Formatos e valores

Mapa da rede de transporte de Curitiba. Em laranja, as linhas de ônibus biarticulados que circulam nas canaletas e têm embarque em tubos. Crédito: Maximilian Dörrbecker

Uma última sobre Curitiba, para compartilhar impressões e informações sobre a capital tida como referência em mobilidade urbana no Brasil. A cidade ficou conhecida por seu sistema de ônibus, com veículos confortáveis, ágeis e silenciosos, e por suas ciclovias arborizadas. São vantagens que lhe renderam a fama de metrópole verde e, ao arquiteto e urbanista Jaime Lerner, ex-prefeito por três vezes e ex-governador do Paraná duas, projeção nacional e capital político.

“Não adianta ficar fechado e fazer o muro cada vez mais alto”
leia entrevista de 2009 com boas ideias de Jaime Lerner no Globo

“Tenho absoluta certeza de dizer que, se forem coladas
mais alternativas, as pessoas usam menos o carro”
leia entrevista de 1992, com o então prefeito Lerner
defendendo o sistema de ônibus que implementou
e fazendo críticas ao custo do metrô, no RodaViva

O sistema de ônibus é baseado em conceitos interessantes. Batizado de Rede Integrada de Transporte (RIT), ele funciona a partir de eixos estruturais nos quais circulam os Veículos Leves sobre Pneus (VLP). São as canaletas, avenidas segregadas que permitem que ônibus circulem com mais velocidade. Planejadas para dar conta de um fluxo intenso de pessoas, tal rede é abastecida por tubos: em vez de pagar dentro dos ônibus, os passageiros entram na estrutura e pagam antes de embarcar. Quem entrou na rede pode trocar de ônibus e modificar o trajeto sem ter que pagar de novo – sistema semelhante ao Bilhete Único em São Paulo. Esse eixo estrutural é alimentado por redes auxiliares, que circulam nos bairros e ajudam a integrar as demais regiões da cidade (confira itinerários). Tal conceito é tão bom que serviu de inspiração para outras cidades – tive a chance de andar no de Bogotá, que, assim como o de Curitiba, é bem confortável.

Brasão da cidade. O Hino fala que "Curitiba tem a imagem / Dum paraíso na terra" (clique na imagem)

Some-se a esse sistema, que é a principal bandeira verde da cidade, programas de reciclagem e reaproveitamento de lixo e a valorização de parques e áreas verdes, e dá para entender como tal imagem de Curitiba como uma eco-metrópole se consolidou.

A fama é interessante, ajuda a atrair pessoas que buscam qualidade de vida e acreditam em um mundo mais sustentável, e serve para que o debate aconteça a partir de premissas mais sensatas – tais como a importância de priorizar o transporte coletivo em detrimento do individual (leia-se ônibus e metrô em vez de carros). Neste sentido, as exposições que Jaime Lerner faz são valiosíssimas e podem ajudar na construção de cidades mais humanas.

Crédito: Worldcarfree (clique na imagem)

Sobre mitos e heróis
Mas Curitiba está longe de ser uma cidade modelo perfeita e Lerner também não é só um urbanista com uma visão interessante de espaços públicos – estamos falando de um político que nasceu na Arena, base de sustentação da Ditadura Militar, e que hoje é filiado aos Democratas, antigo PFL, partido que reúne os herdeiros de tal regime. Ele tem o mérito de ter possibilitado uma série de reformas importantes, mas é também o responsável por congregar diferentes interesses privados locais.

A formatação urbana é problemática e sofreu como em todas as outras metrópoles brasileiras deformações graves em função da pressão imobiliária* – talvez o caso mais emblemático seja o das terras da Corretora Cinco, que receberam infraestrutura para abrigar os moradores da Cidade Industrial de Curitiba, mas acabaram, após muito tempo ociosas, destinadas à construção de torres residenciais de luxo. Ironia à parte, elas foram batizadas de Ecovilles.

O sistema de transportes, apesar de bom, também sofreu distorções por conta de pressão do setor privado* – a tensão atingiu o ápice durante a gestão do hoje governador Roberto Requião (PMDB). Durante décadas, prevaleceu a divisão da cidade em eixos radiais a partir do centro, conforme a concessão estabelecida – o que, obviamente, implicou durante anos no estabelecimento de rotas que nem sempre eram as melhores para os passageiros.

