembro. O cheiro do rio, castigado por esgoto sem o tratamento adequado e resíduos industriais, se mistura com a fumaça constante dos automóveis. Até em um domingo de feriado é desagradável seguir a pé até a maior universidade do país. O trecho é caminho entre a estação de trem e a USP.

Cidade inóspita. Asfaltaram nada menos do que sete faixas para automóveis na porta da maior universidade do Brasil. Vista da Ponte da USP.

O ponto é esse. Não tem sentido pura e simplesmente condenar a derrubada da Amazônia, a extração de ferro de Carajás, a construção de Belo Monte, e tudo mais e continuar consumindo recursos naturais desta maneira insana. Não dá mais para ignorar as relações diretas existentes entre o desperdício de energia com que nos acostumamos e a destruição lenta e constante do planeta. Em termos de mobilidade urbana, leia-se: usar o carro para ir até a padaria.  Sim, usar transporte público e/ou alternativo tem a ver com preservação ambiental.

Leia também: “Conexões Sustentáveis São Paulo – Amazônia: Quem se beneficia com a destruição da Amazônia?“, estudo da Repórter Brasil
sobre as ligações comerciais entre a derrubada da mata e o consumo

Conheça a campanha “Carne Legal”,
do Ministério Público Federal

Alterar o sistema e a cultura de deslocamentos tem a ver não só com tornar as cidades mais agradáveis, mas também com criar condições para um mundo mais justo e (realmente) sustentável. Parece óbvio, não? O grande drama é que nem sempre a informação circula como deveria.

Sim, há alternativas.

Não é à toa que, como se fosse a coisa mais natural do mundo, as montadoras se aproveitam da preocupação e conscientização crescente com o meio ambiente para vender mais. Assim, para quem gosta da natureza, surgem utilitários gigantes, de grande consumo de combustível, com apelo “ecológico”. As propagandas são de esportistas bonitos rodando em direção a montanhas, rios, planícies, tudo fantástico. O drama é que, na realidade, este tipo de paisagem é cada vez mais raro e quem compra um carrão destes está mais sujeito a viver entupindo (ainda mais) as ruas do que aproveitando aventuras.

Corremos o risco de entrar em uma esquizofrenia coletiva, perder a noção da realidade e, mesmo bem intencionados, passar a protagonizar cenas como esta retratada pelo Angeli em junho de 2008 na Folha de S. Paulo (só para assinantes) (replicada aqui, aberto).

Defender não só a preservação da floresta, mas também a criação de cidades mais sustentáveis tem tudo a ver com o fato de O Eco, portal do qual este blog faz parte, criar O Eco Cidades praticamente ao mesmo tempo que o projeto O Eco Amazônia. As conexões são necessárias.

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6 Responses to “Conexões necessárias”


  1. 1 Saci 08/09/2010 às 7:26 pm

    Nada mais pertinente então que falar em uma cidade grande no coração da Amazônia: Manaus. Desde o começo do ano, resolvi tentar reunir no site do Pedala Manaus (http://pedalamanaus.blogspot.com/) algumas ideias sobre ciclovias nessa cidade de cerca de 2 milhões de habitantes, cujo contexto interno de maus tratos com o meio ambiente urbano é incompatível com a maravilhosa reputação do AM em ser um dos estados mais bem conservados do Brasil, onde estão sendo desenvolvidos inúmeros projetos para estimular atividades sustentáveis. O meio ambiente urbano de Manaus está um caos, mas está melhorando gradativamente, embora muito aquém do que poderia se algumas pessoas se engajassem em torno da questão da bicicleta como meio de transporte. Por aqui, estamos trabalhando em um projeto cicloviário para a cidade para ser implementado em etapas até a Copa 2014. No projeto, constará um reflorestamento da boa parte da cidade, como um modo de absorver CO2 e calor, ajudando a regular melhor a temperatura da cidade. Estamos trabalhando junto com a prefeitura, institutos de pesquisa e ongs ambientais. Nesse processo acho que teremos muita coisa para compartilhar e pensei que poderíamos criar uma seçao no Pedala Manaus ou no Outras vias para falar de projetos cicloviários de cidades do mundo, com perspectivas de servir de base para os brazucas. O que acha? Abraço, Ricardo (Saci)

