Realidade e caminhos a seguir

"Vamos caminhar ou usar nossas bicicletas - isso economiza combustível e é bom para a nossa saúde!", página de um dos livreto com recomendações da Organização Mundial de Meteorologia. (Foto: Daniel Santini)

Muita gente argumenta que defender o uso da bicicleta como meio de transporte em metrópoles como São Paulo é loucura de quem não tem noção da realidade. Que priorizar sistemas públicos coletivos, incluindo metrô, trens e ônibus, ou alternativos, é inviável e que, na verdade, as pessoas querem mesmo é andar de carro e deve-se insistir na ampliação de avenidas, túneis e viadutos monstruosos. Andar de bicicleta em cidades grandes é  perigoso, argumentam, e tentar mudar isso não passa de uma luta quixotesca e sem sentido. Eu já ouvi isso, mais de uma vez.

Leia entrevista com Jackson Schneider, feita quando
o executivo da Mercedes-Benz presidia a Anfavea

Pois bem. Acabei de voltar de seminário internacional em Belo Horizonte organizado pela Media21 sobre fome, aquecimento global e perspectivas para os agricultores do planeta (aqui tem informações básicas sobre o evento, dados diversos e contatos dos organizadores). Entre uma infinidade de mesas sobre como ampliar a produção e, principalmente, melhorar a distribuição de comida*, uma das falas mais interessantes foi a de Michel Jarraud, secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia (WMO, da sigla em inglês), o braço da Organização das Nações Unidas para questões climáticas.

Michel Jarraud, secretário-geral da WMO. (Foto: Divulgação)

Para o francês que comanda o monitoramento do clima no planeta, não há dúvidas sobre a gravidade do aquecimento global e é preciso tomar medidas urgentes para reduzir as emissões de carbono. Loucura é pensar que sobreviveremos sem mudanças de hábitos e sistemas:

O aquecimento é uma realidade grave. Se não tomarmos providências, a produção de comida será mais e mais difícil. Os mais pobres serão os mais prejudicados. Haverá mais perdas que ganhos. Precisamos agir já

Entre as medidas consideradas decisivas pela WMO para conter as emissões de carbono está justamente reduzir o consumo de combustível (renovável ou não) e buscar alternativas de transporte mais sustentáveis. Criar cidades em que as pessoas caminhem mais e andem de bicicleta não é mais apenas uma alternativa, mas uma necessidade para manter o equilíbrio do planeta. Loucura ou falta de noção da realidade seria ignorar todos os sinais de colapso climático e seguir asfaltando tudo e investindo na produção crescente de veículos motorizados.

*************

Quando se trata de aquecimento global e seus impactos talvez um dos aspectos mais duros é que justamente a população mais marginalizada e pobre é a que está mais sujeita aos extremos de temperatura no planeta, enchentes e desastres naturais. Sem falar na desestabilização na produção de alimentos e, consequentemente, na fome. Quando se trata de locomoção, optar por alterar hábitos tem a ver com buscar também um mundo mais justo.

Cartaz do evento realizado em Belo Horizonte. (Foto: Divulgação)

É claro que dá para negar todas as evidências concretas e o alerta da WMO, e seguir formatando as cidades para carros. Enquanto parte da população se desloca confortavelmente para lá e para cá, outra parte puxa carroças para levar para reciclagem dejetos não aproveitados no ciclo intenso de consumo dessa primeira metade.

Cientistas e cientistas

Há “cientistas”, aliás, que contestam o aquecimento global e a necessidade de construirmos sistemas mais sustentáveis. Apesar de haver gente respeitável que é contra exagero e alarmismo em relação à questão, como o geógrafo Azis Ab Saber, há muitos também que tem relações diretas com empresas interessadas em manter linhas de produção insustentáveis e, quem sabe, até lucrar com a preocupação crescente em relação ao bem estar do planeta.

