Sobre a vida (ou força, Tomás)

Este é um post difícil.

Um dos argumentos mais fortes contra pedalar em cidades é o risco de acidentes. O medo de atropelamentos serve para desestimular qualquer tentativa de mudança na rotina. Quando alguém tenta se locomover de forma alternativa é classificado como suicida ou biruta. A lógica de se considerar as ruas como corredores de alta velocidade e priorizar a fluidez em detrimento da vida foi incorporada de maneira tão intensa que, hoje, quando alguém é atropelado, os jornais e sites destacam o congestionamento provocado, e não a tragédia em si.

Andar de bicicleta em metrópoles envolve sim riscos, especialmente quando há campanhas de questionamento à legimitidade deste modal. “Especialistas” em trânsito como Ciro Vidal, “jornalistas” como Barbara Gancia, “articulistas” como Diogo Mainardi, procuram dar um traço quixotesco aos que ousam quebrar a lógica do medo. Se você não topa comprar um carro cada vez maior (que é mais “seguro” no caso de acidentes graves, a não ser que envolva outro carro gigante), se você não topa andar blindado, se você não quer viver em fortalezas com seguranças armados e grades para todos os lados, bem, você é maluco.

São pessoas tristes, sem esperança, que defendem um bom-senso que não se sustenta.  Ignoram que o ciclista não só tem o direito de utilizar o asfalto como, conforme o Código Brasileiro de Trânsito,  tem a preferência. São pessoas que estimulam a agressividade e a competição por espaço, o que, para quem assume o risco de compartilhar as ruas com carros, pode ter consequências graves.

Leia o Manifesto dos Invisíveis

Mas, mesmo considerando tudo isso, sim, existem riscos em pedalar em cidades. E é por isso que este post é difícil.

Esperança x realismo

Foto: Aline Cavalcante (clique na imagem)

Talvez seja porque o Tomás more na minha rua. Talvez seja porque ele foi atropelado pedalando na mesma esquina que eu passo toda vez que vou de bicicleta no supermercado.  Talvez seja por ter participado da homenagem que fizeram para ele, com um  “DEVAGAR VIDAS” no local onde o acidente aconteceu.

O fato é que eu chorei feito criança ao ler que em 12 de agosto ele voltou a falar, depois de mais de 12 semanas internado. Li o blog inteiro e devo ter chorado umas cinco vezes. As mensagens dos parentes do Tomás são cheias de esperança, de um carinho tão intenso, direto e profundo que é impossível não se emocionar.

Algumas pessoas preferem não ser otimistas, optam por serem mais realistas com a intenção (acredito eu) de se preparar para um eventual menor sofrimento futuro.  Se poupar sofrimento, ou sofrer antecipadamente resolvesse…. a vida seria muito mais fácil…. poderiamos, em um dia de muita alegria, separar algumas horas para sofrer por uma morte futura… com o passar do tempo teriamos acumulado horas e dias de sofrimento – tudo por antecipação claro – daí…. quando a pessoa pela qual já sofremos antecipadamente morresse, estariamos “garantido”….pois “os primeiros dias de sofrimento já teriam passado”…. facil não ?”

Marcos Reinach, tio do Tomás, neste post aqui

Força, Tomás, até quem não te conhece está torcendo muito por você (deixe uma mensagem de apoio para família no blog).

Risco e vida
Eu já caí de bicicleta. Tomei um tombo idiota e me arrebentei inteiro.Tinha aprendido a me mover entre os carros, tinha ganhado condicionamento (e velocidade) e estava encantado com a agilidade de pedalar por São Paulo. A combinação de excesso de confiança com falta de coordenação motora me fez ir para o chão naquele viaduto no final da Avenida Sumaré. Mergulhei de frente, quebrei a ponta de um dedo, que ficou esmagado entre o guidão e o asfalto, rasguei braços, joelhos e cotovelos. Foi feio.

Fiquei um tempo sem coragem de subir na bicicleta e passei a pensar se existia mesmo espaço para bicicletas em um trânsito tão agressivo quanto o de São Paulo.