    • 2 Ingo Isernhagen 09/09/2010 às 9:02 am

      Concordo plenamente com todas as questões colocadas. No entanto, andar de metrô e especialmente de ônibus em São Paulo nos horários de pico é insuportável. Penso na minha esposa, grávida, andando de transporte coletivo nesses momentos. Não dá! É desumano! Fora a falta de respeito da maioria da população, absorta em seus próprios mundos egoístas, incapazes de dar licença ou pedir desculpas no dia a dia. É preciso um maciço investimento em transporte coletivo e muita coragem política para isso, vencendo lobbies gigantescos. Eu preferi pagar um aluguel mais caro e ir a pé para o trabalho, mas e quem não consegue? E quem precisa de deslocar da região metropolitana todo dia para vir trabalhar em São Paulo? Torço para que mudanças aconteçam!

      • 3 Daniel Santini 10/09/2010 às 4:26 pm

        Ingo, compartilho da sua aflição com a situação. Lógico que não dá para defender que uma mulher grávida pegue ônibus em horário de pico ou qualquer outra brutalidade. Assim como não adianta querer tentar pedalar na Marginal ou em qualquer avenida com o trânsito tão maluco quanto. Mas temos que tentar ocupar os espaços possíveis e manter a esperança em uma cidade melhor. Não adianta só investimento maciço do poder público em transporte coletivo, é necessária também a nossa participação. Sem mudanças nas rotinas, sem pressão por parte das pessoas, essa transformação não vai acontecer.

        Um abraço,

        Santini

  2. 4 Tiago Rodrigues 08/09/2010 às 9:44 pm

    Em relacao a “Conexoes Necessarias”.

    Sem duvida as bicicletas sao uma alternativa viavel para as grandes cidades como transporte diario, principalmente quando destinada a devida infraestrutura, preferencialmente interligada a meios de transporte publico de massa. Gostei da ideia de criar um espaco para falar de projetos cicloviarios de cidades do mundo para servir como base de debate para a criacao do proprio projeto de Manaus. Por exemplo, temos o que aprender com nossos hermanos de Bogota. Neste sentido ver artigo de O ECO (http://www.oeco.com.br/pedro-da-cunha-e-menezes/46-pedro-da-cunha-e-menezes/21032-bicicleta-como-alternativa-de-transporte). Eu poderia compartilhar minha experiencia com o sistema cicloviario aqui em Brisbane, Australia, onde moro desde 2006. Nunca tive carro por aqui e sempre utilizei a bike como forma de transporte. A cidade ja conta com uma infraestrutura razoavel neste sentido, com pistas exclusivas para bicicletas, faixas de bicicletas na maioria das ruas centrais, sinalizacao de transito especifica para bikes alem de vestiarios publicos e campanhas municipais de concientizacao. Desde de 2006 trabalho em uma bicicletaria local e posso dizer com seguranca que o numero de pessoas aderindo ao transporte diario por meio de bicicleta tem aumentado junto com a evolucao da infraestrutura local que garanti espaco para as bicicletas. Tendo crescido em Goiania, cidade plana, com cerca de 1.5 milhoes de habitantes e um dos maiores percentuais de carros por habitante do Brasil, entristece saber que la existem nada mais que 5-6 km de ciclovia que servem basicamente a funcao de lazer. Sim, podemos aprender com outras experiencias, e estaria contente em poder participar.

    • 5 Daniel Santini 10/09/2010 às 4:22 pm

      Saci e Tiago,

      As observações de vocês são tão boas e pertinentes que preferi escrever um post novo em vez de responder por aqui. Saudações!

      Santini


  1. 1 Conexões necessárias 2 -> Manaus – Brisbane – Barcelona – São Luís « Outras Vias Trackback em 10/09/2010 às 3:06 pm

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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