No seminário citado, aliás, destaque para especialistas diretamente vinculados com empresas de biotecnologia e transgênicos que se apresentaram como pesquisadores independentes e que, sem cerimônia, não só tiraram sarro de ambientalistas, como defenderam menos proteção para as florestas e ampliação dos cultivos de cana-de-açúcar, soja e eucalipto sobre áreas ainda preservadas. Tais “estudiosos” garantem que a solução para a fome no planeta não é agricultura familiar, mas sim aumentar a produção dando carta-branca para manipulação radical da natureza e ampliação do uso indiscriminado de agrotóxicos e do monocultivo. Não vale nem citar o nome de tais “cientistas”.

* Quando se trata de fome, a posição da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, da sigla em inglês) é clara. A principal medida para combater o problema é melhorar a distribuição de alimentos e o acesso à terra.

Leia entrevista com José Graziano da Silva,
representante da FAO na América Latina e Caribe

Conheça e participe da campanha “1 bilhão de pessoas
vivem com fome crônica e eu estou louco de raiva”

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4 Responses to “Realidade e caminhos a seguir”


  1. 1 roosevelt s. fernandes 17/07/2010 às 6:15 pm

    PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE PRODUTORES RURAIS

    A Federação da Agricultura do Estado do Espírito Santo (FAES), através de seu Conselho de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (COMARH), com o apoio do Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA, está iniciando uma pesquisa (inéditas e em âmbito estadual) voltada ao estudo da percepção ambiental dos produtores rurais. Entre outros objetivos, a pesquisa visa assegurar à FAES informações adicionais para seu programa de conscientização ambiental do segmento dos produtores rurais. É pretensão do NEPA levar (posteriormente) esta importante pesquisa para outros Estados de modo a, progressivamente, ter o cenário da percepção ambiental nacional do segmento O NEPA acaba de concluir na Região da Grande Vitória (ES), pesquisa também inédita para a região, um estudo da percepção ambiental da sociedade frente à problemática (causas, efeitos, prós e contras) das mudanças climáticas.

    Roosevelt S. Fernandes, M. Sc.
    Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA
    roosevelt@ebrnet.com.br

  2. 4 roosevelt s. fernandes 30/05/2011 às 12:27 am

    PRÉ REFLEXÕES – SEMANA DO MEIO AMBIENTE

    1 – O que deve / precisa mudar na Educação Ambiental do século XXI em relação àquela adotada no século XX

    O processo de estruturação de Programas de Educação Ambiental deve ter seu foco ampliado. Da fase dos “especialistas em EA” deve passar (também) a envolver o professor “em sala de aula”. Perceba que não estamos excluindo os primeiros – nem poderia – mas enfatizando (e muito) o papel dos professores que convivem (efetivamente) com os alunos em sala de aula. Pelo menos estes (os professores) devem dispor de instrumentos (de baixo custo e de fácil aplicação) para avaliarem o perfil prévio de percepção ambiental de seus alunos (pré diagnóstico) – ou seja, como eles (alunos) percebem os diferentes pontos da temática ambiental – para que possam analisar se os programas de EA que estarão oferecendo a seus alunos atendem às necessidades / expectativas dos mesmos. Da mesma forma (pós diagnóstico), avaliar a eficácia do programa, ou seja, quais as alterações no perfil de percepção ambiental induzidas a partir da implantação do programa. Portanto, a integração entre quem propõe a ação (especialistas) e quem administra (de fato) o problema em sala de aula, se mostra como simultânea e imprescindível. E assim que vemos – visão dinâmica – a EA do século XXI em relação a até então adotada (e com sucesso) no século XX.

    2 – A sociedade e a percepção ambiental em relação a problemática (causas, efeitos, prós e contras) das Mudanças Climáticas – A realidade na Grande Vitória.

    Disponível aos interessados, a pesquisa que tomamos como base para este comentário.
    A pesquisa mostra uma sociedade que se diz “conhecedora da temática” – na verdade “conhece os termos utilizados na discussão da temática” – mas, que revela, quando perguntada “como pode contribuir para a causa”, uma preocupante realidade. Ou seja, um “exército” que se diz motivado para a batalha, mas que parece não conhecer (pelo menos ao nível mínimo que deveria) as armas a serem utilizadas. É esta a sociedade que desejamos? Será que vamos ter de esperar a Semana de Meio ambiente de 2012 para voltar a pensar neste assunto?

    Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA
    Grupo sem fins lucrativos
    roosevelt@ebrnet.com.br


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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