Caminhos
Por último, neste exercício de desconstrução vale falar das ciclovias. Se o seu caminho passa por elas, maravilha, você poderá pedalar tranquilo por parques, ouvir passarinhos e até colocar fones para escutar uma música. É lindo. Agora, se o seu trabalho não for exatamente próximo a uma dessas áreas verdes, bom, prepare-se para escutar buzinadas e mensagens simpáticas como “vai pedalar na ciclovia!”, acompanhadas de finas “educativas” e buzinadas, tudo fundamentado em uma lógica assassina de que ciclista não deve andar na rua e por isso pode ser empurrado para fora (às vezes literalmente). A cidade é toda rasgada por avenidas rápidas e gente nervosa querendo chegar logo.

Crédito: Wordlcarfree (clique na imagem)

Não é por acaso que os trabalhadores que utilizam a bike como meio de transporte acabam se arriscando nas canaletas dos ônibus, espaço mais fácil de dividir do que as pistas com carros em alta velocidade e pouca ou nenhuma cultura de compartilhamento. E, assim como é necessário desconstruir o mito de Curitiba como cidade modelo e ver que existem complexidades a serem consideradas, é preciso também fazer a contextualização necessária ao se falar de tal prática. É fácil vilanizar pura e simplesmente quem se arrisca nas canaletas, assim como é fácil chamar de suicida quem pedala em uma cidade como São Paulo.

Melhor do que criticar, talvez seja questionar a lógica insana de se priorizar o fluxo a todo custo. Talvez seja melhor refletir sobre a segurança no trânsito de uma cidade em que os ciclistas se sentem mais seguros dentro do que fora das tais canaletas. Pessoalmente, detesto dividir espaço com ônibus e prefiro manter distância de qualquer coisa muito rápida ou muito grande no trânsito. O vento desequilibra, o barulho assusta, não é exatamente divertido. Mas é preciso considerar os múltiplos aspectos e não simplesmente classificar pessoas como vilões ou heróis. Ou cidades como “modelos”.

* Se quiser se aprofundar sobre o histórico de pressão dos setores privados na formatação física da cidade e dos transportes, vale dar uma olhada no livro que entrou na biblioteca hoje:  “Curitiba e o mito da cidade modelo”, do Dennison de Oliveira.

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10 Responses to “Formatos e valores”


  1. 1 Moreira 11/08/2010 às 3:07 pm

    Boa Santini. Agora fica mais fácil entender o mito e cobrar cópias dos avanços.

  2. 2 Rayane Souza 11/08/2010 às 5:31 pm

    Muito bacana o texto, Daniel.

    Na minha opinião [e diria que também da grande maioria das pessoas sensatas] iriam falar que o objetivo de todo planejamento urbano seja a SEGURANÇA.
    Pena que, essa questão do fluxo é tão enraizada na nossa cultura como solução de “cidades-ideais”, que um planejamento “alá Curitiba” é facilmente vendido como sendo revolucionário.

    Não que eu esteja sendo contra intervenções que melhorem a fluidez, muito pelo contrário, só penso que essa fluidez deve ser segura para as pessoas que participam dela.

    Construir corredores para ônibus rápidos, no caso discutido no texto, só está ajudando a vencer as distâncias construídas pelos carros [montadoras]. E se pensarmos, só estão ajudando a chegar naqueles condómínio feitos pelas incorporadoras.

    Enfim… é uma linha que quanto mais puxa, mais problemas vemos.

  3. 3 Romeu 12/08/2010 às 8:24 am

    Bacana o texto, Daniel.
    Como ex-morador de Curitiba e ex-participante da Bicicleta nessa cidade, achei a sua análise muito pertinente. Sei muito bem o que são as “finas educativas” e muitas vezes tive que pular para a calçada para não ser atropelado.
    É curioso observar que a primeira fase da urbanização da Corretora Cinco (com a construção de largas avenidas que não época não se entendia muito bem para que serviam) foi feita na primeira gestão de Lerner como prefeito, nos anos 70. A segunda fase ocorreu na segunda gestão, com a construção do Ecoville, nos anos 90. Mas curioso mesmo é o fato de que aquelas terras – originalmente rurais – pertenciam a familiares de Lerner. Pode-se imaginar o quanto valorizaram ao serem priorizadas pelo planejamento urbano municipal.
    Mesmo com esses “poréns”, ainda sim o resultado do sistema de transporte de Curitiba foi interessante e funcionou muito bem por algumas décadas. Hoje está saturado e a cidade precisa urgentemente ser repensada.

    Abraços

    • 4 Daniel Santini 17/08/2010 às 11:21 am

      Ardilhes, Rayane e Romeu,

      Obrigado pelos comentários. Curitiba é um caso para pensar e repensar durante muito tempo.

