Empate

Rua Faustolo, Lapa, 13h30, pedalo para o trabalho depois de um bom almoço. Não é um trecho que me empolga muito, tem ônibus demais, é movimentado. Mas, de todas opções que eu tenho para cortar a Lapa, talvez seja a melhor. A sequência de semáforos impede que os carros ganhem velocidade e, indo com cuidado pela esquerda (longe dos ônibus), atento com apressadinhos, dá para fazer o percurso com relativa segurança.

Pois bem. Dia de jogo do Brasil, dia de pedalar com mais calma ainda. Começo a escutar a buzina lá de trás e me afasto da pista com cuidado, aproveitando uma brecha entre os carros estacionados. Aguardo a estupidez, previsível.

O carro vem, o motorista buzina, acelera e freia compulsivamente. No banco de trás duas meninas com aquelas cornetas de ar, espécie de vuvuzela motorizada – em vez de assoprar, é só apertar um botão para o fuuuuuuuuum. Ele reduz a velocidade do meu lado, elas apertam a buzina. Não me assusto, já tinha antecipado o ataque. Me afasto, espero ele parar no semáforo e encosto do lado do patriota eufórico com o empate sem gols com Portugal e começo o diálogo (?):

– O senhor poderia ter me matado.
– Mas é Brasil! Brasiiiiil!
– Se eu me assusto, eu poderia ter caído em baixo da sua roda.
– Ah, é Brasiiilll, Brasiilllllll. Fuuuuuuuuuummmm.

Ele parece bêbado. As meninas riem. Ele gargalha. Fosse um entusiasta da violência, teria delicadamente encaixado meu guidão entre os dois dentes da frente do polido patriota. Ele acelera, buzina, rasga a faixa de pedestre; uma senhora que, com relativa dificuldade subia na guia, quase cai apavorada. Encho o pulmão para um acusatório assassino. Lá na frente, quase dez minutos depois, encontro o homem-tão-educado-quanto-o-Dunga parado no congestionamento, ainda buzinando e rindo. Ele escapa quase ao mesmo tempo em que eu encosto em um agente de trânsito.

– Você viu? Aquele cara estava ziguezagueando em cima de pedestres, buzinando para todo mundo, parecia bêbado.
– Qual cara?
– Aquele… Putz, foi embora.
– Depois de jogo é sempre assim.
– Poxa, é um absurdo.
– É, a gente não pode fazer nada. A polícia disse que ia colocar uns comandos para tentar evitar. Neste tipo de caso, só autuando na hora mesmo. O pessoal exagera mesmo.
– Absurdo. Bom, tudo bem. Obrigado e bom dia.
– Imagina. Bom dia também. E cuidado com a bicicleta.
– Sempre.

Dia de empate, um 0 a 0 com Portugal.

Comemorações

Enquanto gente como o patriota entusiasmado e educado comemora buzinando em cima das pessoas por aí, tem gente que tem aproveitado os dias de jogos do Brasil de outras formas. Na primeira rodada, um grupo aproveitou o vazio na cidade e pintou uma faixa de pedestre no acesso da Ponte da Cidade Universitária, conclamando os motoristas para pisarem no freio devido ao sempre intenso fluxo de pedestres.

Faixa de pedestre pintada no acesso da Ponte da Cidade Universitária. (Foto: Luddista/Apocalipse Motorizado)

No dia do jogo contra a Costa do Marfim, outras pessoas sinalizaram a presença de ciclistas no Jabaquara, uma maneira de tentar frear o impulso assassino de motoristas que dirigem com a delicadeza do citado buzinador.

Há também quem retrate como a cidade fica sem a poluição, velocidade e barulho dos motores. Gente esquisita, fora do normal, subversiva. E se eu disser que sábado tem gente organizando uma pedalada para deficientes visuais e que domingo tem um grupo que vai se reunir para, de bicicleta, plantar árvores em São Paulo?

Onde vamos parar? Para frente, Brasil.

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6 Responses to “Empate”


  1. 1 Eduardo Merheje Jr 25/06/2010 às 7:53 pm

    Bom alerta as autoridades para esses abusos impunes… O trânsito exige prudência e tolerância!

  2. 2 Bruno Lupion 26/06/2010 às 1:46 am

    Que selvagens, chamaste a polícia? Esse motorista precisa de uma bela prensa.

    • 3 Daniel Santini 06/07/2010 às 6:36 pm

      Seu comentário estava preso antispam, Bruno. Não peguei placa do simpático motorista… Pena. Um abraço.

  3. 5 Pedala Brasil 30/06/2010 às 11:24 pm

    Oi, tudo bem? Estou pesquisando as preferências do ciclista brasileiro, para poder entender melhor o que ele necessita. Será que ele quer só esporte ou quer transporte? Estão todos contentes com a qualidade dos produtos disponíveis no mercado? Há muitos produtos mal feitos, mesmo quando importados.
    Ajude a entender o ciclista brasileiro respondendo essa pesquisa no link http://www.pedalabrazuca.blogspot.com.
    Se possível, encaminhe o link para seus amigos.

    Obrigado,

    Pedala Brasil


  1. 1 Protestos legais « Outras Vias Trackback em 06/07/2010 às 11:34 am

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Os autores

Daniel Santini é jornalista, tem 31 anos e pedala uma bicicleta vermelha em São Paulo. Também colaboram no blog Gisele Brito e Thiago Benicchio.

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