Sobre cidades e pessoas

Acabei de atualizar a sessão “biblioteca” com um trecho do Diários de Bicicleta, em que o David Byrne fala sobre como o formato das cidades afeta as pessoas e vice-versa. No parágrafo que reproduzi na página, o músico, que é também um dos principais cicloativistas de Nova York, cita Los Angeles como estereótipo de metrópole em que o automóvel impera. E reflete sobre o impacto de tal priorização na maneira como as pessoas interagem (umas com as outras e com a cidade).

Cenário inóspito na Barra Funda

Dá para substituir LA por SP e tentar pensar um pouco sobre como a lógica uma cidade tão hostil à convivência nas ruas desumaniza seus habitantes. Todas as regiões de São Paulo foram cortadas por avenidas que tornaram mais difícil a circulação de pessoas. São áreas com muito asfalto, nenhuma árvore, com carros e motos barulhentos cuspindo fumaça na cara de quem passa. É o tipo de cenário inóspito em que logo as casas desaparecem e são substituídas por prédios espelhados, torres de concreto, aço e vidro sem cara, sem cor, sem nada. Escritório assépticos, ar condicionado demais, uma lógica insustentável e de gosto duvidoso.

(não consigo escrever isso sem registrar uma homenagem ao Ruy Ohtake e o estrago que ele fez em Pinheiros, na Pedroso de Moraes, ao subir no meio de um monte de casinhas um prédio com espelhos roxos que não tem absolutamente nada a ver com os arredores – atentado estético!)

Pois bem, a tese é que essa lógica de asfalto, concreto e espelhos demais, essa arquitetura chata que desestimula a interação entre as pessoas e torna tudo muito grande e inóspito, faz também com que fiquemos mais duros. Sem a convivência, sem poder exercer a tolerância, sem o contato com o diferente, as verdades viram certezas incontestáveis, o estranho assusta e o medo passa a ser decisivo. Assustados, construímos muros mais altos, colocamos cercas, câmeras de vigilância, deixamos de confiar nas pessoas.

Tem dois caminhos a seguir a partir daí. Ou continuamos neste ciclo perverso, construindo moradias que parecem castelos medievais, com torres altas, seguranças, portões e fossos cada vez maiores, e atravessamos as áreas não-seguras e bolsões de miséria em carros cada vez mais rápidos e blindados, ou revertemos esse ciclo. Exagero? Pense nas transformações em curso no bairro em que você mora. A cidade se radicaliza.

Se seguirmos nesta lógica, é bom ter em mente que será preciso convencer as pessoas excluídas da vida em castelos e bolhas blindadas a não se revoltarem. Seja pelo discurso falso e vazio de que todos podem prosperar em uma cidade assim, seja pela repressão pura e simples – e aí não dá para culpar a polícia por abusar da violência para manter uma ordem que não se sustenta.

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5 Responses to “Sobre cidades e pessoas”


  1. 1 Marta 26/07/2010 às 6:05 pm

    Sobre cidades e pessoas
    Concordo totalmente com o Daniel Santini sobre o efeito dessas massas de concreto na vida e no psiquismo das pessoas que já nao conversam, que têm medo, que nao trocam nada com aqueles que sao diferentes.
    Na verdade isto faz parte de uma imensa máquina montada para extrair do ser humano tudo o que ele pode dar de si de conhecimento, de energia, para o enriquecimento das grandes companhias, dos conglomerados, que acumulam riqueza de modo inútil já que esta nao serve ao conjunto dos seres humanos. HOje tudo se resume em consumir desenfreadamente e quanto mais se consome mais o vazio interior é grande. Veja-se a necessidade de atordoamento dos jovens nas raves e outros encontros com ruídos de 200 decibeis, bebidas e drogas. Embora tenhamos o dever de ser otimistas, se nao houver uma quebra de paradigma, creio que o nosso futuro como especie está seriamente ameaçado, até pelas condiçoes planetárias, água, esgotamento de metais,etc.