      = )

      Santini

  4. 5 oscar 20/08/2010 às 12:10 am

    O que caberia nas entrelinhas deste texto, irretocável, diga-se de passagem:

    -O Oligopólio das empresas de transporte coletivo de Curitiba, quando Lerner – do auge de sua cátedra de Urbanista-mor – discursa contra o metro, ele está simplesmente defendendo os interesses daqueles que financiam e su$tentam sua seguindas gestões, isto é claro, depois de ter sido pela primeira vez, prefeito biônico pela Arena (como destacou muito bem o Daniel).
    -A especulação imobiliária foi o exemplo mais escandaloso de privilégios que, pasmem, não saiu no “grande jornal do paraná” – por óbvio, eles também comem do mesmo bolo.
    -O conceito de “cidade modelo”, “capital ecológica”, “cidade de primeiro mundo”, dentre outras faláceas, é fruto muito mais dos caros anúncios em revistas e programas televisivos, do que pelas ruas asfaltadas nos bairros, pelos postos de saúde, crechês e escolas de qualidade e, em quantidade. -Sabido o Lerner né ?!?! Sabe que mesmo sem casa, sem escola e sem saúde, um povo que vê todo mundo dizendo que ele “é o melhor”, ele é “cidadão de primeiro mundo”; começa a acreditar e, até se orgulha de ver a sua cidade ser decantada em prosa e verso, mesmo sendo a cidade do seu cotidiano, o oposto da que ele vislumbra na TV.
    Não precisaria nem ser Jornalista (coisa que o Daniel é e com méritos), pra fazer uma análise que vai muito além das primeiras e superficiais impressões que nos permitem. Mas o Daniel neste texto acima, demonstrou saber muito mais sobre Curitiba, do que a maioria dos meus concidadãos aqui da cidade-das-mentiras-bem-contadas!
    PERFEITA AVALIAÇÃO, suscinto e esclarecedor, Parabéns Santini.

    • 6 Daniel Santini 20/08/2010 às 11:32 am

      Agradeço as gentis palavras, Oscar. E faço votos de que, tendo em mente todo esse contexto, você e os outros que lutam tanto para uma Curitiba verdadeiramente mais humana, saibam aproveitar a favor esse sentimento de construção de uma capital ambiental e que seja referência de mobilidade. Abraço e seguimos em contato.

      Santini

  5. 7 André Caon Lima 20/08/2010 às 11:37 am

    Daniel, a integração existente em Curtiba só serve para superlotar terminais e “tubos” de “Ligeirinho”.
    Para formar uma melhor opinião do transporte coletivo de Curitiba, use-o nos horários de pico.
    A integração temporal já foi sugerida (o bilhete fica habilitado por 2h, por exemplo), dispensando a baldeação exclusiva dos terminais e poupando tempo de viagem ao usuário.
    Esta GAMBIARRA com nomes técnicos e sofisticados faz mais de 2 vítimas por dia.
    A última licitação já homologada, terá validade de 25 anos! O pedágio urbano contra o cidadão de baixas emissões está consolidado!
    Em termos de metrô, o que se propõe é mais um projeto meia-boca com nome bonito: sistema “cut and cover” com traçado duvidoso e sem discussão popular.
    Ruas estão sendo alargadas e praças e jardinetes estão sendo extintos para dar lugar a “binários”.
    Na última quinta feira, pedestres se organizaram em barricadas numa manifestação contra atropelamentos num bairro periférico, jogando pedras nos veículos que avançavam. Uma motorista abriu fogo contra a manifestação e matou um manifestante. Apareceu na delegacia, disse que eram bêbados, foi indiciada e imediatamente liberada. A prefeitura deu desculpas para não atender ao pedido dos manifestantes
    Sobre bicicletas, seu texto já diz tudo: é só para passeio ou para visitante ver.
    Nada disso aparece na imprensa “mainstream”, mas é a verdade do caos da mobilidade urbana de Curitiba.
    Parabéns pelo texto.

  6. 8 george 20/08/2010 às 11:38 am

    Texto sensacional e absolutamente imparcial. Um curitibano orgulhoso como eu sentiu-se plenamente satisfeito com a forma como a cidade (na qustão de transporte) foi descrita.

    Parabéns!

    Abraços.

  7. 9 Gunnar 29/11/2010 às 9:12 pm

    What? DEM herdeiros da ditadura? Revisionismo pouco é bobagem.


  1. 1 “Curitiba faz tudo pelos carros, se continuar assim, não teremos mais espaço”. Trackback em 12/11/2010 às 10:40 am

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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