Leia e pense a respeito:
Eu sabia, sobre acidente no blog De Velô Em Salvador
Buenos Aires mala Suerte, sobre acidente no blog Apocalipse Motorizado
Queda transforma prefeito de LA em defensor dos ciclistas (em inglês)
Me tornando parte do problema, sobre como o Thiago Beleza, depois de ficar pedalando e pensando em São Paulo, desistiu, se conformou e passou a desejar mudar de cidade e de país (porque sim, para reflexão, é preciso abrir espaço para quem pensa diferente)

Talvez cicatrizar do pânico de ver o asfalto chegando tão perto da minha cara – e se eu não estivesse de capacete, teria metido a testa no chão -, tenha sido mais difícil do que cicatrizar as feridas físicas mesmo. Pensei muito sobre vida e riscos e acho que este post, além de vir como uma homenagem ao Tomás, é também para dividir com quem nunca sofreu acidentes algumas ideias que tem sido úteis.

Pedalar em São Paulo tem seus riscos. Compreender e aceitar isso é o primeiro passo para conseguir superá-los. Se forem considerados alguns cuidados, andar de bicicleta está longe de ser uma atitude suicida. Pretendo apresentar algumas dicas de segurança nos próximos posts, mas o principal é quebrar a lógica da pressa e abusar do bom-senso. Se você está desesperado para chegar em algum lugar, talvez a bike não seja a melhor opção – apesar de possivelmente ser o meio mais rápido de chegar, dependendo da distância. Eu evito pedalar tenso.

Não se coloque em risco. Evite avenidas e fuja de corredores em que passam veículo grandes e/ou rápidos. Tente ver a cidade de outras maneiras, nem sempre o melhor caminho de carro ou ônibus é o mais agradável ou seguro para pedalar. Cogite fazer um trajeto mais longo se ele for mais seguro – ou mais bonito.

Escolher a bicicleta não tem nada de suicida. Pelo contrário, pedalar é uma declaração de amor à vida, de acreditar que é possível uma cidade mais humana, é um protesto silencioso de esperança.

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13 Responses to “Sobre a vida (ou força, Tomás)”


  1. 1 Aline Cavalcante 16/08/2010 às 6:24 pm

    Parabens pelo post, daniel… muito bom ler seu relato cheio de sobriedade no quesito “seguranca”… fico me questionando varias vezes se isso que to fazendo é correto (leia-se – estimular mais pessoas a pedalar em sp)..
    sera que vale mesmo a pena colocar mais gente nesse guerra? sera que tem algum efeito pratico social?
    o grupo das pedalinas tem me feito perceber uma serie de coisas sobre isso.. acabei virando “espelho” pra muitas meninas.. e nao sei ate que ponto isso eh bom…
    mas enquanto eu acreditar na bicicleta lutarei por ela.. e a gente percebe que é verdadeiro quando mais pessoas se identificam e vêm atras…
    vamo que vamo
    a luta nao pode parar

  2. 2 Thiago Beleza 16/08/2010 às 6:24 pm

    Ainda não desisti da bicicleta. Ela só não é um meio de transporte viável pras distancias que eu preciso vencer e precisando passar pelos lugares onde passo. Coincidentemente, 1 semana depois de comprar o carro, descolei um trampo em embu-guaçu, cidade que fica a 20KM de casa. O transporte público do lugar é uma lástima (onibus a cada 40 min) e bem caro (R$3,85) e fazendo as contas, gasto exatamente a mesma quantidade pra ir de carro. Dou carona aos colegas de trabalho, chego mais cedo em casa e não enfrento o transito da cidade.

    MAs vc tem razão sobre me mudar.. ao menos dessa cidade….

    Admiro essa coragem.. Quem sabe, com o tempo, amadureça a idéia de queo risco não seja assim tão grande…

    • 3 Daniel Santini 17/08/2010 às 11:34 am

      Thiago,

      Será que, em vez de mudar de cidade, a gente não consegue mudar a cidade?
      = )

      Quanto ao carro, cara, sinceramente não se preocupe em justificar a opção – que deve ser plenamente respeitada. Acho que só o fato de você ter essa vontade de mudar e ter tentado já é fantástico. Se puder ajudar a fazer pressão do lado certo para que um dia não seja tão inóspito pedalar em São Paulo, já é um começo. Coloca um adesivo “eu preferiria estar pedalando” no seu carro!

      E se quiser voltar a tentar e precisar de uma mão, escreve na lista da Bicicletada ( bicicletada-sp-subscribe@lists.riseup.net ) que eu tenho certeza que você encontra um bom bici-anjo no seu pedaço para te ajudar a encontrar os melhores caminhos. Como eu disse, use e abuse do seu bom-senso e, se em algum trecho não se sentir seguro, NÃO insista em encarar. A vida é prioridade e a nossa luta precisa de inteligência e cuidado.