  2. 2 Vanessa 26/07/2010 às 8:29 pm

    É tempo de resgatarmos as coisas simples da vida…
    Ou a vida passará desapercebida por muitos…
    Cada um no seu carro, na sua casa, no seu mundinho…trabalhando para o enriquecimento de um único ser…e não em prol da HUMANIDADE!!!

    É tempo de despertar…

    De AMAR, COMPARTILHAR, VIVER EM IRMANDADE…

    Que a LUZ invada a mente e ilumine o caminho das pessoas adormecidas…pelo encantamento do mundofazdeconta!!!

  3. 3 Raimundo Jr. 27/07/2010 às 9:28 am

    Não podemos nos esqueçer que as causas e a mola motriz desta forma de viver antropofagica é o consumo, é o que rege a maneira de pensar do cidadão comum. O consumo dita desde a matriz energética até os nossos desejos mais profundos vendendo-nos falsos paraísos. A matri(x)z energética tem de ser quebrada; e isso atropela interesses mundiais, por que precisamos das crises do petróleo? para alimentarmos as grandes coorporações? subsidiar modus vivendis impostos? por que gerar desilgualdades? Abramos os olhos para quem são os verdadeiros ganhadores desta forma de consumir o mundo.

    • 4 Rayane Souza 27/07/2010 às 12:08 pm

      Olá Daniel!

      Gostei muito do seu texto e concordo plenamente com tudo que foi escrito.
      Incluse, queria lhe dar uma idéia de livro, para colocar na biblioteca: “Morte e vida de Grandes Cidades”, de Jane jacobs.
      É um clássico. Esse livro mudou minha vida.
      Ela fala muito bem de como uma cidade tem de ser para que seja segura ao seus habitantes. Como a arquitetura “linha de produção”, condomínios fechados e vias expressas acabam com qualquer cidade que seja. E também, como a diversidade de funções, para determinada região, faz com que haja qualidade de vida para as pessoas.
      Muito bom e recomendo.

  4. 5 Gisele Brito 27/07/2010 às 7:07 pm

    “A cidade é muito louca. Outro dia estava subindo a Brigadeiro Luiz Antônio com minha namorada. A avenida, conhecida pelo nome graças à São Silvestre, está bem sinistra. Cinza, estreita. Cheia de ônibus e sobradinhos tombados e detonados. A gente já tinha feito uma puta caminhada pelo centro e queria chegar na Av. Paulista, mas estava escurecendo e a Brigadeiro fica com um jeitão cada vez mais hostil. Bom, resolvemos arriscar outra via e viramos numa transversal. O efeito foi imediato: de vítimas, passamos ao papel de suspeitas. A rua e todo o bairro que estava logo ali ao lado é nobre, cheio de prédios enormes e condomínios bem cuidados. E cheios de vigias, câmeras e guaritas. A sensação que tínhamos era que a qualquer momento seríamos abordadas por um segurança daqueles e intimadas a explicar o que fazíamos por aquelas ruas vazias, destinadas à nobreza paulistana. Depois de andar mais um pouco, encantadas com a complexidade dessa megalópole, caímos no Bixiga – um bairro tradicionalíssimo, cheio de cortiços, alguns tombados também; um bairro com jeitão de perifa no centro da capital – e perguntamos pra um morador de rua que pediu um trocado como fazia pra chegar na Av. Paulista.
    O Bixiga não é exatamente um bairro tranquilo. Vários pontos de tráfico de drogas funcionam lá e tem mil festas bacanas que acontecem ao longo do ano, tem a Vai Vai que é uma das escolas de samba mais tradicionais da cidade, é um berço de bambas, das mamas italianas e foi refúgio de escravos, naqueles tempos.
    Os três lugares têm a sua atmosfera bastante influenciada pelos fluxos e são bem diferentes, apesar de tão próximos. Vale a pena, é uma puta viagem.”


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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