O homem que comia fumaça

O emprego deste senhor é segurar uma placa anunciando um estacionamento na movimentada avenida Marquês de São Vicente, na Barra Funda. Ele fica de pé o dia inteiro engolindo fumaça do lado do Tribunal Regional do Trabalho. (Foto: Daniel Santini)

A previsão do tempo indica que teremos uma frente fria nesta semana. Sábado e domingo já deu para sentir a umidade no ar. Ufa. Por mais de duas semanas a região metropolitana de São Paulo ficou sem chuva. Dependendo de onde você mora, talvez o tempo seco tenha durado até mais. As gotas não só refrescam o asfalto como deixam a cidade mais agradável, menos inóspita. Com o tempo seco e frio, a poluição dos carros se concentra próxima ao solo. O ar quente da atmosfera não deixa o ar frio subir e, com isso, toda sujeira que saí dos escapamentos fica na altura dos nossos narizes. A gente literalmente come essa poeira tóxica. O número de internações por doenças respiratórias dispara nesta época do ano, afetando principalmente crianças e idosos. É claro que tem quem se preocupa com outras questões, como o pó em cima de um capô.

Nesta época do ano, além de pensar em começar a usar uma máscara no dia-a-dia, fico com os olhos irritados e tenho que tomar o dobro de água. Tem dia que é insuportável. Mas para algumas pessoas imagino que a situação é pior. Como este senhor aí da foto, que passa os dias segurando a placa de um estacionamento. Bem do lado do Tribunal Regional do Trabalho, o homem fica horas e horas ao lado da avenida Marquês de São Vicente respirando a sujeira de infinitos carros. O local é pertinho de onde almoço de vez em quando – um trecho tão movimentado e barulhento que é difícil sequer conversar na rua.

Não sei o nome dele, não sei de onde ele é e nem o que sonha com a vida. Imagino que deve ser o avô de alguém. E que deve tossir horrores à noite em casa.

Qualidade do ar

A maneira como escolhemos transitar afeta diretamente a saúde dos outros habitantes da cidade. Não falo só porque, se você opta por usar 1 tonelada de ferro e aço (e muito plástico também) para mover algo entre 50 kg e 100 kg de carne, precisará arranjar espaço na hora de estacionar. Se essa tralha toda vale alguns milhares de reais, empregos como o do senhor de chapéu surgirão aos montes, assim como vagas para manobristas, seguranças e afins. Gente que vai passar o dia em garagens subterrâneas comendo fumaça. A cidade vai se formatando para atender a essa demanda por vagas. Escolas de natação, floriculturas, sorveterias, lojinhas e demais estabelecimentos se transformam em estacionamentos, ruas agradáveis viram espaço de disputa entre manobristas alucinados e flanelinhas.  Mas não é sobre isso este texto, um dia retomamos o assunto.

Queria falar mesmo é da poluição gerada por tal opção.  Dá uma olhada em como anda a poluição em São Paulo:

Imagem aérea do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. A Região Metropolitana de São Paulo é esse borrão vermelho de poluição. (Foto: INPE - clique na imagem)

Ou checa como está agora a qualidade do ar segundo a medição da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. Quando escrevo este post, domingo à noite após um fim de semana de feriado, em que a cidade permaneceu praticamente vazia de carros e o tempo seco ensaiou uma trégua, ainda havia um monte de pontinhos amarelos em destaque – que, além de atenção, sinalizam que a qualidade do ar está regular e que “pessoas com doenças respiratórias podem apresentar sintomas como tosse seca e cansaço“, conforme a legenda do mapa.

Esse é o principal problema. Nos acostumamos em ver mapas com os pontinhos amarelos, quando eles deveriam chamar nossa atenção. Todo dia tem pontinhos amarelos no mapa e isso é grave. O poder público até esboça algumas reações, como controle de emissões e revisões periódicas, mas ainda é muito pouco frente à dimensão do problema. Quem polui mais tem que pagar mais ou rodar menos. Simples assim. Desde o ano passado, dá para saber os carros novos que mais poluem. Se você acha que é impossível deixar o seu na garagem uma vez por semana, duas vezes, seja para tomar um ônibus de vez em quando ou para tentar ir de bicicleta para o trabalho, então, PELO MENOS, tente não comprar um caminhãozinho que bebe combustível na mesma velocidade que solta fumaça na cara de quem não pode se dar a esse luxo.

Mais dia, menos dia, quem polui mais terá que arcar com o impacto ambiental provocado. É questão de justiça com senhores como este do chapéu.

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1 Response to “O homem que comia fumaça”


  1. 1 eduardomerge 13/07/2010 às 4:38 am

    Daniel, quem sabe um dia teremos a Logística Reversa da Poluição.


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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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