      Também fico apavorado com histórias como a da Márcia Prado, a ciclista atropelada na Avenida Paulista, ou a do Tomás.

      Um abraço,

      Santini

      • 4 Thiago Beleza 17/08/2010 às 7:09 pm

        Sobre mudar a cidade, isos me leva a inúmeras questões sociológicas sobre as quais ja falei em meu blog varias vezes… Existem duas cidades, acredite… Eu luto, pela minha cidade.. onde eu vivo todos os dias… MAs eu não vivo na capital do luxo, dos bares descolados,do metrô lotado… Moro mais além, onde o metrô não chega… saca?

        A outra Sampa, é o local onde os meus só vão pra trabalhar… E não sei se quero que ela mude.. ou se prefiro que ela se exploda, como todos os malucos paulistanos dentro…rsrsr… Mas são só devaneios.. Acredito sinceramente sobre a bicicleta ser uma solução viável para o transito de sampa… Só não daria minha vida por essa causa… e acredite, não pedalei nem por um mês e senti a dona morte passando do meu lado, debaixo de rodas dde caminhões gigantes e nos olhares bizarros dos motoristas (inclusive daquele que tentou me pegar mas tomou um pelé)…

        Pedalar não foi uma experiência tão gratificante tempos atras.. mas quem sabe volte a ser … to me preparando pra voltar a ativa…

      • 5 Daniel Santini 20/08/2010 às 11:26 am

        Thiago,

        Sei onde mora, conheço o Grajau e tenho uma grande amiga que todo dia pena no trajeto até a Barra Funda. Acredite, diminuir essa divisão entre as duas cidades que você desenhou, aproximar pessoas e ideias, é necessário – e alterar o sistema de deslocamentos faz parte desse processo de democratizar a cidade toda. Não faz sentido a gente ter um centro destruído e/ou fortificado e as pessoas vivendo em bairros distantes, com rotas de transporte público que só apontam para este centro.

        Enfim, acho que estamos do mesmo lado nessa briga, não é mesmo? Melhorar a cidade e fazer com que a morte pare de passar tão perto quando a gente pedala.

        Torço para um dia você poder pedalar tranquilo, meu caro.

        Saudações,

        santini

  3. 6 Thiago Beleza 16/08/2010 às 6:27 pm

    Ah,.. esqueci;;; historias como a do seu tomás ou a da ciclista atropelada na paulista (desculpe, sou péssimo com nomes) me enchem de medo.. e de tristesa… justamente por essa inversão da prioridade pela velocidade e fluidez em detrimento da vida…

  4. 7 Marcelo Siqueira 16/08/2010 às 6:35 pm

    Parabéns pelo texto! Tudo que li e ouvi sobre o Tomás só me trouxe força de continuar lutando por sociedades mais pedaláveis. Estou sempre emanando Rei-Ki para essa família, esse tio e todos aqueles desejaram vibrações positivas (a)diante de uma pessoa querida… o Tomás… um amigo desconhecido

  5. 9 Tom Bike 17/08/2010 às 10:24 am

    Difícil mesmo discutir, muita gente, mesmo no meio biker assume uma postura de “faz mal aos negócios” & nem fala do assunto. Por coincidência falei faz pouco tempo do aumento catastrófico dos acidentes com bicicletas aqui na nossa cidade.

    Meu amigo Paulo da Magrela pegou mais pesado ainda

    http://amagrela.blogspot.com/2010/07/nova-ordem-no-transito-mate-o-ciclista.html

    Essa lebre tem mesmo que ser levantada. Muito bem! Fingir que nada acontece é sempre pior…

  6. 10 davidgom 17/08/2010 às 12:17 pm

    Felizmente (ou infelizmente nalguns casos), ainda há muitas pessoas que gostam de pedalar todos os dias…

    http://www.eradopixel.wordpress.com

  7. 11 matiasmm 18/08/2010 às 9:32 pm

    humm, gostei do texto, e dos comentários.
    pedalar pela cidade de São Paulo é muito perigoso mesmo. Saber disso é um passo para se manter em segurança ao pedalar. Mudar a cidade é um sonho pelo qual acredito que vale viver. Mas vale dizer que mudar-se dela é uma opção que também cogito, mesmo gostando bastante dessa diversidade de pessoas e de atrações culturais aqui ofertadas.
    E viva o Thomás!!

  8. 13 Mane 24/08/2010 às 9:16 am

    Se fosse um bicicReteiro tava fudido ou talvez morto…


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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